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Porto Alegre: possível circulação de veículos na rua dos Andradas divide opiniões

Prefeito Sebastião Melo disse que o assunto, abordado inicialmente pela pasta de Planejamento e Gestão, está “na mesa”

Calçadão da Rua dos Andradas, no Centro de Porto Alegre
Calçadão da Rua dos Andradas, no Centro de Porto Alegre Foto : Camila Cunha

A possibilidade de liberação da circulação de veículos no calçadão da rua dos Andradas, no Centro Histórico de Porto Alegre, provocou debate na população e entre as entidades, que veem o assunto sob diferentes prismas. O assunto foi inicialmente abordado pelo secretário de Planejamento e Gestão (SMPG), Cezar Schirmer, que, na semana passada, disse que a questão está sendo tratada em um contexto mais amplo, dentro do projeto Centro+, de revitalização da área central, e na esteira da conclusão das obras do Quadrilátero Central.

Ele afirmou que, caso haja esta permissão, o acesso será de maneira controlada, com tráfego limitado. Justificou ainda que há um "pedido da comunidade" para isto. Questionado na última segunda-feira sobre o assunto, o prefeito Sebastião Melo limitou-se a dizer que ele "está na mesa". "Esta matéria está em discussão. Eu vou tomar a decisão ouvindo muita gente", afirmou. Para a Federação das Câmaras de Comércio e de Serviços do RS (FCCS-RS), a eventual autorização "poderá ser benéfica em vários aspectos".

A entidade justificou, em nota, a possibilidade de a medida ampliar a circulação de pessoas nos estabelecimentos comerciais da região, "uma vez que a facilidade de utilizar o automóvel para chegar mais próximo do local que se deseja frequentar traz mais conforto para os consumidores". A FCCS-RS observou, no entanto, que é preciso preservar a vocação do calçadão para os pedestres. "Neste sentido, escutar as demandas de lojistas, moradores e de quem circula pelo espaço deve ser uma prioridade da Prefeitura para levar adiante essa mudança", a fim de que "a medida tenha sucesso e não seja causadora de contratempos."

Já o Sindilojas-POA disse ver a questão de maneira cautelosa e "abertura ao diálogo". Também em nota, a entidade representativa avaliou que uma reabertura parcial, em "horários específicos e regras claras", pode beneficiar o comércio, trazendo principalmente vantagens logísticas para transporte via veículos de aplicativo, bem como melhorias para entregas e fornecedores em geral. Alinhado ao posicionamento da FCCS-RS, o Sindilojas-POA também salientou que "qualquer mudança deve preservar a vocação do calçadão para o pedestre e ser construída com escuta dos lojistas da região, avaliação técnica e possibilidade de ajustes".

“É abrir mão de uma cidade mais segura, viva e democrática”, diz especialista

Para o arquiteto e urbanista Marcelo Arioli Heck, doutor em Planejamento Urbano e professor da Unisinos, não há cautela na insistência de soluções viárias centradas no automóvel. “Isto é abrir mão, conscientemente, de uma cidade mais segura, viva e democrática”, afirmou ele. “Embora seja compreensível que existam demandas pontuais por maior circulação de veículos na rua dos Andradas, a tendência do urbanismo contemporâneo é justamente a oposta, ou seja, priorizar o pedestre, especialmente em áreas centrais e históricas. Estudos e experiências práticas mostram que incentivar o uso de pedestres melhora indicadores de segurança, vitalidade urbana e desempenho do comércio”, afirmou ele.

Heck ainda diverge parcialmente da posição das entidades comerciais, dizendo que não há relação direta entre o aumento das vendas e a circulação de veículos. “Ruas seguras, acessíveis, bem iluminadas e confortáveis para caminhar tendem a gerar mais fluxo de pessoas e maior permanência. Experiências e estudos anteriores demonstram que o principal ganho não é “mais carros”, mas mais pessoas diferentes acessando as lojas ao longo do dia, o que amplia o potencial de consumo. Ou seja, mais do que liberar veículos, o fator decisivo é a vontade de gestão pública”, destacou Heck.

“Iluminação, segurança, manutenção, acessibilidade e ativação do espaço urbano são responsabilidades diretas do poder público. Onde há boa gestão, ruas para pedestres funcionam”. A rua dos Andradas, explicou o especialista, é peatonal, termo que indica vias exclusivas para pedestres, há mais de 50 anos, e esta mudança, além de requerer amplo debate, também contraria alterações parecidas feitas em outras vias da própria Porto Alegre, como na João Alfredo e Washington Luiz, que tem estudos em andamento, além de outros locais icônicos do mundo, como a Times Square, em Nova York.

João Alfredo: rua transformada após priorizar o pedestre

No caso da João Alfredo, uma das principais vias de circulação do bairro Cidade Baixa, e ponto recorrente de agitação noturna, no início de 2019 havia, segundo o instituto de pesquisa WRI Brasil, que auxiliou no processo de mudança, conflitos recorrentes entre moradores e clientes das casas noturnas locais, falta de segurança pública e viária. Foram, assim, instaladas, com apoio da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), novas travessias para pedestres, ilhas de refúgio, extensões de calçadas com pintura e uma nova rotatória, dentro do conceito chamado urbanismo tático.

Com maiores espaços para pedestres, as faixas para os veículos ficaram mais estreitas, reduzindo a velocidade do tráfego e o tempo de travessia dos pedestres, que, por consequência, ficou mais segura. Funcionou. De uma parte da via, a ideia se estendeu a outras. Dois meses depois da intervenção, a WRI Brasil mediu a velocidade média da área, atestando de 15 a 30 quilômetros por hora após as alterações na João Alfredo, contra 40 a 50 quilômetros por hora segundo medições feitas pela EPTC em 2017.

“Esses exemplos mostram que ruas voltadas às pessoas não são exceção, mas resultado de planejamento, dados e gestão. Um tema que impacta diretamente o uso do espaço público exige uma consulta ampla à população. Sem estudos técnicos apresentados e sem um processo participativo consistente, a proposta corre o risco de se tornar apenas uma opinião ou uma tentativa de ‘ensaio e erro’, o que não condiz com o histórico de decisões técnicas qualificadas de Porto Alegre”, comentou Heck.

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