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Estádio dos Eucaliptos: o campo que recebeu Pelé e moldou o Inter

Estádio recebeu jogos da Copa do Mundo de 1950, e foi palco do Rolo Compressor, resistiu por mais de 80 anos

Estádio que recebeu jogos da Copa do Mundi de 1950 e foi palco do Rolo Compressor resistiu por mais de 80 anos
Estádio que recebeu jogos da Copa do Mundi de 1950 e foi palco do Rolo Compressor resistiu por mais de 80 anos Foto : Ricardo Giusti

O Estádio dos Eucaliptos não foi apenas um marco para o Inter, sendo o primeiro campo próprio do time gaúcho, mas também foi palco de diversos acontecimentos em 38 anos de história. O estádio recebeu dois jogos da Copa do Mundo de 1950 e também viu a ousadia de Pelé em campo no auge dos seus 17 anos.

Situado na rua Silvério, no bairro Menino Deus, a construção da estrutura do estádio em 1931 contou com a ajuda da torcida e de prazos estendidos para pagar a dívida da área comprada, como lembra Kenny Braga no livro “Inter, Orgulho do Brasil”, publicado em 2009.

A construção foi chefiada pelo engenheiro Ildo Meneghetti, que mais tarde, em 1944, foi homenageado com o nome oficial do local. Meneghetti se tornaria patrono oficial do Inter, prefeito de Porto Alegre e governador do Rio Grande do Sul.

O campo, no entanto, ficou conhecido mesmo pelas mudas da planta trazida da Chácara dos Eucaliptos, antiga casa do time.

Em torno do campo, o estádio tinha um pavilhão de madeira que servia de vestiário e concentração dos jogadores e uma arquibancada esguia de cimento, com capacidade inicial de 10 mil torcedores. A estrutura sofreu reparos e foi em parte ampliada no decorrer dos anos, aumentando o número de lugares ao público.

“O Estádio dos Eucaliptos é uma praça de desportos que, já nas condições em que se encontra, faz honra ao desenvolvimento do foot-ball riograndense e, que quando terminada, pouco ficará a dever aos melhores campos do país”, dizia a reportagem do Correio do Povo sobre a inauguração do estádio na época. Além do campo de futebol, o local prometia ter canchas de tênis e de basquete, além de piscina de natação.

Registro de quando Vó Noemia conheceu o Pelé | Foto: Tiago Basso / Especial / CP

A poucos metros do Beira-Rio, sem perder de vista a história do clube que ajudou a construir, Vó Noêmia, como carinhosamente é chamada Noêmia Fontoura Pereira, lembra com orgulho dos momentos vividos nos últimos anos no Estádio dos Eucaliptos, na década de 1960.

“Era um estádio menor, tinha uma arquibancada grande de um lado, cadeiras do outro”, recorda. Naqueles anos, muitas vezes o estádio usado pelo Inter era o do rival, o estádio Olímpico, principalmente em jogos nacionais, como os disputados pelo Inter no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, uma espécie de campeonato brasileiro da época. “A gente muitas vezes no Olímpico ver o Inter”, recorda.

Da velha cancha situada na rua Silveiro, ela lembra do jeito inusitado que entrava no estádio. “A gente passava pela catraca e passavam a mão na gente”, conta sobre os recorrentes assédios que aconteciam. O preconceito de ser uma mulher em um espaço amplamente masculino também foi enfrentado em tempos de regime militar no país. “Era brabo, difícil, tu tinha que ir bem acompanhada, mulher que ia em jogo era chamada de mulher da vida, sem família. Eu tinha uma turma de amigos, e ia com essa turma”, conta ela, que ainda assim ouvia poucas e boas dentro das arquibancadas.

Se dentro de campo, o rendimento do time não era bom, restava para torcida sair do estádio dos Eucaliptos e ir ver como estava ficando a construção da nova casa, o estádio Beira-Rio.

Pelé nos Eucaliptos

Jornal Correio do Povo noticiando a chegada de Pelé em Porto Alegre | Foto:

A chegada de Pelé na capital gaúcha, junto com os demais jogadores do Santos, foi um alvoroço. O sorriso largo do menino mineiro estampou a página de esporte do Correio do Povo em 24 de setembro de 1958.

"O mais jovem campeão do mundo de todos os tempos, onde ia deslocava uma verdadeira multidão em suas águas. Foi o que mais falou, o mais fotografado, o que mais concedeu autógrafos. E logo recebeu um título a mais: Campeão da Simpatia!".

Naquela noite, o público teve a oportunidade de ver o craque Pelé jogando pelo Santos em partida contra o Inter nos Eucaliptos. Apesar do caráter amistoso, a goleada foi de 5 a 1 sobre o time convidado.

O fim dos Eucaliptos

O Estádio dos Eucaliptos foi campo oficial do Inter até 1969, quando o clube deixou a estrutura na rua Silvério, em meio à selva urbana, e se ‘mudou’ para mais próximo das águas do Guaíba, na avenida Padre Cacique.

A estrutura existiu por mais de 80 anos, até ser vendida para uma construtora em 2010. Antes disso, durante muito tempo ficou abandonado e depois quadras de futebol 7 foram construídas no espaço. Em 2012, o estádio começou a ser demolido. Um condomínio e uma praça foram construídos no local.

Na imponente arquibancada, o público vibrou por 15 títulos citadinos/metropolitanos e 15 títulos gaúchos, além de ver o Colorado ganhar o sobrenome de “Clube do Povo” a partir de marcos importantes como o Rolo Compressor. Em seu gramado desfilaram jogadores notáveis da história colorada, como Tesourinha, Carlitos, Larry e Valdomiro. O último jogou nos dois estádios do Inter.

A última partida ocorreu em 26 de março de 1969, uma goleada de 4 a 1 do Inter sobre o Rio Grande. Poucos dias depois, em 6 de abril, o Beira-Rio foi inaugurado. Trinta anos depois, um novo jogo entre as duas equipes marcou a volta do estádio e a despedida definitiva. Desta vez, o Inter venceu de 6 a 1 e o estádio nunca mais teve uma partida oficial.

Em 2015, o espaço ao lado das torres residenciais ganhou a Praça Memorial Eucaliptos – uma espécie de museu a céu aberto – com painéis que lembram acontecimentos históricos ocorridos naquele mesmo chão. De memória física, ficaram as duas traves de goleira originais do Estádio dos Eucaliptos.