A praça Brigadeiro Sampaio, no Centro Histórico de Porto Alegre, é um dos territórios de memória social e cultural da cidade. O espaço público de lazer já recebeu diversos nomes ao longo da sua história, sendo Largo da Forca um deles, entre 1816 e 1857. No local, ocorriam enforcamentos por condenação, na grande maioria de escravos.
A região era chamada de Largo do Arsenal, a ponta de outros dois largos importantes na cidade, o Largo dos Ferreiros (que futuramente vai ser a região do Mercado Público) e o da Alfândega, que era a principal entrada da cidade.
Junto a portugueses, indígenas e espanhóis, havia uma grande mobilização da população escravizada, homens e mulheres, conta o historiador e pesquisador da PUCRS, Charles Monteiro. “Eles trabalhavam em casas de serviços variados e circulavam pela região vendendo os mais variados produtos, de comidas e artesanatos a animais vivos.”
Segundo Monteiro, aquela margem da cidade começou a ser mais valorizada e urbanizada a partir do início da construção da Basílica Nossa Senhora das Dores, que foi acompanhada pela expansão da vizinhança no entorno. Antes, era uma região abandonada.
Com o fim dos enforcamentos, o lugar passou a se chamar Praça da Harmonia, nome dado pela Câmara Municipal da época. O logradouro também se chamou de Ponta das Pedras, primeiro nome por conta da região próxima ao rio, Praça do Arsenal, Praça Martins Lima e Praça Três de Outubro.
Enforcamentos e o apagamento da memória
Redescobrir a Cidade, Praça Brigadeiro Sampaio
As execuções eram públicas e contavam com um cerimonial: o condenado saia em cortejo desde as proximidades da Santa Casa de Misericórdia, passando pela Rua da Praia. Ele era acompanhado por um sacristão e um sacerdote, além da população que estivesse disposta a acompanhar o rito.
Esses episódios eram anunciados nos jornais e considerados de caráter ‘educativos’ a outros escravos, que assistiam os enforcamentos. “Escolas levavam crianças para assistir”, afirma Monteiro, lembrando que no período colonial a forca era um rito de quando tinha desordem, uma forma de reorganização da sociedade.
O historiador brasileiro Sérgio da Costa Franco, documentou em um livro 22 casos de enforcamento ocorrido no Largo da Forca. Deste total, 16 eram de escravos, o que, na visão do autor, reforçava que a pena de morte era um instrumento de ameaça e sujeição aos dominados. O primeiro caso ocorreu em 1821 e levou o africano preto Joaquim, de nação Mina, à condenação mortal por supostamente ter assassinado sua senhora, em Triunfo.
No final da Guerra dos Farrapos a fortificação é demolida, estrutura que era basicamente troncos com terra. "Neste momento a região começa a ser mais frequentada. Limpa-se o mato, planta-se árvores. Aos poucos a população começa a frequentar aquele espaço”, afirma o historiador.
Ao final do século, o largo do Arsenal recebe uma espécie de amurada, transformando o lugar em praça. “O cronista Aquiles Porto-Alegre escreveu que era um espaço de encontro da população, que tinha um ringue de patinação e espetáculos.”
O século 20 chega com a construção de um porto, com armazéns e uma estrada de ferro. Mais adiante, há a colocação da Usina do Gasômetro, em 1928, com uma posterior reurbanização da praça Brigadeiro Sampaio, com a jardinagem e organização dos espaços.
"Quando olhamos a história, esses lugares, no geral, passam por um processo de ressignificação. Esse processo cria uma nova memória, um novo significado. Essa transformação ocorre através da reurbanização. Se dá uma nova feição ao lugar, se frequenta de outras maneiras e se estabelece novas práticas, uma nova ocupação", explica o historiador.
A praça hoje conta com a instalação do tambor, que remonta à circulação do povo afro naquele espaço. Não há, no entanto, nenhuma sinalização sobre o Largo da Forca, que remete ao episódio. “Precisamos pensar em formas para elaborar de certa forma nosso passado traumático”, coloca Monteiro.
Local de resgate da cultura e da memória afro
Praça do tambor
Em uma das laterais da extensa praça está o “Tambor”, uma das quatro instalações do Museu do Percurso Negro em Porto Alegre. As demais estão na Praça da Alfândega, Mercado Público e no Chalé da Praça XV, todos os pontos no Centro da capital gaúcha.
"O Tambor é um museu praticado. Qualquer reivindicação ligada ao movimento negro na cidade é feita aqui, de forma espontânea. Espaço de protesto, ativismo, celebração. Ele se tornou um símbolo, um ícone", diz Pedro Vargas, historiador e um dos idealizadores do Museu do Percurso.
Há 14 anos, o projeto nasceu com o propósito de ser uma contra-ação à prática de apagamento da história social, cultural e trabalhista do povo africano e seus descendentes. Para Vargas, hoje é muito mais que isso: uma praça conhecida popularmente como a “praça do tambor”.
A escolha do instrumento é pela representação de algo que “percute e repercurte”. Nele estão esculpidas figuras de estudantes negros, quitandeiras, capoeiristas e artistas.
A ideia do Museu do Percurso Negro em Porto Alegre surgiu a partir de uma demanda da comunidade negra que constatou que em vários espaços da cidade, onde a identidade era baseada na presença negra, a memória tinha sido apagada. Ela não estava em nomes de praças, em monumentos e nem em nomes de ruas. “Chama muito atenção que as menções à memória negra sempre são associadas à cultura e nunca ao trabalho”, coloca Vargas sobre a invisibilidade do trabalho que ergueu a cidade mais importante do Estado.
A expectativa é que o trajeto do Museu do Percurso seja ampliado em breve. Redenção, Esquina Democrática e a Igreja do Rosário são alguns lugares que estão sendo discutidos.
Na outra ponta da praça, de frente para a rua Sete de Setembro, está a estátua do general que dá nome ao parque público. Brigadeiro Sampaio atuou como inspetor da arma de Infantaria na Guerra do Paraguai, sendo nomeado mais tarde patrono da arma de Infantaria no Brasil. Também integra a praça um cachorródromo, uma quadra poliesportiva e uma praça infantil.
As histórias que correm
Uma das histórias relacionadas ao Largo da Forca mais conhecida, e reproduzida muitas vezes por cronistas, é a da maldição direcionada à construção da Basílica Nossa Senhora das Dores, situada na Rua da Praia, a poucos metros da praça.
Fundada em 1801, a igreja levou quase 100 anos para ser totalmente concluída. A demora na construção das torres, sobretudo, chegou a ser justificada por conta de uma ‘maldição’ feita por Josino, um homem que supostamente trabalhava nas obras do templo. Ele foi condenado à forca por roubo, apesar de defender sua inocência. Antes de morrer ele teria jogado uma maldição, que comprovaria sua inocência: o responsável pelas obras nunca veriam as obras da igreja concluída.
Uma outra também remete às condenações. “Os moradores da região falam até hoje que tem uma árvore na praça que o tronco dela é deitado em razão do peso de ser um lugar relacionado à morte”, lembra o historiador Pedro Vargas.
Escavações revelaram material pré-colonial
Em 2014, um material arqueológico foi encontrado durante escavações na praça. Tratava-se de uma ponta de flecha e pedaços de cerâmica utilizados por povos indígenas no período anterior à colonização europeia na América.
No trecho, já havia sido encontrado parte do muro da antiga cadeia de Porto Alegre, a Casa de Correção, localizada na Praça Júlio Mesquita, junto à rua General Salustiano entre a Duque de Caxias e a Riachuelo. O prédio, construído no século XIX, foi demolido no início da década de 1960.