Redescobrir a Cidade

São Geraldo: conheça a história do bairro de clubes, sindicatos, igrejas e escolas

Bairro tem história marcada pela migração de europeus de diversas nacionalidades e pela industrialização de Porto Alegre

Foto : Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/LÉO GUERREIRO E PEDRO FLORES

Te convido a uma caminhada pelas ruas da Porto Alegre de um século atrás. Andamos por uma região industrial, operária e multiétnica da capital gaúcha. Na avenida Voluntários da Pátria, se concentram as fábricas: o imponente Moinho Rio-Grandense, a Fiação e Tecidos Porto Alegre (Fiateci), a Irmãos Jamardo, entre outras. A industrialização está a todo vapor na cidade e a demanda por mão de obra atrai imigrantes de várias partes da Europa.

Estamos no bairro São Geraldo, mas esse nome ainda não existe. A avenida Farrapos é só uma ideia, que virá a substituir a modesta rua Minas Gerais. O Cais Navegantes não recebeu aterro. Da Voluntários da Pátria para lá, já é o Guaíba.

Dobramos em direção ao bairro e estamos cercados de pequenas casas de porta e janela. Nelas residem famílias operárias, as pessoas que fazem funcionar aquelas fábricas que vimos há pouco. Na Rua do Parque, além das casinhas, se concentram associações e entidades operárias. Podemos ver os trilhos das linhas de bonde.

Sem roteiro, nos perdemos por algumas ruas e passamos por um clube polonês, criado em 1896, por um clube multiétnico fundado por italianos de Veneza, por sindicatos, uma associação de operários bielorrussos e entidades ligadas aos imigrantes alemães.

Além dos clubes, a presença de cada comunidade é marcada por uma igreja, associada a uma escola.

Anoitece e chegamos a uma ampla via iluminada. É a avenida Eduardo - que, no futuro, se chamará Presidente Roosevelt. Mais adiante, temos a São Pedro. Se antes passamos pelas fábricas, pelos operários e suas organizações, agora chegamos onde, após o expediente, todo esse pessoal se diverte e gasta o seu dinheiro. Ali estão os comércios, cinemas e clubes sociais: o lazer e a vida noturna do bairro. Assim era a paisagem do bairro há cem anos.

Avenida Presidente Franklin Roosevelt, antiga avenida Eduardo, em 1976 | Foto: Carlos Rodrigues / CP Memória

O São Geraldo integra o Quarto Distrito de Porto Alegre. A região tem sua história fortemente marcada pela chegada de imigrantes europeus, pela industrialização e, posteriormente, pela desindustrialização e um consequente processo de decadência.

O bairro leva o nome de uma antiga igreja, construída em 1925, na avenida São Pedro, e que não é a atual paróquia São Geraldo, erguida rapidamente entre 1940 e 1941, apesar da grande enchente. Antes, a região era chamada principalmente de Navegantes-São João ou mesmo de arraial do São Pedro. É o que nos conta o historiador Frederico Bartz, técnico em assuntos educacionais da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs.

Ainda que a ocupação da área seja antiga, o nome de São Geraldo veio somente na década de 1950. Em 1949, os moradores encaminharam à Câmara de Vereadores um memorial que deu início à oficialização e delimitação do bairro. O processo se consolidou dez anos depois, com a lei municipal que criou o São Geraldo, com um traçado semelhante ao atual.

Um Caminho Novo para uma nova cidade

Voltemos um pouco mais no tempo. Em 1806, o então governador Paulo José da Silva Gama autorizou a abertura de uma rua, a partir do centro. A via, que foi aberta cinco anos depois, levou o nome de Caminho Novo, atual avenida Voluntários da Pátria.

Em 1895, quando a Companhia Territorial Porto-alegrense loteou a área e abriu diversas vias, muitas ainda existentes, como as avenidas Amazonas, Bahia, Brasil, Pará, Paraná, Pernambuco e Maranhão. A criação da linha de bonde São João, pela Companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense, também contribuiu para o povoamento. É nesta época que começam a surgir as fábricas, primeiro na região do Floresta, posteriormente se espalhando ao Norte, pelos atuais São Geraldo e Navegantes.

Construção do Caminho Novo, atual avenida Voluntários da Pátria, na década de 1900 | Foto: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Virgílio Calegari

Rua do Parque, centro da vida operária

“Para além das fábricas, é importante marcar que aquela região teve uma vida associativa muito rica”, destaca Bartz. “Se a gente pega um recorte do que hoje é o São Geraldo e volta para os anos 1920, ali estavam a Federação Operária; o famoso Salão Hoffmann, onde sindicatos, clubes e grupos étnicos se reuniam; na área onde hoje é a Farrapos, teria a Sociedade dos Alemães Socialistas, uma entidade anarquista; e tinha o Clube Gondoleiros, que tinha maior protagonismo dos italianos, mas que era multiétnico. Ali tu encontra alemão, espanhol, sírio, libanês. Na rua Bahia, tinha a União Luz Operária Russo-Branco/Ucraniana, que era uma sociedade que tinha ligação com a União Soviética e que foi fechada pela Lei de Segurança Nacional, do Getúlio Vargas, em 1935.”

Ainda que a ocupação tenha iniciado com o loteamento das antigas chácaras e fazendas no fim do século XIX, Bartz ressalta que a região engrenou mesmo a partir da década de 1910, com o impacto da industrialização. O historiador define a Rua do Parque, uma das mais antigas de Porto Alegre, como o centro da vida operária da cidade.

“São Geraldo é a região Sul do Quarto Distrito. É a região mais habitada, porque está mais próxima ao Centro e porque é servida por linhas de bondes, logo se torna mais interessante para se estabelecer projetos de habitação popular. E tem uma intensa vida associativa, com muita presença operária. É o bairro de clubes, sindicatos, igrejas e escolas.”

Moinho Rio-Grandense e Fiateci, as grandes fábricas

A Fiateci foi a principal unidade fabril do bairro. Fundada em 1891 por Manoel Py - empresário, político, banqueiro e coronel da Guarda Nacional - a fábrica ocupava área equivalente a três quarteirões inteiros, se estendendo da avenida Voluntários da Pátria até a rua Santos Dumont.

Desde 2010, a Fiateci opera em Canoas. Nos últimos anos, foram construídas duas torres residenciais e uma comercial no terreno que era ocupado pela fábrica. O empreendimento Rossi Fiateci preserva, além do nome, parte das antigas estruturas de produção, onde era prevista a construção de um Memorial do Tecido.

Fiateci foi uma das principais fábricas da região, fundada no fim do século XIX | Foto: Camila Domingues / CP Memória

O Moinho Rio-Grandense foi construído em 1916 na esquina da Voluntários da Pátria com a Moura Azevedo. A edificação ainda existe e é considerada uma das primeiras e mais importantes da arquitetura fabril moderna em Porto Alegre.

Na avenida São Pedro, ficava a fábrica de móveis da Jamardo Irmãos, empresa criada no início dos anos 1900, pela família Jamardo, originária da Galícia. Ali foi construída boa parte da mobília do Palácio Piratini.

Desindustrialização e decadência

O historiador Frederico Bartz marca a década de 1940 como o começo da decadência da antiga região industrial da cidade, tendo nos anos 1960 um agravamento desse processo. Alguns fatores ajudam a entender essa mudança de perfil da área.

A enchente de 1941 e o temor de novas cheias torna a região menos atrativa à instalação de fábricas, que migram mais ao Norte. A Wallig muda sua planta para o bairro Cristo Redentor; a metalúrgica Zivi-Hércules vai do Floresta para o Passo D’Areia; a Renner constrói suas novas unidades na Vila Ipiranga.

“Começa a ter a migração das plantas e o potencial de crescimento industrial muda para aquela região. Além disso, o primeiro Plano Diretor de Porto Alegre, em 1959, torna mais difícil instalar fábricas em zonas urbanas”, afirma.

Enchente de 1941, na recém inaugurada Avenida Farrapos | Foto: Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Décio Kraemer

Outro trauma da década de 1940 citado por Bartz é a segunda guerra mundial. “Houve uma perseguição muito grande aos migrantes, com prisões, fechamento das escolas das sociedades italiana e polonesa. Então, tem um desmantelamento da sociabilidade daquela região, que se dava principalmente a partir dos grupos imigrantes.”

Há também um importante fator econômico, relacionado à mudança dos modais de transportes. Se a proximidade dos trapiches do Guaíba e das linhas férreas, em dado momento, deu àquela região o potencial industrial, a preferência pelo transporte rodoviário, com a construção da Freeway e outras rodovias, mudou esse cenário completamente. Passou a ser mais atrativo construir as fábricas na região metropolitana, próximas às estradas.

Assim, a região fabril perdeu suas indústrias, boa parte de seus moradores, e sua vida comunitária.

Mas quem fizer o trajeto do começo deste texto em 2026 ainda pode encontrar algumas das construções históricas do São Geraldo, ainda que parte delas tenha sido modificada.

Apresentação de grupo teatral, em 1904, na Sociedade Polônia | Foto: Acervo Sociedade Polônia

A Sociedade Polônia – criada a partir da junção dos clubes Zgoda e Águia Branca - segue ativa e celebra 130 anos no próximo dia 14 de novembro. As antigas sedes dos Gondoleiros, na esquina da rua Moura Azevedo com a avenida Presidente Roosevelt, e do Clube Vasco da Gama, no fim da Rua do Parque, próximo da Voluntários, ainda estão lá. O prédio que abrigava a União Luz Operária Russo-Branco/Ucraniana, na esquina da São Pedro com a Bahia, é hoje uma loja de lâmpadas e material elétrico.

O bairro São Geraldo hoje

A área do bairro vai da avenida Benjamin Constant até a beira do Guaíba. É limitada, ao Norte, pela avenida Brasil; e, ao Sul, por uma linha tortuosa e recortada que compreende trechos das ruas Olinda, Almirante Tamandaré, Conde de Porto Alegre, Do Parque, Voluntários da Pátria e Consolação.

A população do bairro São Geraldo é de 6.948 habitantes, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há 4.402 domicílios no bairro, sendo 431 casas e 2.866 apartamentos. A média é de 2,1 pessoas por domicílio.

O São Geraldo faz limite com outros três bairros, todos partes integrantes do Quatro Distrito da capital: Floresta, ao Sul; Navegantes, ao Norte; e São João, a Leste.

Antiga sede da Sociedade Gondoleiros, em 1972 | Foto: Ary Rocha / CP Memória

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