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“Se não contivermos o poder punitivo do Estado, acaba num genocídio”, alerta jurista argentino em Porto Alegre

Ex-ministro Eugenio Raúl Zaffaroni criticou o avanço do punitivismo e alertou para os riscos do poder estatal sem limites

Eugenio Raúl Zaffaroni realizou palestra na 2ª Conferência da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul
Eugenio Raúl Zaffaroni realizou palestra na 2ª Conferência da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul Foto : Pedro Belo Garcia

“O punitivismo não é um problema local, nem só de imperialistas. São momentos civilizatórios. E o que estamos vivendo neste momento é uma decadência civilizatória.” A avaliação do jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni deu o tom da palestra que ele ministrou durante a 2ª Conferência da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, na tarde desta quinta-feira. Diante de um auditório lotado de defensoras e defensores públicos, integrantes do Sistema de Justiça e especialistas, Zaffaroni abordou as garantias fundamentais, os limites ao poder punitivo do Estado e as estratégias de atuação na área criminal.

Referência mundial em direito penal, criminologia e defesa dos Direitos Humanos, Zaffaroni foi ministro da Suprema Corte da Argentina e juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Também é professor emérito da Universidade de Buenos Aires. A palestra ocorreu no Auditório Romildo Bolzan, na sede do Tribunal de Contas do Estado, em Porto Alegre.

Durante a exposição, o jurista afirmou que o poder punitivo contribui para a verticalização das sociedades, tanto em contextos de guerra quanto em relações de dominação entre países. Como exemplo, citou a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“O poder punitivo verticaliza as sociedades. Uma sociedade, para fazer guerra, tem de ser uma sociedade que tem uma estrutura bélica, fortalece o poder punitivo. É o que está fazendo o Trump nos Estados Unidos. Mas também o poder punitivo serve para verticalizar sociedades que são colonizadas. Isso é o que acontece com o poder punitivo nas nossas sociedades. As duas verticalizam: uma para dominar e a outra para ser dominada”, disse.

Para Zaffaroni, o punitivismo não tem origem no mundo jurídico, mas na política. Ao comentar o que considera uma onda mundial de políticos que defendem o endurecimento penal, afirmou que a civilização sempre conviveu com conflitos. “A nossa civilização sempre foi uma civilização de guerra”, declarou lembrando diversas guerras e colonizações no mundo.

Eugenio Raúl Zaffaroni realizou palestra na 2ª Conferência da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul | Foto: Pedro Belo Garcia

O jurista também alertou para os riscos da expansão do poder punitivo sem limites jurídicos. “Se não contivermos juridicamente o exercício do poder punitivo, acaba num genocídio”, afirmou, destacando a importância da atuação do Poder Judiciário e das defensorias públicas para garantir os direitos fundamentais.

Muito saudado pelos defensores presentes, Zaffaroni revelou que sonhava em ser defensor público em sua terra natal, a Argentina, mas acabou seguindo outro caminho e chegou à Suprema Corte do país. Para ele, a Defensoria Pública é o órgão jurídico mais importante de uma nação.

“[As defensorias] atendem todos aqueles que não têm condições de pagar um advogado particular, ou seja, os mais marginalizados, os mais estereotipados. Por causa disso, acho que uma nova dogmática jurídico-penal vai entrar no sistema através das defensorias, que vão pautar uma coisa dessas”, afirmou.

Antes da palestra, a defensora pública-geral do Estado do Rio Grande do Sul, Larissa Rocha Ferreira Caon, destacou a trajetória do jurista argentino e a contribuição de sua obra para a reflexão crítica sobre o poder punitivo estatal, a seletividade penal e a criminalização da pobreza.

“A obra do professor Zaffaroni nos permite ampliar esse olhar para percebermos que a expansão indiscriminada do direito penal, o encarceramento excessivo e a criação permanente de novos tipos penais podem ser apresentados como respostas para a criminalidade. Mas seus efeitos concretos podem ser muito diferentes daqueles prometidos pelo discurso punitivo”, afirmou.

Plateia ficou lotada para a palestra de Eugenio Raúl Zaffaroni | Foto: Pedro Belo Garcia

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