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Tecnologia para encontrar água em Marte reduz desperdício e acelera reparos no abastecimento de água no Rio Grande do Sul

Em pouco mais de um ano, ferramenta utilizada pela Corsan Aegea aumentou em 85% a eficiência na detecção de vazamentos, evitando o desperdício de bilhões de litros de água

Equipamento que monitora vazamentos é acompanhado pelo Centro de Monitoramento Integrado da Aegea, em Porto Alegre
Equipamento que monitora vazamentos é acompanhado pelo Centro de Monitoramento Integrado da Aegea, em Porto Alegre Foto : Mauro Schaefer / CP Memória

Inspirada em tecnologias criadas para explorar Marte, uma inovação espacial hoje ajuda a preservar um dos recursos mais valiosos da Terra: a água. Desde 2024, a Corsan Aegea utiliza no Rio Grande do Sul um sistema de monitoramento por satélite capaz de mapear redes de abastecimento e identificar vazamentos com até três metros de profundidade, inclusive em estágio inicial. Em pouco mais de um ano em operação, a ferramenta aumentou a eficiência na detecção de falhas e evitou o desperdício de bilhões de litros de água tratada, consolidando-se como um importante avanço técnico no saneamento gaúcho.

O gerente executivo de engenharia da Aegea, Giulio Capestrani, explica que o sistema, operado inicialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, trouxe um ganho imediato de eficiência. “O satélite agiliza em 85% o processo de identificação e alcança mais de 90% de precisão”, destaca. Segundo ele, a tecnologia indica os pontos suspeitos de vazamento e, em seguida, as equipes de campo utilizam geofones, equipamentos que captam vibrações no solo, para confirmar a origem do problema. “Com isso, reduzimos drasticamente o tempo de reparo, minimizamos a quebra de pavimentos e entregamos um serviço mais rápido e menos invasivo à população”, completa.

Evitar escavações desnecessárias é outro benefício direto da tecnologia. A identificação precisa dos vazamentos reduz a necessidade de abrir grandes áreas de pavimento, o que não apenas representa economia aos cofres municipais, mas também melhora as condições de mobilidade urbana e qualidade de vida da população.

Morador de Alvorada, Antenor Rodrigues, de 62 anos, lembra os transtornos que enfrentou antes da adoção do sistema, quando a frente do comércio que mantém no bairro Sumaré precisou ser bloqueada por obras. “Cavavam e não achavam o cano, e o buraco ia aumentando. Foram dois dias com a entrada da minha garagem trancada por terra e cavaletes, e mais uma semana até repor o asfalto, que afundou e teve que ser refeito”, recorda.

Desde o primeiro semestre de 2024, o satélite já varreu 5,3 mil quilômetros de redes da Corsan, encontrando indícios de vazamento em 1.058 pontos, dos quais 984 (93%) se confirmaram. “O resultado que obtenho em um mês com a varredura por satélite, eu levaria um ano inteiro para obter com métodos convencionais”, compara Capestrani.

A operação cobre atualmente Viamão, Gravataí, Cachoeirinha, Alvorada e Canoas, com previsão de expansão para Passo Fundo ainda neste ano, seguida por Bento Gonçalves e região. O investimento da Aegea para implementar o serviço no Estado foi de R$ 900 mil.

A tecnologia, já utilizada pela empresa desde 2017 em outras regiões do país, emprega softwares acoplados a radares que escaneiam o subsolo e identificam a presença de água potável pela detecção de cloro — diferenciando-a de lençóis freáticos ou rios subterrâneos. Uma vez mapeados os pontos suspeitos, as equipes confirmam e corrigem os vazamentos com maior agilidade. “Além de sermos mais precisos na abertura de buracos, o tempo de água vazando e de via interrompida é 80% menor. É ganho para a companhia e para a população”, reforça o gestor.

Em todo o Brasil, a Aegea monitorou por satélite mais de 21 mil quilômetros de redes em 2024, identificando 4.389 falhas. A estimativa é de que 8,6 bilhões de litros de água tratada tenham sido poupados. “É um ganho ao meio ambiente e ao serviço, pois captamos menos água, reduzindo a pressão sobre mananciais e diminuindo o tempo que a população fica sem abastecimento, além de reduzir custos operacionais e de tarifa”, conclui Capestrani.

Avanços em saneamento, energia e resiliência

O uso de tecnologias como o monitoramento por satélite faz parte de um conjunto mais amplo de investimentos realizados após a concessão da Corsan ao grupo Aegea. Dois anos depois da assinatura do contrato, em julho de 2023, os aportes somam R$ 3,85 bilhões, aumento de recursos que permite acelerar obras de ampliação e modernização das redes de água e esgoto em diferentes regiões do Estado.

No abastecimento, 180 mil novas ligações atenderam cerca de 540 mil pessoas, elevando a cobertura para 99,26% nas 317 cidades operadas. A capacidade de vazão passou de 19,1 mil para 25 mil litros por segundo, um acréscimo de 30% em dois anos. O programa de tarifa social também teve expansão significativa, de 45 mil para 673 mil famílias atendidas.

O Centro de Operações Integradas (COI), que recebeu R$ 60 milhões, passou a monitorar em tempo real parâmetros de pressão, vazão e qualidade da água. O sistema permite identificar falhas com maior rapidez e reduzir o tempo de interrupções no fornecimento.

Na área de esgotamento sanitário, 284 mil imóveis foram conectados à rede desde 2023, beneficiando 852 mil pessoas. O volume de efluentes tratados corresponde a 18,6 mil piscinas olímpicas por ano. Com isso, a cobertura de esgoto subiu para 28%, avanço de 40% no período.

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Infraestrutura e sustentabilidade

As obras de infraestrutura seguem como base da expansão do saneamento. Foram implantados 500 quilômetros de novas redes de água e 629 quilômetros de esgoto, além da construção de 11 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e três Estações de Tratamento de Água (ETAs). A perfuração de 289 novos poços ampliou a reserva hídrica e reforçou o abastecimento em situações de emergência.

A Corsan também substituiu 733 mil hidrômetros e instalou 365 geradores de pronta resposta para garantir operação em casos de falta de energia. Outras ações incluem a instalação de válvulas redutoras de pressão e a modernização de adutoras e sistemas de bombeamento, voltadas à redução de perdas e à eficiência operacional.

No Litoral Norte, região que historicamente enfrenta limitações no abastecimento e na coleta de esgoto, o chamado Plano Litoral prevê R$ 550 milhões em investimentos. Deste total, R$ 150 milhões já foram aplicados em obras de macroesgotamento e ampliação da rede. Entre as entregas estão a ETE Tramandaí, que atende cerca de 20 mil domicílios, o novo emissário de Xangri-Lá e a modernização das estações de Osório e Guarani, em Capão da Canoa.

Obras em Xangri-Lá, no Litoral Norte | Foto: Karine Viana / Divulgação / CP

A companhia também vem ampliando o uso de energia de fontes renováveis. Atualmente, 99% do consumo é suprido por energia limpa, e a meta é chegar a 100% até o fim de 2025. Parte desse fornecimento vem do complexo fotovoltaico de Janaúba (MG), inaugurado neste ano, com capacidade instalada de 144 MWp e contrato de fornecimento de 15 anos.

Após as enchentes de 2024, foi criado o Plano de Resiliência Hídrica, que prevê R$ 1,8 bilhão em investimentos em 55 municípios. As medidas incluem a realocação de unidades em áreas de risco, ampliação de reservatórios e perfuração de novos poços, para garantir abastecimento em situações de emergência.

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