A necessidade da sociedade abraçar a mudança das cidades – e, consequentemente, da economia para o seu planejamento é uma ideia defendida por Alain Bertaud, economista e urbanista, membro sênior do Marron Institute da NYU e com experiência de 20 anos no Banco Mundial. Para o urbanista, é importante que as regulamentações urbanas sejam flexíveis o suficientes para prever essa mudança, para não deixar a cidade rígida. “A cidade está sempre mudando, e ela enfrenta choques. Podem ser econômicos, podem ser físicos, como as forças das enchentes. E, portanto, a cidade precisa se adaptar constantemente”, disse em entrevista ao Correio do Povo, complementando que o uso do solo deve se adaptar às novas condições econômicas.
Ele participou do 3º Encontro Cidades Responsivas, que ocorre até esta quinta-feira no Instituto Caldeira e, em sua fala, trouxe uma visão crítica e pragmática sobre os caminhos para cidades mais funcionais e inclusivas. “O problema com o planejamento tradicional é que ele estabelece antecipadamente uma relação entre a quantidade de terra consumida e também o uso do solo. Portanto, a regulamentação precisa se adaptar à nova economia”, diz Bertaud. “Infelizmente, nossa forma tradicional de planejamento cria uma restrição, desacelerando a mudança onde deveríamos acelerá-la para encarar a realidade”, complementa.
Ele analisa que a mudança mais drástica está no decréscimo populacional, o que antes nunca foi visto globalmente, e a mudança da demografia tem um impacto enorme na força de trabalho. Levar isso em conta na revisão de um Plano Diretor, nas palavras de Bertaud, é essencial para conseguir adaptar a cidade para as mudanças – algumas até mesmo imprevisíveis – do futuro.
No evento, o autor do livro “Ordem Sem Design: Como os Mercados Moldam as Cidades” defendeu em sua fala que o planejamento urbano de uma cidade está diretamente ligada ao papel do mercado e ao desenvolvimento econômico. Suas experiências de observação em diferentes cidades levou à experiência para entender necessidades de planejamentos urbanos e as consequências disso. Nas suas palavras, o mercado muda o tempo todo e reflete a preferência das pessoas, bem como a mudança das cidades.
Ele entende que Porto Alegre tem medido o preço da habitação, que nada é mais importante que isso, e defende a necessidade de se avaliar o que mudou ano a ano para ajustar a infraestrutura e corresponder à demanda, também pensando que trabalhos se beneficiam da mobilidade urbana. "As cidades são o mercado de trabalho. É o mercado de trabalho que cria a cidade", diz, complementando que as pessoas vão à cidade por causa dos empregos, e que a cidade deve ser planejada com atenção ao mercado, porque não há ordem sem planejamento.
Luciana Fonseca, diretora do instituto Cidades Responsivas e uma das organizadoras do evento, disse que uma cidade sempre foi responsiva. “Ela é um sistema que existe a partir de acontecimentos que disparam ações que vão criando um organismo autônomo que é a cidade”, diz. O conceito define que uma cidade tem vida própria a partir das ações feitas pelos cidadãos, e ainda os coloca como sujeito como responsável pelas ações da cidade.
“Se a gente for imaginar ao longo da história, o planejamento urbano modernista que a gente vive até hoje em muitos sistemas de planejamento, foi uma resposta à loucura da Revolução Industrial. Essas regras viraram planos e a gente se acostumou a obedecer a elas. Atualmente, interessa a gente mudar essa prática de operação, porque o contexto que a gente vive é de revolução, mas não é mais industrial. É uma revolução digital, informacional, de tecnologia absolutamente transformadora. Junto a isso, a cidade cresceu, se tornou muito mais heterogênea, múltipla, complexa”, afirma.
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Na sua visão, a revisão do Plano Diretor de Porto Alegre já traz fundamentos mais contemporâneos, com conceitos estratégicos. Fatores de operações consorciadas, direito de preempção, então planos estratégicos setoriais, nas suas palavras, permitem entender a dinâmica da cidade e permitem que público e privado andem junto. A divisão da revisão para a outra parte, de dimensão normativa, também permite ganhar mais agilidade nas atualizações que forem necessárias para cada um dos regimes. “Me parece uma ótica interessante”, diz. Ela reconhece que o plano sofre críticas, mas defende que o sistema é utilizado por diversas outras cidades exemplos de responsivas, “mais alinhadas com a necessidade de dinâmicas de revisão, e que o plano se acomode à transformação da cidade”, complementa.