A regulação, as oportunidades e os desafios do novo mercado de carbono foi o mote da edição Diálogos Sustentáveis, série de debates do Instituto Latino-Americano de Desenvolvimento Econômico Sustentável (Ilades) que antecipam temas da COP-30. O evento ocorreu nesta quinta-feira, dia 24, no Paço Santo Inácio, em Porto Alegre. O debate tratou do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que estabelece o marco regulatório do mercado de carbono no Brasil e foi instituído em dezembro de 2024. A política visa a reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e estimular inovações tecnológicas de baixo carbono.
Entre os convidados, esteve Maria Belen Losada, superintendente, Global Markets & Treasury e Head of Carbon do Itaú; Carlos Alberto Mendes de Moraes, professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Unisinos, e Filipe Albano, gerente de qualidade e serviços do instituto do petróleo e recursos naturais e professor do PPG do curso de Mercado de Carbono da PUCRS.
Carlos de Moraes tratou principalmente da palavra “desafio” no tema. “Quando a gente fala em desafios, penso que temos um dever de casa para ser resolvido antes do próprio mercado de carbono”, afirma. Ele fez um contraponto tratando da questão da gestão de resíduos sólidos, que, afirma ele, é muito baixa no país. “Nós precisamos pensar na prevenção da poluição para poder atingir as metas que a própria organização das Nações Unidas vem trazendo, dentro da agenda 2030, que a gente está longe de atingir. Acho que o mercado de carbono vai ter sucesso se toda a sociedade trabalhar em conjunto para isso”, diz.
Maria Belen contextualizou sobre como funciona o mercado de carbono no mundo, os mercados regulado e voluntário e a conexão entre os dois. Também tratou das oportunidades para o Brasil dentro da geração de crédito de carbono, e como essa estratégia pode complementar estratégias agrícola ou industrial, e como pode expandir no financiamento. Ainda, Losada tratou da importância do mercado regulado para a transição das companhias, para que exista um mecanismo de mercado que crie um incentivo financeiro.
“Da regulamentação, ainda não temos muita informação, acompanho super de perto, mas como ainda não foi criado o órgão gestor do mercado - o governo está a ponto de anunciar, não temos tanta informação detalhada”, diz. “Tem muito detalhe técnico que ainda a gente vai nas próximas semanas, imagino, com o correr dos meses, a gente vai começar a entender a cabeça um pouco do governo a respeito”.
Filipe Albano tratou de como garantir a qualidade no crédito de carbono. “A gente está falando de um ativo intangível que tem muitas características técnicas em relação à medição dele. Como eu sei que, de fato, eu consegui remover ou reduzir o CO2 e aonde ele foi parar? Como garanto para o mercado que esse crédito foi de fato gerado? A gente vê muitos escândalos de empresas que geram créditos no mercado voluntário, que muitas vezes diminui um pouco a credibilidade desse processo e torna o tema até um pouco questionável”. Para ele, o grande desafio é a transparência, para garantir que os projetos realmente reduziram o CO2 e que ele não vai voltar para atmosfera.
A série Diálogos Sustentáveis foi centrada pré-COP 30, abrangendo os principais eixos que serão discutidos em novembro em Belém do Pará, afirma o presidente do Ilades, Marcino Rodrigues. Temáticas como saneamento, transição energética e a contribuição do agronegócio na agenda do clima já foram debatidos nas edições anteriores. Para o presidente, a palavra de ordem é “adaptação” às mudanças do clima. “O Ilades está completando 14 anos, nós estamos em festa, e o nosso propósito sempre foi trazer conhecimento e debate qualificado. Nós estamos falando algo que impacta 8 bilhões de pessoas no mundo ou mais. É um tema relevante que deveria estar na mesa do café, do almoço e do jantar”, diz.
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