Com o recuo do dilúvio ocorrido em maio no Rio Grande do Sul, comerciantes procuram retomar as atividades e, muitas vezes, aproveitar os produtos depois de limpos. Porém, isso tem provocado dúvidas, principalmente em relação à saúde. Desde a última semana, alguns estabelecimentos de Porto Alegre foram alvo de fiscalização do Procon. O órgão municipal constatou a venda de mercadorias alimentícias e outros produtos que ficaram submersos.
Ainda que as águas voltem ao seu curso normal, a população deve ter atenção ao adquirir os itens de supermercado e lojas. É o que recomenda a coordenadora da equipe de Vigilância de Alimentos, Nayara Poleto. Ela explica que o indicado é não consumir qualquer alimento que possa ter tido contato com a água suja. Independentemente do tipo de embalagem, eles devem ser descartados, ”em função de não ter como garantir que aquele alimento tenha tido algum tipo de alteração”, ressaltou.
Quanto aos enlatados, única exceção do grupo alimentício, é necessário observar se a lata não está amassada, estufada ou apresenta qualquer tipo de modificação. Ainda sim, ao chegar em casa, não está descartada a limpeza com água e sabão, tampouco a utilização de solução clorada para eliminar possíveis contaminações. A medida, contudo, se restringe ao uso doméstico, já que o comércio não pode garantir a eficiência dessa higienização.
Para compras efetuadas no setor vestuário, calçadista, entre outros do segmento, pode ser considerado o mesmo procedimento para a remoção de sujeira, que deve ser feita de forma mecânica. “Vai entrar em contato com a pele. E a nossa mão entra em contato com a roupa, com a boca e locais da mucosa”, aconselha Nayara. Outro cuidado rigoroso sugerido pela coordenadora deve ser com itens de mobília e estofados, como o sofá, que podem ser salvos desde que seja possível higienizá-los interna e externamente. Mas ela salienta que é importante conferir as recomendações formais dos órgãos de controle desta área.
Já o Procon salienta que mesmo que umedecidas, essas peças não devem ser comercializadas, a fim de se evitar potenciais riscos à saúde dos consumidores – já que o contato com a água pode ser uma fonte de contaminação.
O órgão assegura que, no caso do cliente notar alteração, o produto pode ser devolvido, pois “é direito do consumidor solicitar a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições, a restituição imediata da quantia paga, ou o abatimento proporcional do preço”.
Riscos para a saúde
Natan Kartz, médico e diretor do núcleo de Telessaúde da Ufrgs alerta para o risco de alergias na pele. Conforme o especialista, a contaminação pode ocorrer por conta da sujeira presente na água e também por produtos químicos usados durante o período de higienização dos ambientes. “Por isso é tão importante que as residências tenham água agora, porque as pessoas precisam ter essa disposição fácil de poder lavar as mãos e cuidar com as questões de higiene, para além da proteção indivudual”, reflete.
Esses componentes podem ser inalados, ingeridos ou absorvidos especialmente por conta deficiência na higienização das mãos. Há também outros tipos de reação alérgica, como rinite e asma, por conta do mau cheiro. Por isso, ele recomenda o uso de proteção individual, como botas e luvas e, se possível, óculos.
Além de um agravo nos quadros de síndromes respiratórias, que é observado todos os anos neste período, o médico sinaliza outras doenças que precisam de atenção neste momento: Hepatite A, doenças diarreicas e o Tétano Acidental, por exemplo.
Ele ainda sugere que a atualização do esquema vacinal segue sendo importante. Sobretudo para a dengue, mas sem esquecer das doses de reforço (como a do tétano, que é aplicada a cada dez anos). “Muitas vezes das crianças a gente cuida bastante da carteira vacinal. Mas é comum que depois de adultos, as pessoas acham que são imunes a tudo e acabam não olhando com atenção então essa questão”, reflete.
Em relação à legalidade da comercialização de produtos, o Procon informa que qualquer produto, seja de natureza alimentícia ou não, que esteve submerso ou umedecido em razão das enchentes, não devem ser comercializados.
Recomenda-se que produtos que tiveram contato com a águas da enchente, mesmo que umedecidos, não devem ser comercializados, a fim de se evitar potenciais riscos à saúde dos consumidores.Quando houver, eventualmente, episódios que demandem análise técnica em relação a itens ofertados oriundos de águas contaminadas, poderá ser feita ação conjunta do Procon com a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre para apuração e possíveis sanções administrativas.
Nas hipóteses em que o consumidor constatar alguma alteração no aspecto do produto, como algum odor ou coloração distorcida, deve-se procurar a vigilância sanitária do município. Porém, nas ocasiões de: produtos vencidos, preços abusivos, ausência de etiquetagem, ou ainda, divergência do preço apresentado na prateleira e o indicado no caixa, devem ser direcionados ao Procon.
Caso o cliente compre algum item e identifique algum tipo de avaria que possa ter sido causada por esse período em contato com a água, ele pode devolver ou até mesmo pedir reembolso, segundo o Procon. “É direito do consumidor solicitar a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições, a restituição imediata da quantia paga, ou o abatimento proporcional do preço.”
Para auxiliar neste momento de retomada, o Sindilojas e a CDL Poa realizou ações conjuntas de limpeza no Centro de Porto Alegre. O local, conhecido como o coração do varejo, foi um dos bairros mais afetados pela enchente na cidade. Em uma unidade móvel, integrantes das entidades percorreram as ruas Voluntários da Pátria, Otávio Rocha e Vigário José Inácio, atendendo aos pedidos e orientando os comerciantes.
*Sob supervisão de Karina Reif e Simone Schmidt