Em 2005, Graciela Duarte Boeira tinha 18 anos quando foi contemplada com uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos (ProUni). Moradora da periferia de Porto Alegre e vinda de uma família de origem humilde, enxergou naquela oportunidade a chance concreta de acessar o ensino superior e transformar sua realidade. Hoje, formada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e servidora do Tribunal de Contas do Estado, ela integra a primeira geração de estudantes beneficiados pelo programa, que completa 20 anos em 2025.
“Sempre tive consciência de que era através da educação que poderia superar barreiras, dificuldades e padrões. Na minha família, meus pais não tinham ensino superior, então, ter acesso a uma bolsa em uma instituição privada foi a quebra de um ciclo de escassez de muitas gerações. O ProUni é um divisor de águas, ele muda vidas.” afirma.
O programa do governo federal disponibiliza bolsas de estudos em universidades privadas de todo o país a estudantes de baixa renda. Ao longo de duas décadas, o ProUni concedeu 252.499 bolsas no RS, sendo 202.236 integrais e 50.263 parciais.
Desafios em busca do diploma
Ocupando um espaço até então pouco acessível a mulheres negras e pessoas com recursos financeiros limitados, Graciela conta que também precisou enfrentar o preconceito e o sentimento de não pertencimento. Ainda assim, não recuou.
“Busquei meu espaço através do estudo com vontade de vencer, de melhorar e ajudar minha família. Vi a educação como ferramenta de ascensão social. Fiz a faculdade com dedicação, entre estágios e uma rotina pesada, mas quando olho para trás, vejo que valeu a pena.”
Ao longo de duas décadas, o programa teve como maioria de beneficiários mulheres (56%) e pessoas negras (55%), segundo dados do MEC. Assim como Graciela, mais de 1,9 milhões de pessoas negras tiveram acesso ao ensino superior pelo programa.
A advogada ainda lembra com orgulho o fato de ter sido a primeira estudante do ProUni a receber a Láurea Acadêmica no Direito da universidade, uma homenagem concedida a estudantes de graduação que se destacam por seu desempenho durante o curso.
Programa segue abrindo caminhos 20 anos depois
Duas décadas depois, o impacto do ProUni se renova em trajetórias como a de Bianca Oliveira, 19 anos, estudante de Gastronomia na Unisinos. Em 2024, a jovem e sua família tiveram a casa em que moravam, no Quarto Distrito, em Porto Alegre, atingida pela a enchente e acabaram perdendo tudo. Mesmo abalada e com poucas expectativas, ela decidiu fazer o Enem. A nota, no entanto, foi suficiente para garantir uma bolsa integral e iniciar a faculdade no primeiro semestre de 2025.
“Abriu portas que eu nem imaginava que existiam. Nunca pensei que seria possível ingressar, com 18 anos de idade, em uma faculdade particular e no curso que eu sonhei a vida toda”, conta Bianca, que se prepara agora para o segundo semestre da graduação.
Bianca conta que sempre estudou em escola pública, tanto no ensino fundamental quanto no médio. Para ela, sua realidade econômica a distanciava de universidades privadas. A possibilidade do ProUni surgiu como uma forma de realizar o desejo de se formar na área que sempre foi uma certeza.
“Desde pequena, minha mãe fazia comidas pra vender, como docinhos, tortas, empadinhas, e a minha vó também já teve uma loja de comida congelada. Então, a comida sempre esteve ao meu redor e acabei me identificando com isso.”, afirma.
Já adaptada à rotina acadêmica, a jovem projeta seu futuro profissional com novas qualificações, inclusive fora do país.
Democratização do acesso
Criado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2004, o ProUni começou a conceder bolsas em 2005. Desde então, já beneficiou mais de 3,5 milhões de estudantes em todo o país.
O programa é considerado uma das principais políticas públicas de acesso ao ensino superior no país e também contribui para a diversidade do perfil dos estudantes e futuros profissionais do mercado de trabalho. Para Adriana Kampff, pró-reitora de Ensino da PUCRS, os impactos são positivos nas instituições de ensino.
“A política do ProUni é muito bem sucedida. Na nossa instituição ela seguiu melhorando os indicadores de aprendizagem nas avaliações externas, com a inclusão de estudantes de diversas origens, interesses e capacidades. São alunos que chegam com vontade de aproveitar a oportunidade e se envolvem ativamente em tudo o que a universidade oferece.” destaca.
Segundo a pró-reitora, a bolsa de estudos é o primeiro passo, mas é importante que o programa esteja alinhado a outras políticas de permanência.
“O ProUni talvez tenha sido o principal articulador do acesso de jovens em situação de vulnerabilidade à universidade, mas ele não pode ser a única política. É preciso somar ações como assistência estudantil, alimentação, transporte e acesso a materiais. Isso contribui para que o estudante consiga concluir os estudos com qualidade” conclui.
Bolsas disponibilizadas no RS
A ocupação das mais de 250 mil oportunidades concedidas pelo ProUni no RS sofreu variações ao longo dos anos. No gráfico abaixo, é possível observar que 2015 foi o ano com o maior número de bolsas preenchidas, com 21.837, enquanto 2021 foram apenas 7.465. Nos últimos quatro anos, entre 2021 e 2024, o número também ficou abaixo se comparado com os períodos anteriores.
Segundo o Ministério da Educação, a variação observada pode ter relação com a própria oferta de bolsas nestes anos e a demanda dos candidatos por determinados cursos. A pasta também afirma que tem investido em análises voltadas ao aprimoramento da oferta.
“O objetivo é tornar a distribuição das bolsas cada vez mais alinhada ao fomento do desenvolvimento local, e respondendo de forma mais efetiva às demandas regionais.” afirmou o Mec em nota.
Quem pode participar
Para concorrer a uma bolsa do ProUni, o candidato deve cumprir alguns critérios relacionados ao nível de ensino e renda familiar. Veja abaixo:
- Ser brasileiro sem diploma de curso superior
- Ter feito o Enem nos últimos dois anos, com média mínima de 450 pontos na prova objetiva e nota acima de zero na redação;
- Comprovar renda familiar: até 1,5 salário mínimo para bolsa integral, ou até 3 salários para bolsa parcial;
- Ter cursado o ensino médio em escola pública ou como bolsista integral em escola privada;
- Pessoas com deficiência podem participar
- Professores da rede pública podem concorrer a cursos de licenciatura e pedagogia, sem exigência de renda.
Cidades contempladas e cursos mais ofertados no RS
O ProUni está presente em instituições de ensino de 170 municípios do Rio Grande do Sul, com oferta de cursos presenciais e a distância (EaD).
As cidades com maior número de instituições participantes são Porto Alegre (77), Passo Fundo (28), Canoas e Caxias do Sul (27 cada), Gravataí e Santa Maria (26 cada).
Na seleção do segundo semestre de 2024, o curso de Administração liderou a oferta de bolsas no Estado, com 749 vagas — 630 integrais e 119 parciais. Em seguida, os cursos com maior número de bolsas foram: Pedagogia, Direito, Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Processos Gerenciais, Psicologia, Gestão de Recursos Humanos, Ciências Contábeis, Jornalismo e Enfermagem.
Taxa de conclusão avança, mas ocupação de bolsas ainda é obstáculo
O Censo da Educação Superior de 2023 apontou que 58% dos bolsistas do ProUni concluíram a graduação, o equivalente a 1,46 milhão de estudantes. Entre os alunos que não participaram do programa — pagantes ou financiados por outras modalidades —, a taxa de conclusão foi de 36%. Os dados evidenciam o impacto positivo do programa na permanência e na conclusão do ensino superior entre estudantes de baixa renda.
Apesar disso, o ProUni ainda enfrenta o desafio do elevado número de bolsas ociosas, aquelas que não são preenchidas nas chamadas regulares e na lista de espera.
De acordo com levantamento do Ministério da Educação, entre 2013 e 2023, apenas 48,9% das bolsas ofertadas foram efetivamente ocupadas por estudantes dentro do perfil de beneficiários.
Para Adriana Kampff, pró-reitora de Ensino da PUCRS, é necessário atuar em duas frentes para aumentar a taxa de ocupação das vagas: ampliar o acesso à informação e fomentar a valorização de áreas com baixa procura.
“Temos observado isso inclusive entre os alunos pagantes, de que existem áreas com menor busca, principalmente as engenharias e licenciaturas. Precisamos pensar sobre como a gente, enquanto país, vem fomentando a adesão a essas áreas e a valorização dessas profissões.”
Ela também reforça a importância de estimular a participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ainda no ensino médio, já que a prova é porta de entrada para o ProUni e outros programas de acesso ao ensino superior.
“Muitos ainda acham que é uma realidade inatingível, precisamos desmistificar isso.”