Ensino

Exame de Ordem para médicos recém formados em pauta no Legislativo

Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers) adota posição favorável ao projeto do senador astronauta Marcos Pontes, que cria um exame de progressão a ser aplicado a cada dois anos durante a faculdade

Foto : Marcelo Camargo / Agência Brasil / CP

A implantação de um Exame de Ordem para médicos é discussão antiga no Brasil. Há pelo menos duas décadas discute-se a possibilidade dentro dos conselhos médicos regionais. Mas nesse meio tempo, alguns projetos já passaram pelo congresso nacional. A ideia é testar a capacidade dos profissionais recém formados; e estabelecer um padrão de qualidade para a prática médica, tendo em vista o aumento das faculdades de Medicina no país, e buscando assegurar a confiança nas instituições de Ensino Superior e garantir a segurança da população.

Atualmente, dois projetos tramitam no Legislativo com propostas parecidas. O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) adota posição favorável ao projeto do senador astronauta Marcos Pontes, que cria um exame de progressão aplicado a cada dois anos durante a faculdade em curso. Segundo o presidente do Cremers, o médico-cirurgião Eduardo Trindade, o conselho já possui articulações com os conselhos regionais de Goiás e do Rio de Janeiro, para defender o Exame de Ordem junto aos parlamentares.

Hoje, o Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) é o único a realizar uma prova de proficiência médica em nível estadual, aplicada no momento em que o médico vai obter o registro profissional. O exame é elaborado pelos próprios membros do conselho, além de ser aplicado e gerido com recursos próprios da entidade. “Para fazer uma prova dessas, precisamos de verba. Mas por não termos fundamentação legal, a gente faz a prova na pressão mesmo, porque vemos como uma necessidade. Tendo esse resultado em mãos conseguimos discutir com as faculdades”, argumenta Leonardo Emilio da Silva, conselheiro do Cremego. Porém, segundo ele, o cenário ideal seria uma lei que instituísse um exame de progressão em âmbito federal.

Em Goiás, a aplicação de uma prova não é obrigatória aos egressos dos cursos de Medicina, e não impede a obtenção do registro. Mas o Cremego conseguiu articulação com a rede estadual de saúde, para que a nota do exame seja vinculada à pontuação do estudante na prova de Residência Médica das instituições hospitalares. Com isso, o número de inscritos chegou a mais de 1 mil, na edição passada. “A gente cria quase que uma obrigatoriedade para se fazer a prova, porque se o aluno for aprovado ele ganha um número de pontos para fazer a prova de Residência”, explica Leonardo Silva.

Entidades médicas defendem legislação

O Exame de Ordem é visto como solução parcial para combater a queda na qualidade das formações médicas, observada nos últimos anos no Brasil. O presidente do Cremers, Eduardo Trindade, aponta que o país só perde em número de escolas médicas para a Índia, que tem mais de um bilhão de habitantes. E diz que das 390 escolas brasileiras, 288 estão em áreas sem infraestrutura.

Para o dirigente, o cenário revela que 78% dos estudantes estão se formando, provavelmente, médicos ruins, não por falta de estudo, mas em razão das condições. Ainda afirma que o número de médicos formados no país mais do que dobrou nos últimos 20 anos, conforme dados do Conselho Federal de Medicina (CFM). Com isso, o Brasil tem hoje uma das maiores densidades de médicos entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), chegando a 2,69 por mil habitantes, conforme relatório da OCDE. No RS, o contingente de médicos aumentou 51%, em 13 anos.

“O Exame de Ordem é uma medida paliativa. Não posso culpar o produto quando o problema é a fábrica. As demais mudanças estruturais também precisam acontecer”, avalia Eduardo. Ele também entende que a questão envolve interesses políticos e econômicos. E assinala que, conforme o CFM, desde 2003 o Ministério da Educação (MEC) flexibiliza exigências para a criação de novos cursos de Medicina, resultando em multiplicação de faculdades que não atendem a requisitos considerados básicos por entidades médicas. Diz que, hoje, a deliberação sobre abertura ou fechamento de cursos de Medicina é dos Conselhos Estaduais de Educação, ligados às secretarias de Educação, que, pelo caráter político, não têm observado requisitos técnicos. “Do ponto de vista prático, precisamos é de legislação”, resume.