Ensino

Quando a influência se torna herança: um pai, uma filha e a construção de um futuro em comum

Por meio da educação, familiares formam conexão que ultrapassa gerações

Elvio Teixeira inspirou carreira de Nathália das Neves Teixeira
Elvio Teixeira inspirou carreira de Nathália das Neves Teixeira Foto : Arquivo Pessoal / CP

Quando Elvio Teixeira, 61, insistiu para que a filha, Nathália das Neves Teixeira, 33, escolhesse o Direito como formação superior, ele não estava apenas sugerindo uma área de atuação. Transmitia a ela um sonho que, por circunstâncias da vida, não havia conseguido realizar. Ela resistiu, queria ser médica ou jornalista. O Direito não estava em seus planos, mas aparecia nos testes vocacionais e na convicção de quem enxergava, naquela escolha, um futuro possível.

Nathália resolveu dar um voto de confiança ao pedido, ainda sem acreditar muito na própria decisão. Entrou no curso da UniRitter sem imaginar que encontraria ali, para além da graduação e de um projeto de carreira, uma vocação. O curso foi seguido pelo exercício da profissão.

A advocacia abriu caminho para o mestrado. Depois veio a sala de aula. Hoje, divide a rotina entre o trabalho de advogada cível, a docência universitária em Cruz Alta e o doutorado em Ijuí, convencida de que encontrou seu lugar justamente onde um dia não quis estar. "Eu sempre fui contrária à ideia do meu pai, mas ele insistia e dizia para passar a barreira dos semestres iniciais, que isso mudaria minha percepção. Foi exatamente o que ocorreu", lembra Nathália.

Uma das ligações mais marcantes entre eles aconteceu quando, depois de atuar em seu primeiro júri da carreira, em um caso Direito Penal, outra das paixões de seu pai, Nathália saiu da sessão e telefonou imediatamente para Elvio. Mais do que compartilhar uma conquista profissional, quis dividi-la com quem sempre acreditou que ela seria capaz de chegar até ali.

Nessa relação entre pai e filha, a influência é uma via de mão dupla. Décadas depois, foi ela quem passou a repetir ao pai exatamente o mesmo incentivo que ouviu durante a juventude. "Agora é o teu momento. Vai fazer Direito", insistiu até que ele cedesse. A frase carregava um significado que a história da família Teixeira ajuda a entender.

Adiamento do sonho

Graduado em Letras e professor de Língua Portuguesa e Literatura, Elvio também sonhava em estudar Direito. A realidade, porém, impôs outro roteiro. Era preciso trabalhar, conciliar jornadas e escolher o caminho possível, que, apesar de seu apreço pelos gêneros literários e textuais, não era o desejado.

O sonho permaneceu guardado. Talvez por isso tenha insistido tanto para que a filha não deixasse passar a oportunidade que ele próprio não teve. Anos mais tarde, ao acompanhar a trajetória acadêmica de Nathália, decidiu que ainda havia tempo para uma segunda graduação. Hoje, frequenta os mesmos corredores da UniRitter onde ela iniciou sua carreira jurídica. Não porque quer repetir a história, mas porque finalmente pode escrever a dele.

A convivência entre os dois também ganhou novos significados. Durante longo tempo, foi Elvio quem orientou a filha. Agora, muitas vezes, as funções se alteram. É ela quem esclarece dúvidas, comenta decisões judiciais, compartilha experiências da advocacia e observa, de perto, a caminhada do pai. "Hoje nós conversamos em outro nível. Quando ela fala sobre Direito, eu consigo acompanhar. E, quando não sei alguma coisa, pergunto. Ela é minha referência", exalta Elvio.

"Quando a gente amadurece, entende que nossos pais também têm anseios, desejos, vontades, medos e frustrações. Retirar a simbologia heroica e inabalável da figura de pai para humanizá-lo foi o que me fez tentar convencê-lo a realizar o sonho de ingressar na área", revela Nathália.

A inversão dos papéis e o poder de persuasão de Nathália com o pai fez a relação crescer e ganhar novos elementos: as paixões pela mesma área do conhecimento, pela educação e pela docência e a convicção de que ensinamentos e aprendizados são movimentos permanentes.

Veja Também

Educação como elo

A educação sempre ocupou um lugar de profissão e forma de enxergar o mundo na história deles. Filha de professores, Nathália cresceu observando o entusiasmo dos pais pela sala de aula. Foi ali, muito antes da educação superior, que nasceu o desejo de ensinar. "As referências que eu tinha dentro de casa me inspiraram muito, seja pelo conhecimento, seja pelo amor à docência. Apesar de todas as dificuldades da profissão, eu via brilho nos olhos deles quando o tema era educação". Agora, ela também leva esse brilho para as próprias aulas.

Em uma família negra, a convicção de que o conhecimento transforma destinos sempre teve um peso profundo. "Meus pais me deram, desde cedo, a oportunidade de ser uma mulher negra liberta por meio da educação", enfatiza.

Atualmente, ela é advogada, professora universitária, mestre e doutoranda. Ele está prestes a concluir a graduação que precisou adiar por tantos anos. Ela sonha em vê-lo exercer a advocacia. Ele ainda fala da alegria que sente ao acompanhar cada nova conquista da filha.

No fim das contas, o maior diploma conquistado pode não ser o de bacharel, mas sim o de compreender que a educação transforma famílias inteiras, aproxima gerações e faz com que pais e filhos descubram, ao longo do tempo, que inspirar alguém é também aceitar, um dia, ser inspirado de volta.