Caso Kiss: Emoção toma conta do 2º dia de julgamento com exibição de imagens da tragédia

Caso Kiss: Emoção toma conta do 2º dia de julgamento com exibição de imagens da tragédia

Sobrevivente que testemunhava no Júri precisou de atendimento médico nesta quinta-feira

André Malinoski

Jéssica Montardo Rosado passou mal e precisou ser atendida

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O segundo dia do julgamento dos quatro réus acusados pela tragédia da Boate Kiss, ocorrida em Santa Maria, há mais de oito anos, ocorre nesta quinta-feira. No turno da manhã, foram ouvidas as testemunhas Emanuel Almeida Pastl e Jéssica Montardo Rosado - que passou mal e precisou ser atendida. Muitos familiares que acompanhavam a sessão na plateia se emocionaram e também saíram do local por alguns minutos, especialmente depois que a promotora Lúcia Helena Callegari exibiu um vídeo feito na madrugada da tragédia.

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Maria Aparecida Neves, que perdeu o filho Augusto Cezar, de 19 anos, contou que acorda de noite até hoje vendo o corpo do filho no caixão. “A saudade é muito grande. Minha casa nunca mais teve alegria”, disse hoje na chegada ao Foro Central. O sentimento entre os familiares, sobreviventes e de quem acompanha o julgamento é por justiça. Todos querem a responsabilização dos acusados e salientam isso para a imprensa com frequência.

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A jornalista Daniela Arbex, autora do livro “Todo dia a mesma noite - A história não contada da boate Kiss”, acompanha o júri por alguns dias. “Espero que, com esse julgamento, coloquem um fim nessa cultura de impunidade”, afirmou.

O sobrevivente Emanuel Almeida Pastl foi o primeiro a dar seu testemunho hoje ao juiz Orlando Faccini Neto. “Começou um tumulto e me desencontrei do meu irmão. As pessoas entraram em estado de pânico e começaram a se empurrar. Foi horrível”, lembrou. Em seguida, a vítima relatou ao júri: “Não tinha alarme de incêndio, nem sinalização e iluminação. Não senti em mim água caindo de chuveiros de teto durante o incêndio”.

Enquanto isso, o advogado Jean de Menezes Severo, que defende Luciano Bonilha Leão, conversou durante uma pausa com seu cliente e com o outro réu Marcelo de Jesus dos Santos. “Vai dar tudo certo”, tentou tranquilizar o advogado. “Aqui não é lugar para fazer vingança, mas justiça”, salientou Luciano ao Correio do Povo.

Na sequência, a sobrevivente Jéssica Montardo Rosado foi a segunda vítima escutada no júri. Ela pediu para responder sem máscara de proteção facial. O testemunho foi carregado de emoção. Jéssica chorou em vários momentos. “Eu me apavorei. Era muita gente caindo em cima dos outros”, recorda. Jéssica teve de ser amparada e retirada do júri para receber atendimento médico depois de ver as imagens do incêndio mostradas pelos promotores da acusação. “Estou muito mal”, balbuciava, chorando. Após ser atendida, ela voltou ao júri.

O presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Flávio Silva, avaliou como positivo o primeiro dia de julgamento, e esperava o mesmo na sessão de hoje, que termina à noite.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante a pausa para o atendimento de Jéssica. Uma mãe chorava no corredor do Foro Central. “Dá raiva ficar perto desses assassinos e não poder fazer nada. Hoje tá muito pior esse julgamento. Eu não estava preparada para ver aquelas imagens”, desabafou Nelci Almeida Konzen, que perdeu a filha Jéssica Konzen, de 21 anos, no incêndio. “O sonho da vida dela era dar uma vida melhor para mim e o pai dela”, compartilhou não conseguindo mais falar. A emoção dos familiares foi a grande marca desse segundo dia de julgamento.

A exemplo do que aconteceu no primeiro dia do julgamento, a recriação virtual de como era a Boate Kiss por dentro foi utilizada novamente pelos promotores de Justiça. A antropóloga argentina Virginia Vecchioli, que é professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e responsável pela recriação digital da casa noturna, explicou em novembro que o projeto é semelhante à reconstituição disponibilizada anteriormente de um campo de detenção do período da ditadura argentina.

O “El Campito” serviu como evidência este ano no megaprocesso Campo de Mayo, realizado no Tribunal Oral Criminal Federal nº 1, na Argentina. Conforme a antropóloga, esse tipo de recurso digital tem sido utilizado em tribunais penais internacionais. No portão de entrada do Foro Central, o banner com os rostos e os nomes de todas as vítimas da tragédia da casa noturna foi afixado outra vez pelos familiares.

Nos próximos dias, no plenário do 2º andar do Foro Central (prédio I), em Porto Alegre, os destinos dos sócios da casa noturna Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, e do produtor musical Luciano Bonilha Leão, que passou mal no primeiro dia e necessitou de atendimento na enfermaria, serão decididos. Todos respondem por homicídio simples com dolo eventual (242 vezes consumado, pelo número de mortos; e 636 vezes tentado, número de feridos). Dolo eventual significa que a pessoa não teve a intenção de matar, mas assumiu esse risco. O julgamento é considerado o mais importante da história do Rio Grande do Sul.


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