Familiares e amigos do produtor de morangos Marcos Daniel Nörnberg realizaram uma manifestação silenciosa na tarde deste sábado, em Pelotas. A maioria das pessoas vestia uma camiseta preta, com a foto do homem que morreu aos 48 anos, atingido por diversos tiros, durante uma ação da Brigada Militar, em sua residência, às 3h do dia 15 de janeiro. O grupo, com dezenas de amigos, familiares, vereadores e apoiadores da causa saiu do Altar da Pátria e caminhou de forma silenciosa até o local onde todas as terças-feiras ocorre a Feira ao Entardecer, espaço onde Nörnberg comercializava os produtos que produzia diretamente ao consumidor, desde que retornou á Pelotas, há quatro anos.
O pai do produtor, Oswaldo Nörnberg, ainda procura uma explicação para tudo que aconteceu naquela madrugada. "É algo for a do normal. O que podemos fazer hoje é pedir justiça. Estamos fortes, unidos. Queremos mostrar ao povo o nosso sofrimento e não queremos que isto ocorra com outras famílias", relata. Para ele a saudade não tem explicação. "Ainda tomo remédios para dormir e pra comer. Eu vi tudo o que ocorreu por uma janela. É difícil, mas temos fé, confiamos e a esperança é que isto não ocorra com os outros", observa.
No trajeto, o grupo distribuiu folders com o QR Code para o abaixo assinado eletrônico que pede a instalação de câmeras corporais nos policiais militares. No final da tarde deste sábado, a iniciativa contava com mais de 23,7 mil assinaturas. Quando chegou em frente ao quartel do 4° BPM, o grupo realizou um minuto de silêncio e seguiu na caminhada silenciosa. No trajeto alguns carros buzinaram quando passaram pela manifestação.
Para a viúva Raquel Motta Nörnberg, o objetivo do ato era que as pessoas da família, os amigos e todos aqueles que os apoiam estivessem juntos em uma caminhada pedindo justiça pelo Marcos. "Também por tudo o que aconteceu na minha casa, pelo que fizeram comigo, câmeras corporais de uso obrigatório, pois não adianta serem compradas e não ter uma lei obrigando o uso", completa. Ela afirma que gostaria que no futuro, jovens e crianças sejam criadas para não ter medo de uma abordagem policial. "Quero conseguir dormir tranquila e que meus vizinhos também durmam tranquilos, sem o uso de calmantes. Claro que o que me moveu é pelo Marcos, mas há outras coisas que não pretendemos parar de lutar", garante.
Tanto a Brigada Militar quanto a Polícia Civil não concluíram as investigações, passados mais de 30 dias do fato. As duas autoridades aguardam o resultado de perícias para ter esclarecimentos. A corregedoria da Brigada Militar anunciou provavelmente fará uma simulação no local dos fatos. "Vejo casos que não envolvem a Brigada Militar são resolvidos de forma rápida. Esse caso, acredito que por envolver a Brigada Militar e por tentarem de alguma forma dizer que pode ter sido legítima defesa e não serem punidos da forma como a lei prevê acredito que necessite de uma prorrogação", opina. Para ela, três crimes foram praticados naquela madrugada, invasão a propriedade, tortura e de homicídio. "Esses crimes todos foram liberados, comandados por alguém e executados, e todas as pessoas merecem e precisam ser punidas como a lei prevê. A simulação, para mim é uma tortura, mas se for para eles finalmente entender a realidade do que aconteceu, que pra mim é óbvio, estou de acordo", confirma. Ela diz que até a tarde deste sábado não recebeu nenhum contato para agendar uma simulação. "Já passou uma semana do pedido de prorrogação de investigação", lembra.
A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa aprovou audiência pública em Pelotas, mas ainda não foi definida a data e o local. "Acho muito importante que ela ocorra nos primeiros quinze dias de março, pois quando mais conseguirmos falar e contar o que aconteceu mais rápido e mais transparente será a investigação", destaca.
Passados 36 dias daquela madrugada, Raquel afirma que a vida segue sendo difícil. "Estou afastada da empresa onde trabalho, sem condições psicológicas de voltar. Nem tenho casa, estou dormindo em outra residência pois destruíram a minha, mas a falta que eu sinto do Marcos é algo impossível de dimensionar. Ele era meu companheiro, meu amigo, a pessoa que eu tinha prazer em acordar, em sair do serviço e ir rápido para casa para ficar junto. Meus dias têm sido bem vazios", lamenta.
,No encerramento, emocionado, o enteado, que era tratado como filho, Nörnberg, Rodrigo Motta, agradeceu a presença e o apoio de todos. "Eu tenho só a agradecer a cada um de vocês que fizeram questão de vir, se preocupar com a segurança. O que aconteceu com a gente, poderia ter ocorrido com qualquer pessoa, que está aqui, em casa, obrigada por todo o carinho conosco", finalizou.
- Equipe do Ministério da Saúde realiza visita técnica ao Pronto Socorro de Pelotas
- Arroz para abastecer o carro e para gerar renda
- Pelotas decreta situação de emergência por causa de tornado