Polícia

“Nem um criminoso deveria morrer como ele morreu”, diz a viúva do produtor rural morto pela Brigada Militar em Pelotas

Crime ocorreu na madrugada, na zona rural do município

“Nem um criminoso deveria morrer como ele morreu”, diz a viúva
“Nem um criminoso deveria morrer como ele morreu”, diz a viúva Foto : Marrone Silva / Record Guaíba / CP

O produtor rural Marcos Daniel Nörnberg, de 48 anos, morreu na madrugada desta sexta-feira durante abordagem da Brigada Militar, em sua casa, na zona rural de Pelotas. Ele estava com a esposa, Raquel Amorim Motta Nörnberg, de 52 anos, dormindo, por volta das 3h, quando os policiais militares chegaram e cercaram a moradia. Após ouvir barulhos, ele se levantou e, segundo a esposa, “acreditou” que a casa estava sendo alvo de bandidos. "Achamos que era bandido, pois eram homens gritando para que abríssemos a porta", revelou.

A casa da família fica ao lado de outras duas, onde moram familiares da vítima. "Meu sogro e a minha sogra ficaram como reféns por horas aqui dentro. Seguidamente somos vítima de abigeato. Então, nunca imaginamos que policiais militares iriam chegar, de maneira rude, e desferindo tiros", lamentou. Raquel confirma ter ficado por aproximadamente duas horas acreditando que estava diante de criminosos, mesmo depois do marido ter sido alvejado.

"Eles entraram na nossa casa às 3h08min. Derrubaram uma porta de vidro. O som dos tiros era alto, imagino que pelas duas entradas. Meu marido foi atingido e caiu nos pés da cama e me disse ‘te deita, senão eles vão te matar’. Uma pessoa que diz isto não acredita que eram policiais militares", observa. Segundo ela, o produtor rural morreu acreditando ser alvo de bandidos, jamais de policiais militares.

"Ele morreu acreditando que eram criminosos que efetuaram os disparos que o atingiram. E eu fiquei por horas achando que estava nas mãos de assaltantes", relata.

A propriedade rural tem câmeras de monitoramento na entrada principal e no pátio. As imagens serão disponibilizadas para a Polícia Civil. "Dois policiais militares levantaram a mão e admitiram para a Polícia Civil terem atirado no meu marido. São dois PMs que, para mim, são dois assassinos para fazer o que eles fizeram", lamenta. Ela justifica que não abriram a porta, pois esperavam que os PMs apresentassem um mandado judicial. "E eles mandaram abrir e não abrimos, pois se é policial precisa ter uma autorização judicial”.

Começou o tiroteio

Raquel recorda que, no momento em que tudo ocorreu, estava escuro, pois as luzes externas estavam apagadas. "Do nada, eles estouraram a porta de vidro e em segundos começou o tiroteio. Toda a vizinhança ouviu. Se a minha geladeira foi alvejada por mais de 10 tiros de fuzil, imagino que foram mais de 50 disparos. Não sei como estou viva, pois foram muitos tiros dentro de uma casa pequena”.

A viúva espera que a justiça seja feita. "Esperamos por tudo, menos que as pessoas que estão aqui para nos defender serão as que vão destruir a tua família. É uma dor que eu não gostaria de estar passando. Quero que seja feita a justiça, porque eles devastaram muitas pessoas, um grupo que trabalhava com o meu marido e tinha uma admiração muito grande por ele, além de três famílias", observa.

Imóvel em que produtor rural foi morto pela BM em Pelotas | Foto: Angélica Silveira / Especial / CP

Tratamento oncológico

Ela conta que o sogro está enfrentando o segundo tratamento oncológico e a cunhada tem uma bebê com o transtorno do espectro autista. "Não sabemos como explicar tudo isso que ocorreu. Foi na madrugada, minha cunhada ouviu os tiros e correu para o meio de uma plantação de bambus, onde se escondeu com a filha”, revela.

Após o tiroteio, Raquel conta que ficou em torno de duas horas sem ser autorizada a sair de casa. "Não sei por que me prenderam. Meu marido caiu nos pés da cama e arrastaram ele até a cozinha. Fiquei duas horas olhando para o chão, ajoelhada sobre cacos de vidro. Eu só tinha medo". Na cozinha da casa, há marcas de tiro na pedra da pia, na geladeira e muitos vidros quebrados.

"Eles disseram para a Polícia Civil que receberam um alerta do Paraná sobre uma quadrilha que estaria usando nossa casa como cativeiro. Eles disseram e tudo terão que provar". A Brigada Militar deixou as viaturas a cerca de 300 metros. Os PMs chegaram ao local a pé.

Para o velório, optou por enviar roupas “sem aberturas” para o marido, cujo corpo foi perfurado por vários disparos. "Ele tem tiros no rosto, no peito. Nem um criminoso deveria morrer dessa forma. Acho que a nossa Polícia está muito despreparada, é um despreparo na forma de tratar as pessoas. Não importa se é bandido ou mocinho, as pessoas merecem ser tratadas com respeito. Até o julgamento, ninguém é criminoso. Eles entraram, pegaram uma pessoa honesta, julgaram e mataram. Eu só queria muito que a justiça fosse feita", conclui.

Marcos era um homem trabalhador

A família de pelotenses morou por aproximadamente 20 anos em Caxias do Sul. Eles decidiram voltar, após o pai do produtor rural descobrir um câncer. Então Nörnberg resolveu investir na agricultura para prover a família. Para a enteada Fernanda, de 27 anos, é difícil mensurar a dor da perda. Ela trabalhava no sítio, localizado na zona rural de Pelotas. O produtor rural cuidava de toda a família.

"Estávamos sempre juntos e não consigo imaginar como será a partir de agora", relata. Ela estava dormindo na casa do avô, pois a residência da família passa por reformas e só tem um quarto pronto. "Pelas 3h acordei, pois começaram a passar pela janela do meu quarto. Achei que era assaltante e me escondi. Eu queria ver o que estava acontecendo e eles não me deixaram. Fiquei duas horas parada gritando, esperando", lamenta a filha.

Para o enteado Rodrigo, de 29 anos, a sensação é de injustiça. "O meu pai era o tipo de pessoa que trabalhava para prover. Ele tinha uma piscina e mal aproveitou, pois não parava de trabalhar. É uma das pessoas que conheço que mais trabalhou na vida. Trabalhava para prover a gente, para nos dar conforto e foi um dos que menos aproveitou. Isto é triste. É o que mais aperta", observa.

Amiga da família há quatro anos, Carlise Perleberg foi ao local após o crime. "Ele era uma pessoa muito coração. Nos conhecemos desde que ele veio de Caxias e começou a plantar morango. Ele participava da Feira Municipal do Morango, de Pelotas. Estou sem acreditar", observa.

Ela conta que o produtor rural sempre ajudava aos outros. "Era alguém com um coração enorme. Na feira dividia o caminhão com produtores", relata. Ela diz que é perceptivel as melhorias na propriedade, localizada próximo à BR 392, desde que a família retornou de Caxias do Sul. "Se tivessem vindo com os carros, eles teriam visto que eram policiais militares. Mas vieram a pé, pelo campo, sem iluminação e não tinha como ver quem era. Como já foram assaltados por ser perto da estrada, a primeira reação foi o assalto. O que ocorreu com a família é desumano ao extremo. Não tem como explicar o que ocorreu", opina.

Suspeitos de sequestros

O delegado César Nogueira, responsável pelas investigações, revela que, pelo menos, 16 policiais militares participaram da ação da Brigada Militar. "A princípio eles receberam a informação de que naquela localidade havia foragidos suspeitos de praticar sequestros no interior do município e deslocaram para lá na intenção de realizar essa prisão. Eles foram informados de que esses indivíduos estavam fortemente armados", relata.

Ele lembra que a Brigada Militar, como uma Polícia ostensiva, tem essa atribuição e tem legitimidade para atuar naquele momento. "Muito se questiona sobre o horário e sobre a existência de uma operação sem mandado de busca, que até o momento não confirmamos se havia ou não, não podemos descartar nenhuma possibilidade nesse momento", pondera.

Ele pretende ouvir os policiais militares e o comando da Brigada Militar. "De acordo com o que foi dito pelos policiais militarez, eles receberam uma informação de que naquela localidade havia pessoas fortemente armadas. Então sim, eles tinham legitimidade para ir até o local. Agora temos que entender que informação era essa e que de forma foi realizada essa abordagem, esse ingresso na residência da vítima”, pondera. O velório do produtor ocorrerá no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula. O enterro está marcado para às 9h, desta sexta-feira, no mesmo local.

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