Polícia

Ao menos quatro outras mortes em ações da BM tiveram desdobramentos nos últimos meses

Casos recentes e de anos anteriores envolvendo ações da Brigada Militar já resultaram em debates e até indiciamentos

Em Pelotas, produtor foi morto dentro de sua residência
Em Pelotas, produtor foi morto dentro de sua residência Foto : Angélica Silveira / Especial / CP

A morte do produtor rural Marcos Daniel Nörnberg, de 48 anos, durante uma ação da Brigada Militar na madrugada desta quinta-feira, em Pelotas, voltou a colocar em evidência outras ocorrências no Rio Grande do Sul, em que abordagens policiais terminaram com vítimas fatais. O caso mais recente se soma a outros quatro episódios registrados nos últimos anos, alguns deles ainda sob apuração ou com decisões judiciais pendentes.

Em Pelotas, Noremberg foi morto após ser atingido por diversos disparos dentro de sua residência. Conforme informações preliminares, policiais militares cercaram o imóvel durante diligências em busca de uma quadrilha supostamente fortemente armada. O produtor rural e a esposa dormiam no momento da ação. Ao acreditar que se tratava de um assalto, Marcos teria pegado uma arma para defender a casa. Segundo a versão inicial, ao perceberem que o homem estava armado, os policiais efetuaram os disparos. Ele morreu no local. A esposa não sofreu ferimentos graves.

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Morte de homem em surto em Santa Maria

Ainda nesta semana, outro episódio com desfecho fatal já havia sido registrado em Santa Maria, na Região Central do RS. Um homem de 35 anos morreu na manhã de terça-feira durante uma intervenção da Brigada Militar, após familiares acionarem a corporação relatando que ele estaria em surto e ameaçando pessoas dentro de casa. Segundo o delegado Adriano de Rossi, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), os familiares ligaram três vezes para o 190. Ao chegar ao local, os policiais teriam sido confrontados pelo homem, que portava um martelo.

Durante a abordagem, conforme a investigação preliminar, o indivíduo teria investido contra os policiais, momento em que um deles efetuou três disparos. Um dos tiros atingiu o tórax da vítima, que morreu antes da chegada do Samu, na frente dos familiares. A Polícia Civil apura o caso e busca imagens e testemunhos para esclarecer a ocorrência. A Brigada Militar informou que instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) e afirmou, em nota, que vídeos mostram o homem caminhando em direção à viatura antes dos disparos, que teriam ocorrido “por circunstâncias que ainda estão sendo investigadas”.

Investigação de morte em Porto Alegre foi reaberta pela Justiça

Casos semelhantes também marcaram o ano passado. Em setembro, um homem de 29 anos, identificado como Hérick Vargas, morreu durante uma ação da Brigada Militar no bairro Parque Santa Fé, na zona Norte de Porto Alegre. A família havia solicitado ajuda, relatando que o jovem, que fazia tratamento psiquiátrico, estaria em surto. Segundo a BM, após tentativas de verbalização e uso de arma de choque sem sucesso, Hérick teria avançado contra os policiais, que reagiram com disparos. Ele foi atingido no rosto e em outras partes do corpo.

Na semana passada, a Justiça determinou a revisão do pedido de arquivamento do inquérito que apura a morte de Hérick. A juíza Anna Alice da Rosa Schuh, do 1º Juizado da 1ª Vara do Júri de Porto Alegre, encaminhou o caso para análise do Procurador-Geral de Justiça, após apontar dúvidas relevantes sobre a versão apresentada pelos policiais. O Ministério Público havia solicitado o arquivamento sob a justificativa de legítima defesa, mas a magistrada entendeu que ainda não há provas suficientes e incontestáveis para encerrar a investigação.

Policial foi indiciado por homicídio em Bom Jesus

Outro caso que ganhou repercussão ocorreu em Bom Jesus, nos Campos de Cima da Serra. Em março do ano passado, a morte de Geovane Matias Maciel, de 19 anos, inicialmente foi registrada como decorrente de confronto. Meses depois, um vídeo entregue ao Ministério Público revelou que o jovem já estava algemado e com as mãos para trás quando foi atingido por disparos. Ele era suspeito de atear fogo na casa da ex-companheira e possuía mandado de prisão em aberto, além de antecedentes criminais.

As imagens mostram Geovane sendo retirado de um veículo por quatro policiais, com as mãos algemadas para trás, quando um deles efetua os disparos. Todos os envolvidos foram afastados das funções. Posteriormente, o policial militar suspeito de efetuar os tiros foi preso preventivamente. A prisão ocorreu após a divulgação do vídeo.

Quatro policiais serão julgados por torturar e matar homem em Porto Alegre

Quatro policiais militares serão julgados pela morte de um morador do condomínio Princesa Isabel, em Porto Alegre, ocorrida em maio de 2024. Na ocasião, um homem de 41 anos desapareceu após ser abordado por policiais militares em frente ao condomínio Princesa Isabel, no bairro Azenha, na noite de 17 de maio. O corpo dele foi localizado após dois dias, no bairro Ponta Grossa, extremo Sul de Porto Alegre, mais de 10 quilômetros de distância do local onde houve a abordagem.

O caso gerou revolta nos moradores do complexo residencial que, no dia 19 de maio, promoveram protestos que resultaram na queima de dois ônibus no bairro Azenha. Na mesma ocasião, uma facção que controla o tráfico de drogas no condomínio, que também é conhecido como “Carandiru”, chegou a divulgar um comunicado nas redes sociais com ameaças contra a policiais civis e militares.

O Inquérito Policial Militar apontou que a morte do homem foi resultado de tortura. Depois, o corpo foi arremessado no Guaíba de cima da ponte por um sargento e um soldado. O restante dos militares não teria participado do crime, sendo que um deles foi indiciado por tortura por omissão e uma soldada, por prevaricação. Um quinto soldado, que não foi denunciado pelo MP, foi indiciado por omissão de socorro.