Polícia

O que pode acontecer com os adolescentes suspeitos de matar o cão Orelha

O cachorro morreu após ser agredido a pauladas por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis

Orelha era um cão comunitário alimentado por moradores de uma comunidade da região da Praia Brava, no norte da ilha
Orelha era um cão comunitário alimentado por moradores de uma comunidade da região da Praia Brava, no norte da ilha Foto : Redes Sociais / Divulgação / CP

Os adolescentes suspeitos de terem agredido e causado a morte do cão Orelha, na região da Praia Brava, em Florianópolis, não podem ser presos pelo crime. Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, embora o caso tenha causa grande comoção, por serem menores de idade, eles estão sujeitos a medidas socioeducativas, diferentes da prisão.

Entretanto, a Justiça pode considerar a gravidade do caso e até determinar uma possível internação em estabelecimento educacional por um prazo máximo de 3 anos. A reportagem tenta contato com as defesas dos suspeitos.

O cão comunitário Orelha, de 10 anos de idade, foi encontrado agonizante e precisou sofrer eutanásia devido à gravidade das lesões e ao sofrimento do animal. A Polícia Civil de Santa Catarina identificou ao menos quatro adolescentes suspeitos de tê-lo agredido de forma violenta com intuito de causar sua morte. Nesta segunda-feira, 26, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão nas casas dos suspeitos, mas ninguém foi detido. Celulares e notebooks foram apreendidos.

Medidas socioeducativas

De acordo com o advogado Enzon Fachini, mestre em Direito Penal Econômico pela Fundação Getúlio Vargas, por se tratar de adolescentes, os suspeitos não estão sujeitos a penas criminais, como prisão.

“Se comprovada a prática de maus-tratos que resultaram na morte do animal, o fato é tratado como ato infracional, e os adolescentes podem ser submetidos a medidas socioeducativas”, diz.

Essas medidas, segundo ele, são aplicadas pela Justiça conforme a gravidade do caso e participação individual de cada adolescente.

“Elas podem variar desde advertência, prestação de serviços à comunidade até, nos casos mais graves, internação em estabelecimento educacional, até o prazo máximo de três anos”, explica.

O delegado Gustavo Mesquita, professor de criminologia da Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo, diz que o fato configura o crime de maus-tratos a animal em sua forma qualificada, quando há violência, crueldade e resultado morte. “Trata-se da forma mais grave do delito e (a lei) foi criada exatamente para romper com a cultura de impunidade nesses casos.”

Se o crime fosse praticado por um adulto, a pena seria de reclusão de 2 a 5 anos, possivelmente atingindo o patamar máximo devido à reprovação moral e social elevada da conduta.

Como os autores são menores de idade, não respondem criminalmente, mas respondem por ato infracional, análogo a crime grave, nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente. “Diante da extrema gravidade, da violência empregada e do resultado morte, é juridicamente possível a aplicação da medida socioeducativa de internação, que é a mais severa do sistema.”

Nesse caso, o prazo máximo de internação é de até três anos, com reavaliações periódicas até o infrator completar 21 anos de idade, independentemente da pena prevista para adultos. “É importante destacar: Quem aprende a torturar um animal e não é contido a tempo, amanhã vai querer testar limites com gente. O Estado escolhe: corrige cedo ou enterra tarde”, afirma.

Já o criminalista Filipe Papaiordanou, professor de Direito Penal, avalia que, embora possa ser aplicada a internação, existem outras medidas menos gravosas previstas, como regime de semiliberdade, liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade.

“A escolha e a dosimetria da medida socioeducativa deverão considerar as circunstâncias do caso concreto, bem como as condições pessoais de cada adolescente e o grau de participação de cada um no ato infracional”, diz Papaiordanou.

O que aconteceu com o cão Orelha

Orelha era um cão comunitário alimentado por moradores de uma comunidade da região da Praia Brava, no norte da ilha. Eles tinham feito casinhas para abrigar este e outros dois cães de rua, que também eram alimentados pelos moradores. O cão foi encontrado muito ferido e levado para uma clínica veterinária. A avaliação indicou que ele estava sofrendo, não iria sobreviver e foi procedida a eutanásia.

Vídeos que circularam em redes sociais mostraram o cachorro sendo agredido a pauladas por um grupo de adolescentes. Conforme a Polícia Civil, a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso deve concluir nos próximos dias a coleta de depoimentos e encaminhará o inquérito ao Ministério Público.

A 10ª Promotoria de Justiça deverá ouvir os adolescentes supostamente envolvidos, analisar os elementos reunidos e avaliar os encaminhamentos cabíveis, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

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Na operação desta segunda-feira, também foram alvos três adultos parentes dos adolescentes suspeitos, suspeitos de coagir testemunhas. Segundo a Polícia Civil, eles não têm ligação com as agressões ao cachorro, mas podem responder pela coação.

O caso também é acompanhado pela 32ª Promotoria de Justiça da Capital, em articulação com a Delegacia de Proteção Animal da Capital.

A morte de Orelha mobilizou moradores da região e reações em redes sociais com pedidos de justiça. No sábado, 17, moradores da Praia Brava, acompanhados de seus próprios cães, realizaram um ato público com faixas e cartazes pedindo a punição dos responsáveis.

Personalidades como as atrizes Heloisa Perissé e Paula Burlamaqui, a cantora Ana Castela e a ativista Luísa Mell se manifestaram em redes sociais lamentando a morte do cão e pedindo ação das autoridades.