O saldo das eleições de 2024 para o movimento de luta antirracista foi positivo, segundo avaliam os representantes da bancada negra da Assembleia Legislativa. As urnas consolidam a presença negra na política gaúcha, mas os desafios ainda são muitos para a representatividade do grupo racial que é maioria no país.
Em 2020, a Câmara de Porto Alegre elegeu uma bancada negra com cinco vereadores. Em 2022, quatro desses ascenderam de esfera – três para a Assembleia Legislativa e uma eleita deputada federal. Em 2024, apesar de reduzir o número em Porto Alegre, o movimento negro manteve uma bancada na Capital e em outras importantes cidades do RS.
Duas dos cinco vereadores mais votados de Porto Alegre são negras: Karen Santos, com 20,2 mil votos, e Grazi Oliveira, com 14,3 mil votos, ambas do PSol. Os dois vereadores negros de Caxias do Sul foram reeleitos: Estela Balardin e Lucas Caregnato, ambos do PT. Em Santa Maria, a deputada mais votada da cidade, com 4,1 mil votos, também vem do movimento negro: Alice Carvalho, do PSol. A eleição de 2024 também marca a primeira mulher quilombola a se eleger vereadora no RS.
“Mais uma eleição no RS que é marcada por uma ampliação da representatividade negra. Nós mantivemos uma bancada negra em Porto Alegre e Caxias, mas também em outras cidades inauguramos bancadas: é o caso de Santa Maria”, celebra a deputada estadual Laura Sito, presidente do PT da Capital.
Bruna Rodrigues, deputada estadual do PCdoB, analisa as barreiras partidárias que impedem o crescimento da representatividade: “Acredito que seguimos fortalecidos. Quando se trata da diminuição das cadeiras (em Porto Alegre), é uma discussão que temos que fazer dentro dos partidos”. Laura também cita “entraves nas legendas partidárias” como um fator a ser trabalhado.
‘Nunca mais sem nós’, diz primeira mulher quilombola eleita no RS
Em 2024, o Rio Grande do Sul elegeu sua primeira mulher quilombola como vereadora. Maica Tainara, do PT, foi a terceira parlamentar mais votada de Canguçu, com 998 votos, sendo a mais bem votada do partido. Para ela, o resultado não representa apenas uma vitória eleitoral, mas uma vitória histórica, de um novo momento do Estado: “Nunca mais sem nós”.
“É uma caminhada longa. É a superação de séculos de exclusão e invisibilidade. Minha candidatura não é só de Canguçu, tem muito a representar para o Estado e até nacionalmente”, disse Maica.
Canguçu é a cidade com o maior número de quilombos da região Sul, segundo a Fundação Cultural Palmares, com 16 comunidades. No país, soma 1,3 milhão de pessoas, distribuídos em 7,6 mil comunidades.
Maica foi coordenadora de etnias e igualdade racial no município, nas secretarias de Cultura e de Assistência Social, onde era referência para as comunidades quilombolas. “Foi uma campanha coletiva. Nós, das 16 comunidades quilombolas, tomamos uma decisão conjunta de ter uma candidatura que representasse o nosso povo. Hoje, chegamos no espaço de tomada de decisão, mas a luta continua e temos que avançar muito”, analisa.
Além de Maica, o vereador Naquinho (PT), também quilombola, foi eleito no município de Salto do Jacuí neste ano.
