No dia 4 de outubro serão realizadas as Eleições 2026. Em caso de segundo turno, os eleitores escolherão seus representantes no dia 25 de outubro. Nos dois casos, a votação ocorrerá das 8h às 17h.
Conforme o cientista político e professor da Escola de Humanidades da PUCRS, Augusto Neftali Corte de Oliveira, o Brasil passou por um período que a ciência política classifica como “Era Crítica” — caracterizado por profundas transformações políticas. “No Brasil, isso fica muito claro ao compararmos a estrutura político-partidária anterior a 2018 com a atual.”
Segundo o docente, as crises políticas de 2013 e 2016 provocaram uma reestruturação nas forças e ideologias partidárias nacionais. “Antes, tínhamos uma polarização clássica entre PT e PSDB baseada no presidencialismo de coalizão, com amplas alianças e forte protagonismo do Executivo na pauta legislativa. Esse modelo mudou drasticamente nos últimos anos.”
“O PSDB perdeu protagonismo. O PT passou por um período de desgaste e retornou ao cenário, mas com um campo de esquerda mais fragmentado. O Executivo perdeu parte do controle da agenda de votações, enquanto o Congresso Nacional se empoderou de forma expressiva. Além disso, o bolsonarismo consolidou-se como a principal força de direita, utilizando novas estratégias de comunicação e mobilização de base com grande impacto nas eleições”, avaliou.
Cenário eleitoral
O professor enxerga o cenário político contemporâneo como uma fase de estabilização de um novo modelo estrutural, que se mostra menos previsível que o anterior. “O país sai de uma longa crise política e entra em uma estrutura dividida de forma muito clara pelas forças de oposição nacional.”
“O campo de centro e centro-direita, em especial, tem demonstrado dificuldade para construir uma via alternativa viável em relação ao bolsonarismo, que representa uma direita mais nítida e que resiste a concessões ao centro durante os períodos de campanha presidencial”, ponderou.
De acordo com Oliveira, essa configuração tende a perpetuar um padrão eleitoral focado na polarização entre as opções que já se alternam ou exercem o poder federal.
Para o professor, o Rio Grande do Sul vive um período de readaptação e alinhamento de sua dinâmica política estadual à nacional. “Até recentemente, o sistema partidário gaúcho mantinha contornos muito próprios e tradicionais, mas agora busca se adequar. Nota-se, por exemplo, a perda de espaço histórico do MDB em certas frentes e a reacomodação do PSDB e do PL nas composições locais.”
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Direitos do eleitor
Oliveira ressaltou que o eleitor tem o direito ao voto livre e soberano, respaldado pelo acesso a informações confiáveis, transparentes e isentas de desinformação e manipulação. “O cidadão deve ter resguardado o direito de fazer uma escolha consciente, alinhada aos seus valores, visão de mundo e ideologia.”
Do ponto de vista cívico, o professor pontuou que o eleitor tem o dever de se engajar no debate público de forma ética e responsável, evitando a propagação de boatos ou conteúdos falsos. “Ao desconfiarmos da veracidade de uma informação, não devemos compartilhá-la. É fundamental buscar a checagem em canais oficiais e veículos de imprensa confiáveis para não enfraquecer o processo democrático.”
Sistema eleitoral
O especialista pontuou que, nas eleições majoritárias (como para presidente e governador), o sistema é de escolha direta e individual: o candidato mais votado (ou que atinge a maioria absoluta dos votos válidos) assume a vaga.
Já nas eleições proporcionais (para deputados estaduais e federais), o funcionamento é diferente. “O eleitor precisa entender que o seu voto na urna proporcional é direcionado, primeiramente, ao partido ou à federação. Esse voto compõe o chamado quociente partidário. Por isso, a escolha individual ajuda a definir quantas cadeiras a legenda conquistará e pode, inclusive, ajudar a eleger outro candidato do mesmo partido que tenha obtido menos votos individuais.”
Desafios
Para o professor, o maior desafio do pleito atual — de forma semelhante aos anteriores — é restabelecer um ambiente focado no debate programático, com discussões propositivas sobre os problemas reais do país e do estado. “Para que o debate avance, é preciso combater a desinformação disseminada em ambientes digitais pouco regulados, que muitas vezes apelam a conexões puramente emocionais.”
“Nesse contexto, o avanço do uso de ferramentas de Inteligência Artificial torna-se uma preocupação central, especialmente pela capacidade de criar materiais manipulados de áudio e vídeo (como deepfakes) atribuindo falas falsas a candidatos. Enfrentar essa barreira é essencial para garantir um eleitorado verdadeiramente livre e consciente de sua escolha.”
