Eleições

O simbolismo da “cadeirada” de Datena em Marçal e o extremismo na política

Especialistas alertam para as dificuldades de reversão no nível de violência no curto prazo.

Cadeirada de Datena em Marçal foi exemplo de extremismo na política
Cadeirada de Datena em Marçal foi exemplo de extremismo na política Foto : Reprodução / TV Cultura / CP

A cadeirada desferida por José Luis Datena (PSDB) em Pablo Marçal (PRTB) foi uma espécie de ápice de uma campanha marcada por agressões verbais, atos desprovidos de ética e pouca ou nenhuma preocupação com as regras que deveriam pautar o debate eleitoral, na avaliação de analistas políticos.

Seja qual for o ângulo pelo qual se analise o ato de Datena, ele é carregado de simbolismo: envolveu dois candidatos à prefeitura da maior cidade brasileira, São Paulo. E aconteceu em um debate televisionado, o que garantiu seu ingresso no anedotário político nacional.

Em todo o país, inclusive em Porto Alegre, políticos e eleitores se dividem entre os que defendem que a agressão de Datena “foi pouco” perto do que Marçal “merecia”; os que se alinham ao ex-coach e suas tentativas de vitimização; e aqueles que entendem que o jornalista jamais poderia ter partido para a agressão física, apesar das provocações.

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O ato já passa a ser considerado mais um episódio de campanha. E o debate sobre o que o contexto da ‘cadeirada’ representa, que é o extremismo na política, vai sendo deixado de lado, contribuindo, assim, para que continue a se multiplicar.

“A noção da política como um espaço de debate no qual existem limites éticos a serem cumpridos meio que desapareceu. É uma fronteira que vem sumindo desde 2018”, afirma o cientista político Rodrigo González, professor do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs.

González considera que houve uma tentativa de retomada de um certo grau de ‘normalidade’ nas eleições de 2020 e 2022. Mas ressalva que os embates em relação ao uso de redes sociais, a invasão às sedes dos Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro de 2023, e a reação ao 8 de janeiro, voltaram a alimentar entre parcelas da população um entendimento de ‘vale-tudo’.

“Quando naturalizamos determinadas ações e comportamentos como parte da forma de ser de um candidato e elegemos pessoas que usam linguagem chula e fazem discursos preconceituosos, incorporamos tudo isso ao processo político, e os limites do aceitável e do inaceitável se quebram. Se o indivíduo que, entre aspas, pode dizer o que quer, se elege, no pleito seguinte aparecem vários outros na mesma linha ou ainda piores”, exemplifica o professor.

Eleição paulista explicita “outsiders”

Além do processo de polarização, e do rompimento de determinadas barreiras de civilidade, o professor assinala que a campanha em São Paulo explicita o resultado do ingresso dos chamados outsiders na política. Eles são parte de um processo que inclui ainda a deslegitimação dos partidos políticos e a substituição das identidades partidárias e ideológicas pelo estabelecimento de laços pessoais.

O termo outsider é utilizado para descrever candidatos que construíram suas carreiras ou alcançaram visibilidade fora dos partidos e do sistema político estabelecido.

Em muitos países, e também no Brasil, eles, em geral, cresceram na televisão ou nas redes sociais, as vezes no meio empresarial. E se apresentam como contrários ao sistema, às regras, ao funcionamento e, por consequência, às falhas existentes na política tradicional.

O sucesso da fórmula de mudar ou quebrar as normas junto a parcelas do eleitorado é tanto que, nos últimos anos, até políticos com extensas carreiras passaram a se apresentar como outsiders.

Na prática, contudo, conforme os especialistas em análise política, o resultado é a proliferação de campanhas como a de São Paulo.

“Em ambos, Marçal e Datena, observamos a questão dos outsiders. O Marçal, que traz a força de candidatos mais extremistas, à direita, com um discurso antissistema e de agressividade com os demais. E o Datena, que, por não ser do establishment político, não sabe lidar com provocação”, observa o pesquisador e professor Sergio Simoni Junior, do Departamento de Ciência Política da USP.

Simoni lembra ainda de outro fator determinante para a alteração do cenário das campanhas: a identificação. “Essa coisa de coach, de dar exemplo de superação. Uma pessoa que vem pelas redes e faz a crítica ao estado e o discurso do você pode, você também pode, é algo que ‘encaixa’ nos dias atuais.”

Os dois especialistas alertam para as dificuldades de reversão no nível de violência no curto prazo. Conforme González, vai depender muito do resultado das eleições. “Se os candidatos mais tradicionais se elegerem e essas figuras que buscam a ruptura não conquistarem tantos votos, é possível que a gente reflua para um caminho mais normal”, projeta.

“No curto prazo parece difícil porque uma forma de reverter seria ter uma parcela grande da sociedade apoiando medidas repressivas judiciais contra grupos assim. Mas o que vemos hoje é uma encruzilhada. O caso recente do X deixou isso evidente: o STF baniu, foi polêmico e gerou críticas de uma parte da sociedade. Mas, não banir, seria aceitar as ameaças de Elon Musk”, lembra Simoni.

Conforme ele, o que arrefeceria a violência seria a diminuição da força eleitoral dos grupos mais extremistas. Por consequência, ela possibilitaria que decisões do Judiciário e repressivas a políticos mais violentos tivessem maior legitimidade.

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