Política

Ramiro Rosário ofende juiz durante sessão da Câmara e Tribunal de Justiça do RS reage

Fala ocorreu após liminar suspender por 90 dias a votação do projeto que faz alterações no Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae)

Tribunal de Justiça classificou declarações como "tentativa de ameaça ao Estado Democrático de Direito"
Tribunal de Justiça classificou declarações como "tentativa de ameaça ao Estado Democrático de Direito" Foto : Ederson Nunes/CMPA/CP

A liminar que suspendeu, por 90 dias, a votação do projeto que faz alterações no Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) caiu como uma bomba na Câmara de Porto Alegre. A sessão extraordinária em que já haviam sido aprovados dois projetos do governo Sebastião Melo (MDB) estava ocorrendo de forma tranquila, inclusive com acordos entre oposição e situação.

Quando o texto do Dmae estava prestes a ser votado, a decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) mudou drasticamente com o clima do plenário. O mandado de segurança provocou reações de diversos vereadores da base do governo. Uma delas se destacou.

“Faço um requerimento que a Mesa Diretora encaminhe para o TJ-RS e para o senhor Gustavo Borsa Antonello demonstrando o totalmente repúdio não da Câmara de Porto Alegre, mas do Poder Legislativo, pela interferência indevida de uma única pessoa, no alto dos seus privilégios, atropelar o prefeito da cidade. Se esse sujeito quer falar sobre reforma administrativa, que esse incompetente, esse canalha, concorra ou a vereador ou a prefeito”, afirmou o vereador Ramiro Rosário (Novo), no microfone de apartes.

A fala provocou imediatas críticas da oposição, em plenário, pedindo respeito aos demais Poderes e à democracia neles alicerçada. O parlamentar então retornou ao microfone.

“Já que o vereador pediu minha retratação por tê-lo chamado de canalha, eu não só reafirmo que ele é um canalha, como é um juiz de bosta”, declarou Ramiro Rosário.

Em entrevista, após as declarações, repetiu os xingamentos e justificou a quebra de decoro: “É um juiz, do alto de sua arrogância, se achando praticamente um semideus, dentro de um gabinete, ganhando 40 pau por mês (sic), cheio de privilégio e penduricalhos, que acumula uma série de decisões contraditórias e de cunho ideológicos, como a não possibilidade do leilão de um prédio da prefeitura no Largo da Epatur, como a aceitação de um trisal no Vale dos Sinos. Ele adora uma lacração adora fazer mídia”.

“Nesse caso, ele é um canalha porque ele interfere dentro do Poder Legislativo. Todos nós estamos perdendo nosso tempo aqui. Se a Câmara de Vereadores e a prefeitura de Porto Alegre não podem fazer as suas escolhas constitucionalmente previstas e que a população me delegou, então que a gente vá para casa, não faça mais absolutamente nada e que o Judiciário comande”, seguiu o vereador do partido Novo.

Tribunal de Justiça repudia “ameaça ao Estado Democrático de Direito”

Após as declarações de Ramiro Rosário, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul divulgou uma nota de repúdio condenando “veementemente as manifestações afrontosas e antidemocráticas”.

“Ao insultar o Poder Judiciário gaúcho e dirigir ofensas pessoais a um magistrado, utilizando termos de baixo calão, o parlamentar fere o decoro da Câmara Municipal e atinge frontalmente a relação harmônica entre os Poderes. A mensagem se constitui, claramente, em uma tentativa de ameaça ao Estado Democrático de Direito”, diz o texto assinado pelo desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, presidente do Conselho de Comunicação Social do tribunal.

“Tal comportamento não condiz com a tradição do Legislativo porto-alegrense, de onde emergiram, ao longo da história, grandes referências políticas para o país. O Judiciário tem a função de resguardo da legalidade e obediência aos limites constitucionais estabelecidos, ainda que contrário aos interesses de determinados grupos e não admitirá ataques à sua autonomia, nem à Democracia”, conclui.