Política

Relatório da CPI das concessionárias de energia do RS vai propor três projetos de lei

Documento tem cerca de 4 mil páginas e traz propostas para aumentar a participação do poder público nas decisões das concessionárias

Apresentação na Assembleia Legislativa encerra CPI após 120 dias de atuação
Apresentação na Assembleia Legislativa encerra CPI após 120 dias de atuação Foto : Fernando Gomes / Divulgação / CP

O relatório da comissão parlamentar de inquérito (CPI) das concessionárias de energia elétrica do Rio Grande do Sul será apresentado nesta segunda-feira na Assembleia Legislativa. O documento irá propor três projetos de lei exigindo maior transparência e planejamento das empresas responsáveis por concessões no Estado, como a CEEE Equatorial e a RGE.

O documento tem cerca de 4 mil páginas e foi elaborado pelo deputado estadual Marcus Vinícius (PP). A comissão atuou por 120 dias, realizou 12 reuniões e promoveu quatro audiências públicas em Porto Alegre, Caxias do Sul, Rio Grande e Osório, ouvindo representantes do setor elétrico, entidades de consumidores, gestores municipais e moradores de regiões afetadas.

Um dos projetos cria o Plano Estadual de Contingência Elétrica, que estabelece a obrigação de manter equipes dimensionadas para períodos de maior demanda, estoques mínimos de materiais, protocolos de resposta e comunicação direta com prefeituras e órgãos responsáveis pela proteção da população. O texto também define prazos de atendimento e critérios para mobilização operacional.

A segunda proposta sugere a instituição de uma Política Estadual de Transparência Ativa e Dados Abertos do Setor Elétrico, determinando a divulgação periódica de indicadores de qualidade na prestação do serviço, além de mapas de investimento, cronogramas de manutenção e registros de interrupções.

O terceiro eixo legislativo prevê a criação de um Sistema Estadual de Monitoramento de Danos Associados a Falhas Elétricas, banco de dados destinado a registrar impactos econômicos, sociais e ambientais decorrentes de quedas de energia. O sistema reuniria informações encaminhadas por municípios, Defesa Civil, setores produtivos e consumidores, servindo de base para planejamento e definição de ações públicas.

“Na CEEE pública, havia maior presença do Estado. Executivo, Legislativo e mesmo a sociedade estavam mais presentes na gestão. A empresa era mais suscetível a interferências do poder público, tanto para o bem como para o mal. Com a ausência do Estado nesse jogo, há um hiato de atuação e participação na tomada de decisão da empresa muito expressivo. O Estado não consegue fiscalizar e acompanhar a tomada de decisão estratégica. Para tapar essa lacuna, estamos propondo esses três projetos”, argumentou Vinícius.

“A Equatorial não tinha um plano de gerenciamento de crise pronto. Quando veio a crise, também não demonstrou plano de enfrentamento. O texto cria mecanismo para que o Estado possa, de alguma maneira, atuar nesse campo, auxiliando as empresas para o que elas devem ter preparado na hora da crise”, disse ainda o relator.

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“Aneel arrecada valor para fazer caixa”

O deputado ainda criticou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que seria a responsável por regular e fiscalizar os serviços de energia pelo país, mas costuma transferir as atribuições para agências estaduais. No caso do RS, quem fiscaliza os serviços é a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados (Agergs).

“Identificamos que a fiscalização e regulação é muito ineficiente, incipiente de certo modo. Não consegue acompanhar as demandas. O valor arrecadado está sendo utilizado para fazer caixa para a agência. Anualmente, a Aneel arrecada em torno de R$ 20 milhões e repassou entre R$ 650 mil e R$ 700 mil à Agergs para fiscalizar todo sistema de energia no Estado. É um pouco mais de R$ 50 mil por mês. A Agergs tem dificuldade de estrutura, de pessoal. O contrato entre Agergs e Aneel é totalmente desproporcional” afirmou Vinícius.

Apuração de responsabilidades

O relatório também prevê o envio dos documentos reunidos ao longo do inquérito a órgãos de controle, como Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e Ministério Público do Trabalho. São materiais relativos a acidentes de trabalho, condições de equipes terceirizadas, práticas operacionais, cumprimento contratual e demais elementos que possam configurar responsabilidades civis, administrativas ou trabalhistas.

A Polícia Civil e a Polícia Federal receberão informações sobre treinamentos, certificações técnicas, procedimentos internos, registros de acidentes e outras ocorrências que possam ser enquadradas como infrações penais.

Os documentos serão base para aprofundamento das apurações e eventual responsabilização das concessionárias e empresas contratadas. Aneel e Agergs também serão notificadas para revisão de seus processos de fiscalização e acompanhamento das concessionárias.

Descumprimento de obrigações

Para o presidente da CPI, deputado Miguel Rossetto (PT), as investigações revelaram “uma situação extremamente grave no setor de energia”. Segundo ele, em todas as audiências realizadas — com prefeitos, órgãos de controle, trabalhadores e especialistas — ficou evidente “um verdadeiro clamor diante da má prestação de serviços e de irregularidades muito sérias”.

Segundo ele, a comissão identificou o descumprimento de obrigações contratuais pela CEEE Equatorial em 2024, com risco de perda da concessão caso a situação se repita em 2025. O deputado também aponta falhas recorrentes no fornecimento de energia em diversas regiões do estado e problemas graves nas relações de trabalho, com indícios de fraudes em certificações, acidentes e atrasos de salários. As investigações ainda encontraram situações que podem configurar irregularidades gravíssimas e até suspeitas de crime.