Por que o Rio Grande do Sul, um dos estados precursores da agricultura no Brasil e um dos ambientes mais afetados por estiagens, tem uma tradição tão modesta em irrigar suas lavouras de sequeiro? Justamente o lugar que produz 70% do arroz brasileiro, praticamente em sua totalidade cultivado em lavouras irrigadas. A soja, disparada a principal cultura do Estado, que se estende por 6,74 milhões de hectares, tem apenas 3,4% deste amplo território protegido pela irrigação. Recente programa de subvenção do governo estadual para a implantação de sistemas de irrigação, o Irriga+ RS, teve o engajamento, pelos produtores, de apenas metade da área que se previa ao ser lançado.
Em síntese, apenas 4% das lavouras de sequeiro são irrigadas. No caso da soja, os 3,4% representam aproximadamente 230 mil hectares, enquanto o milho (grão) tem um índice bem superior, de 15,4% da área.
“Primeiro que no Rio Grande do Sul não se tem essa cultura, essa tradição de fazer a irrigação. Acho que esse é o principal (motivo). E o segundo é que, na última safra, o preço da soja estava muito ruim, o produtor não se capitalizou, (e então) ele não investe”, justifica o secretário estadual da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Edivilson Brum, a baixa adesão dos produtores gaúchos à irrigação, mesmo com o apoio do programa estadual que subvenciona em 20% o investimento num sistema de irrigação.
Atualmente, explica Brum, o que justifica a baixa adesão é o endividamento dos agricultores gaúchos, causado principalmente pelos recentes problemas climáticos e em razão dos juros altos para as linhas de custeio e de financiamento. O Irriga+ RS teve pouco mais de 50% do número esperado de procura. As duas fases do programa, lançado em agosto 2023, possibilitou a ampliação da área irrigada em 26.070 hectares. A primeira etapa teve a subvenção limitada a R$ 15 mil, teto que subiu a R$ 100 mil na segunda.
Brum revela que a expectativa inicial era atingir uma área de ao menos 50 mil hectares. “Na realidade, a gente almeja mais, porque o percentual de lavouras irrigadas ainda é muito pequeno aqui no Rio Grande do Sul. Sim, claro, (foi) muito positivo. Nós temos já um avanço bem significativo tanto com o programa Irriga+RS 1 como o Irriga+RS 2. São 26 mil hectares. É uma boa área, mas nós queremos e almejamos mais”, avalia.
“O produtor descapitalizado e, pelas questões das renegociações das dívidas que não foram o aguardado, e também pelo juro ainda alto, com a Selic a 15%, que fica alta para se investir em irrigação”, avalia.
O secretário anuncia que já está em gestação entre a Seapi e as secretarias de Planejamento e da Fazenda o Irriga+ RS 3, terceira fase do programa, mas ainda sem valores empenhados ou mesmo percentual de subvenção definidos, e que deverá ser lançado ainda no primeiro trimestre. E como a atual safra de grãos no embalo do clima favorável se encaminha para uma produção alta, de recuperação após as perdas do ciclo anterior, Brum entende que os produtores vão conseguir melhorar suas saúdes financeiras e, desta forma, a terceira etapa do programa poderá atingir a área de 50 mil hectares imaginada anteriormente.
As duas fases receberam 1.408 projetos e 479 foram pagos, o que empenhou R$ 47,7 milhões do Estado (R$ 6 milhões já pagos). Ao todo, o somatório de investimentos entre produtores e governo atingiu R$ 500 milhões. A irrigação por pivô representou 43% dos projetos, seguido pela aspersão convencional, de 33%. E grãos, sobretudo soja e milho, foram responsáveis por 57% dos projetos, cultivos seguidos pelas pastagens, com 24%. “Está dentro do que se esperava. A gente acredita que 60% seria milho, soja, grãos”, revela o secretário, que destaca a importância do Estado ampliar a produção de milho para abastecer os segmentos avícola e suinícola, uma vez que tem sido necessário buscar o cereal em outros estados e até no Paraguai, o que encarece os custos de produção dos produtores pelo dispêndio em frete.
Entre os municípios com maior adesão ao programa, destaque a Rosário do Sul, com 1.339,8 hectares, e São Borja, com 1.267,2 hectares, enquanto Ibirubá ficou à frente em número de projetos enviados, 28 ao todo, com Antônio Prado e São Borja dividindo a segunda posição, com 27. “É uma região que tem menos incidência de chuva. Então os produtores aumentam o investimento, aqueles que estão capitalizados”, explica Brum a razão das lideranças de Rosário do Sul e Ibirubá. Além disso, as medidas provisórias para facilitar as renegociações das dívidas de crédito rural favoreceram alguns produtores a investir. “Se você está em dia com suas dívidas, você tem possibilidade para buscar recursos para fazer a irrigação”, interpreta.
Anos de entraves atrasaram processo
Para o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antonio da Luz, o fato do Rio Grande do Sul ter uma área tão ínfima irrigada no ambiente de sequeiro não tem nada de “cultural”. Ele lembra que a agricultura do Estado teve “perdas imensas” para secas em 2005 e em 2012, e que, na sequência, houve um “trabalho intenso para tornar a irrigação mais simples no Rio Grande do Sul”. Mas, num primeiro momento e por muito tempo, uma série de impedimentos baseados em interpretações de legislações ambientais teriam atravancado a implantação da irrigação nas lavouras gaúchas.
“O Poder Público dificultou o que pôde o avanço da irrigação ao longo dos anos. Até que depois de tantas e sucessivas perdas, agora se criou um ambiente melhor. Foi aprovado o projeto do deputado Zucco, sancionado pelo governador Eduardo Leite. Isso aconteceu em 2024.” A lei mencionada permitiu ao governo estadual regulamentar a norma que autoriza a construção, em Áreas de Preservação Permanente (APPs), de barragens e açudes para dar suporte ao sistema de irrigação. “Só que aí todo aquele ciclo que o produtor teve de investimentos quando as safras estavam bem, (foi) perdido. O produtor fez outros investimentos, porque não podia fazer irrigação. Ou melhor, era muito difícil fazer irrigação. Era apresentada uma série de obstáculos para o produtor conseguir irrigar. E isso desestimulava a irrigação”, descreve.
Da Luz avalia que foram criados diversos entraves para se poder implantar a estrutura numa propriedade. “Eram vários os problemas. Por exemplo, não poder fazer uma intervenção numa Área de Preservação Permanente para a armazenagem de água. Quando que, para isso, eu vou aumentar a área de preservação permanente. Isso é um absurdo, por exemplo”, opina.
“O licenciamento do pivô... Imagina, o pivô é só um equipamento. É a mesma coisa que eu tenho que licenciar um trator, uma colheitadeira. O pivô é um equipamento como qualquer outro, e aí tinha que licenciar, imagina!”, acrescenta. “Foi criada uma série de embaraços para o produtor não irrigar”, afirma. “Isso é bem recente. (Mas) foi tirado tudo isso.”
As mencionadas restrições ocorreram numa época que era mais viável economicamente ao produtor investir na irrigação. “A gente perdeu ali aquele ciclo, de 2013 a 2015, em que os juros eram baixíssimos. Podia fazer investimento com 2% ao ano, (mas) a gente perdeu. E porque não podia fazer. Nós poderíamos estar em uma situação muito melhor se o Poder Público não tivesse gerado tanto radicalismo, tanto extremismo, não tivesse lidado com o problema com tanta passionalidade e radicalidade. Nós poderíamos estar numa situação melhor”, lamenta. “Foi o Poder Público, quero deixar bem claro, não estou falando do governo do Estado, estou falando do Poder Público”, esclarece. “Agora que as questões legais estão melhores encaminhadas, o produtor vem de sucessivas perdas. Agora ele está numa situação complicada para fazer investimento, justamente porque não foi permitido a ele fazer irrigação lá atrás.”
Sobre uma futura ampliação significativa da área irrigada no Rio Grande do Sul, o Estado que tem sido mais afetado por estiagens, Da Luz avalia que é preciso “alinhar as expectativas”.
“A irrigação é uma coisa cara. E o produtor está altamente endividado, porque justamente teve perdas por conta das questões climáticas. Então, não devemos imaginar que em poucos anos estará tudo resolvido porque não estará. Além do mais, nem toda a irrigação é possível. Nem todo o território é possível ser irrigado. Em uma boa parte sim, o suficiente para dar estabilidade, sim, mas nem todo o território é possível”, analisa.
“São quase 9 milhões de hectares. É uma área muito grande. Tu não consegue ter avanços anuais que façam com que num par ou dois de anos a gente consiga estabilizar. Não, leva muito tempo. E com o produtor descapitalizado, pior ainda.”
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‘Sem água, não há garantia de produção’, diz agricultor
“Foi uma baita ajuda. Tinha que ter mais programa nesse sentido. Por exemplo, se tivesse um programa do governo federal com mais prazo para pagamento. Isso ajudaria muito para ter a garantia de produção, porque o produtor ele faz (a implantação)…” A análise é de um dos produtores beneficiados pelo apoio, Celio Garlet, de Pinhal Grande, que passou a irrigar 40 dos 500 hectares onde produz soja, milho, feijão e trigo, além de manter um confinamento de gado. “Não adianta a gente ter uma semente boa, um fertilizante… todo o investimento se não tem a garantia da água”, argumenta. Na atual safra a irrigação tem dado suporte à produção de milho para a produção de grão e silagem.
O agricultor destaca que programas como esse incentivam a melhoria das propriedades para a diversificação de culturas e, consequentemente, de produção e renda. “Porque com isso tu tem a garantia da produção, produz mais, gera mais ICMS. É isso que a gente precisa. O produtor precisa desse tipo de incentivo”, complementa. Ainda justifica que tem um filho engenheiro-agrônomo e uma filha formanda em medicina veterinária que trabalham com ele na propriedade. “Então, isso traz também a sucessão familiar e incentivo e dá condições pra gente continuar no mesmo trabalho que é tão importante, na parte da agricultura e produção”, lembra.
Garlet investiu o total de R$ 1,2 milhão para irrigar a área com os sistemas de aspersão (30 hectares) e gotejamento (os demais 10), valor do qual R$ 600 mil foram financiados via Pronamp, mais R$ 500 mil de recursos próprios (para construção de uma barragem e a estrutura de eletrificação) e o montante de R$ 100 mil pela subvenção do programa Supera Estiagem, ao qual o Irriga+ RS está integrado. Ou seja, o projeto que foi instalado ao final da safra 2024/25 e está a pleno nesta temporada de produção teve um custo médio de R$ 30 mil por hectare. “Nos últimos anos têm tido bastante problema de estiagem. Nós temos sofrido bastante por estiagem. Eu acho que nos últimos cinco anos, se não me falha a memória, foram três anos de estiagem. Então, mais de 50% com problema de falta de chuva”, complementa.