Expodireto

Agro mira oportunidades em biocombustíveis

Refinaria e cooperativas gaúchas buscam inserção estratégica na transição para energia sustentável com foco em culturas de inverno

Último encontro do Correio Rural Debates nesta edição da Expodireto ocorreu na Arena AgroDigital
Último encontro do Correio Rural Debates nesta edição da Expodireto ocorreu na Arena AgroDigital Foto : Camila Cunha

O terceiro encontro do Correio Rural Debates nesta edição da Expodireto Cotrijal ocorreu em parceria com a Arena AgroDigital e tratou do tema “Biocombustíveis: a nova fronteira de oportunidades e a inserção estratégica do agro gaúcho”. Com mediação do vice-presidente da CCGL e dos Terminais Portuários Termasa-Tergrasa, Guillermo Dawson Jr., o painel abordou os potenciais desse mercado e teve como palestrantes o gerente de Pesquisa e Tecnologia da CCGL, Geomar Mateus Corassa; o gerente-executivo de Engenharia da SOLI3, Diego Piotto; e o head de Biorrefino da Refinaria Riograndense, Flávio Mingorance.

Na busca de estratégias para a transição energética, o agronegócio gaúcho tem traçado caminhos na direção dos biocombustíveis, com o objetivo de posicionar o Estado como potência, ao mesmo tempo em que aproveita a forte base agrícola. Dawson abriu o encontro lembrando que o Brasil sempre foi líder na bioenergia, graças ao Proálcool, e agora o Rio Grande do Sul tem a oportunidade de avançar com as culturas de inverno, tema detalhado por Corassa, que tratou de pesquisas de fomento e rentabilidade da produção, envolvendo a canola e a carinata, planta que também produz óleo para a elaboração de combustível sustentável.

O pesquisador apontou que a canola garantiu espaço por ter boa produtividade e rentabilidade. “Ela ganha expressão quando o produtor começa a ter melhores resultados. Canola gera uma série de oportunidades também para o manejo de solo nas lavouras, é benéfico para a qualidade tanto física quanto biológica. Há um efeito cinético, com uma cultura beneficiando a outra”, defendeu. A carinata também passou a ser estudada em seu projeto, que envolve cooperativas como Cotripal e Cotrijal, com foco em biocombustíveis.

“Fomos estudar que culturas tinham potencial produtivo para ter volume em biocombustíveis. Era o caso da carinata, que surpreendentemente chegava a tetos produtivos muito similares à canola”, revelou. Assim como outros óleos vegetais, a carinata, em pequenas proporções, também pode ser usada na dieta animal, se tornando estratégica, inclusive, na produção de leite, e garantindo vantagem econômica aos produtores, com uma base que envolve biocombustíveis e benefícios ambientais, sem competir com outras culturas alimentares tradicionais.

Outro ponto apresentado por Corassa foi a ferramenta Smartcoop, que garante a rastreabilidade da produção, permitindo a abertura a novos mercados, para a produção tanto de alimentos como de biocombustíveis. “É uma plataforma digital concebida pelas cooperativas para ser um grande ecossistema. Entre suas entregas de valor ao produtor, está a rastreabilidade do processo. O produtor consegue fazer a gestão completa da propriedade, e a indústria pode acompanhar as informações, como data de semeadura, insumos utilizados, inseticidas, pesticidas, tudo fica registrado.” Ele contou que hoje a Smartcoop é utilizada por 23 mil produtores, mapeando mais de 1 milhão de hectares. “Ela conduz a agendas mais verdes, conexão fundamental para o sucesso de novos projetos.”

Já Piotto falou da SOLI3 – que congrega três cooperativas: Cotrijal, Cotripal e Cotrisal – e de sua indústria de biocombustíveis, em Cruz Alta. Criada para ampliar o processamento de soja no Estado, ela recebeu licença prévia recentemente. O executivo detalhou de que forma o projeto impacta o cenário de bioenergia e ressaltou a importância das cooperativas para a solidez do projeto. “Estamos falando de faturamento em conjunto de mais de R$ 10 bilhões e em torno de 7,5 mil funcionários envolvidos, em 112 municípios, o que mostra sua importância no contexto regional”, avaliou. Ele explicou que a planta da nova indústria visa inicialmente ao trato da soja, mas que ela já nasce com projeto para 30 anos, que deve incluir operar canola no futuro. Ele também ressaltou a importância da Smartcoop para promover melhorias sustentáveis dentro da agricultura. “É um acessório importante para toda planta que produz biocombustível, porque tem o Cbios, que é o crédito de carbono, e está muito ligado à rastreabilidade”, apontou.

Piotto adiantou ainda que a planta terá seu próprio terminal ferroviário, permitindo a operação tanto no processamento quanto no transbordo de grãos, inclusive para outras empresas. “Projetamos faturamento inicial de R$ 2,5 a R$ 2,6 bilhões, tendo como principal fonte de receita biodiesel e farelo de soja. Biodiesel fica dentro do Brasil em grande parte. Glicerina tem o mercado asiático como grande comprador, que também compra bastante soja, mas menos farelo. Entre grandes compradores de farelo, falamos de Oriente Médio e Europa, que também compra soja. E Estados Unidos, até bem pouco tempo atrás, era grande comprador de gorduras, e isso tem mudado por conta de políticas internas deles”, detalhou.

Por fim, Mingorance trouxe um contexto histórico da Refinaria Riograndense, a primeira brasileira, fundada em 1937, e apresentou o projeto de tornar a unidade em Rio Grande a primeira biorrefinaria 100% renovável do país. Ele, que também responde pela estratégia de negócios, certificação e marcos regulatórios, além das relações institucionais com parceiros globais e investidores da refinaria, explanou sobre a intenção de produzir diversos biocombustíveis, baseado em culturas oleaginosas.

“Quero destacar muito o potencial das culturas de inverno, passando por canola e carinata. A Riograndense está super bem posicionada e tem boa oportunidade para, de forma ímpar, desenvolver a refinaria em si e toda a cadeia do agro na região. Estamos falando de um projeto de 1 milhão de toneladas de óleos vegetais residuais”, projetou. “E para acessar o mercado europeu, precisamos bater nas estruturas de baixa intensidade de carbono, com essas culturas de inverno e culturas rotativas.”

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