Em tempos de animosidades entre o Brasil e os Estados Unidos – leia-se “tarifaço” e ameças de mais retaliações e reciprocidade, inclusive com efeitos no agronegócio - atenção a este belo exemplo de parceria de ganha-ganha: a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mantém na capital americana, Washington, uma unidade de pesquisa, o Laboratório Virtual da Embrapa no Exterior (Labex), a chamada “Embrapa América do Norte”, em cooperação com pesquisadores locais, cujos resultados das técnicas e tecnologias desenvolvidas são replicadas nas agropecuárias de ambos os países. O Labex ocorre em acordo de cooperação com o Agriculture Research Service (ARS), vinculado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
E um dos pesquisadores envolvidos na iniciativa, inclusive como coordenador do programa Labex e representante da Embrapa na América do Norte, é o gaúcho Alexandre Varella, ex-chefe geral da unidade Embrapa Pecuária Sul, sediada em Bagé, e que desde 2019 integra o projeto nos Estados Unidos. Varella visitou a sede do Correio do Povo na Expointer e relatou como tem sido a experiência e os resultados da integração e, inclusive, em que áreas cada país está mais desenvolvido. Todas as descobertas e conclusões dos estudos podem ser exploradas e utilizadas pelos dois países.
“Nossa função primordial é fazer cooperação científica em áreas estratégicas”, resume o objetivo do trabalho. “As negociações se dão em interesses mútuos”, complementa. Conforme ele, a princípio, o setor de inteligência da estatal avalia os seus portfólios de pesquisa onde estão as lacunas nas quais precisa avançar mais profundamente ou tem deficiências de especializações ou de estruturas e, então, direciona a demanda à unidade americana, que apura nos centros de excelências americanos e canadenses onde é possível buscar colaborações para um trabalho conjunto.
Comparação
Varella lista as áreas em que a pesquisa brasileira está muito mais avançada que os parceiros e nas que os americanos estão à frente. Entre as dianteiras brasileiras, está o estudo sobre as mudanças climática. Além disso, na integração lavoura-pecuária o Brasil está muito mais desenvolvida. “Os americanos não têm (a integração), não sabem fazer, mas estão interessados em aprender”, relata. Da mesma forma, conta, tudo o que envolva “bio” as tecnologias verde-amarelas estão na dianteira. “Bioinsumos, bioprodutos nós estamos voando na frente dos americanos”, define. Da mesma forma, o know-how brasileiro em saúde do solo é outra área que desperta interesse americano.
Mas na área biotecnológica a vantagem americana é maior, como na edição gênica e métodos biotecnológicos, ainda com poucos cientistas brasileiros atuando e ainda uma estrutura limitada. Assim como na inteligência artificial e tecnologias digitais os americanos estão muito mais desenvolvidos, áreas estas que despertam atenção dos pesquisadores brasileiros. Ele exemplifica o avanço na edição gênica dentro do gene do carrapato, visto que a praga possui componentes químicos que se conectam com componentes químicos do suor bovino. “Eles detectaram o carrapato nisso e foram descobrir qual é o gene que produz estas substâncias químicas e estão tentando, por edição gênica, silenciar este gene que causa esta conexão com bovinos”, descreve. “No futuro provavelmente teremos disseminados na natureza carrapatos que não se atraem pelos bovinos”.
E, entre as interações, Varella menciona trabalhos com a Universidade da Flórida, Universidade de Illinois e institutos de pesquisa. São quatro trabalhos que envolvem os pesquisadores em atuação conjunta. Em uma delas, na pecuária, a computação visual é utilizada no desenvolvido de um software pelo que o animal é analisado por meio de uma câmera de celular para a detecção da fase inicial de uma doença. “Qualquer desconforto de estresse no animal que repercuta em mudança de temperatura corporal ou de circulação de sangue esse software vai detectar”, descreve. “No futuro o produtor vai poder ir para o campo e começar a passar o celular e olhar o seu rebanho ver em que animais podem estar iniciando uma doença que pode ser tratada preventiva ou precocemente”.
Confiança
E Varella conta que não existem repercussões negativas entre os cientistas das questões comerciais entre os dois países desde o anúncio das tarifas por Trump. Ele revela que no início do seu trabalho EUA, observou nos americanos alguns cuidados nas colaborações visto as “pressões da cadeia produtiva americana”, afinal, é reconhecida a competitividade internacional do agro brasileiro. “Mas isso na área científica foi se diluindo com o tempo”, revela.
E na sequência foram estabelecidas relações de confiança. “Na área científica a gente consegue trabalhar juntos”, atesta. “Mas existe uma situação que as colaborações internacionais estão sendo olhadas com mais cuidados. Os americanos no momento estão mais cuidadosos no que eles querem cooperar. Tem que ser muito do interesse deles. Mas aí cabe a habilidade de negociação. Dentro do interesse deles nós encaixamos os nossos de alguma forma”, acrescenta.