As importações de tratores agrícolas da China cresceram 117% de janeiro a setembro de 2026, para cerca de 5,2 mil unidades, enquanto as vendas de tratores no mercado interno caíram 14,1% até agosto, segundo levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A Índia despontou como outro relevante competidor, empatando com a China com um volume semelhante de unidades vendidas. Somados, os dois países responderam por 93% dos tratores importados.
Para o presidente da Fiergs e do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers), os dados acendem um sinal de alerta para a indústria brasileira. “Estamos diante de um mercado retraído, pressionado pelo custo elevado do cré dito e pelas dificuldades de financiamento enfrentadas pelos produtores rurais.acende um sinal de alerta para a indústria brasileira”, disse.
Ele salientou que o crescimento das importações, especialmente de tratores asiáticos, amplia a pressão sobre os fabricantes nacionais em um momento de redução da demanda. Na avaliação dele, é importante garantir condições para que a indústria brasileira possa competir em igualdade, investir em tecnologia e continuar gerando empregos e renda no país.
“O Rio Grande do Sul tem uma relação histórica com a fabricação de máquinas agrícolas e reúne empresas, conhecimento e mão de obra especializada que são referências no setor. Preservar essa capacidade produtiva é estratégico não apenas para a indústria, mas também para o agronegócio brasileiro”, destacou Bier.
Ele defende também financiamentos compatíveis com a realidade do produtor rural e de políticas que estimulem a renovação do parque de máquinas. “Fortalecer a indústria nacional significa manter empregos, gerar tecnologia e assegurar que o Brasil continue tendo capacidade de produzir os equipamentos necessários ao desenvolvimento do seu próprio agronegócio”, declarou.
Compras públicas
De acordo com a Anfavea, as compras públicas funcionaram como um importante fator de mudança no mercado. Segundo levantamento da entidade com base no PNCP (Portal Nacional de Contratações Públicas), 65% dos 3.318 tratores agrícolas licitados em 2025 foram importados.
Entre as 10,6 mil máquinas agrícolas e rodoviárias licitadas no ano, no valor de R$ 3,7 bilhões, as de origem chinesa ficaram com 33,5% das unidades e 26% do valor, cerca de R$ 960 milhões. Os demais países estrangeiros, somados, não chegaram a 1%.
O estudo classifica as máquinas pelo local de produção: marcas estrangeiras com fábrica no Brasil entram como produção nacional. O avanço das importações ocorre em um mercado que encolhe desde 2021. As vendas internas de máquinas agrícolas no varejo somaram 27 mil unidades até agosto, queda de 15,8%, e as de colheitadeiras recuaram 39,4%. Já as importações de máquinas agrícolas subiram 42% de janeiro a setembro, para 11,2 mil unidades, mais que o dobro das 5 mil exportadas no período.
Para a Anfavea, além do preço de aquisição, as compras públicas devem considerar o custo total de propriedade ao longo da vida útil do equipamento.
“Uma máquina não termina sua relação com o comprador no momento da entrega. É um ativo que precisa operar por muitos anos, e isso depende de peças, assistência técnica, manutenção e capacidade de atendimento. Nas licitações, é importante considerar o custo total de propriedade, e não apenas o menor preço de aquisição”, afirma Igor Calvet, presidente da Anfavea.
Recuo no mercado interno
As importações de tratores cresceram 42% entre janeiro e setembro de 2026, mesmo com a retração das vendas nacionais de máquinas agrícolas. Entre os tratores importados no período, 90% têm potência de até 100 HP.
A faixa entre 50 e 100 HP concentra 6.412 máquinas importadas e registra expansão de 56%. O movimento ocorre em um cenário de dificuldades para o agronegócio, com aumento da inadimplência, menor rentabilidade diante da queda dos preços das commodities e custo ainda elevado do crédito.
O que mais pesa
Na avaliação da Anfavea, o endividamento elevado e a baixa rentabilidade do produtor rural desestimulam a compra de máquinas novas. A Selic estava em 13,75% ao ano em setembro, e a inadimplência do crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,7% em agosto, segundo dados do Banco Central compilados pela entidade.
Na outra ponta, fabricantes instalados no Brasil enfrentam aumento dos custos de produção. Entre os pontos de pressão estão os componentes plásticos, afetados pela alíquota de 20% sobre resinas e polímeros e por medidas antidumping aplicadas a determinados produtos. Segundo estimativas das associadas, o impacto sobre componentes plásticos utilizados nas máquinas pode variar de 4% a 7%.
Para a Anfavea, o cenário reforça a necessidade de condições equilibradas de concorrência. A entidade não defende restringir a entrada de novas marcas ou tecnologias, mas que fabricantes nacionais e importadores concorram sob requisitos compatíveis de qualidade, segurança, assistência técnica e responsabilidade sobre o produto.
