Todo produto artesanal carrega mais do que um processo de produção. Ele reúne história, tradição e um saber fazer característico de determinada região ou comunidade. Valorizar essa identidade pode representar um diferencial competitivo, fortalecer os negócios e até impulsionar o turismo local.
É justamente esse o papel da Indicação Geográfica (IG), um registro concedido a produtos ou serviços vinculados ao seu local de origem. O selo reconhece características que conferem reputação, identidade e valor agregado, diferenciando esses produtos de similares disponíveis no mercado. Em muitos casos, essa singularidade está relacionada a fatores naturais, como solo, vegetação e clima, aliados ao conhecimento tradicional dos produtores.
Nos últimos anos, o número de IGs tem crescido no Brasil. Em 2025, foram concedidos 25 registros e, somente neste ano, já são 16. Atualmente, o país conta com 164 Indicações Geográficas, das quais 14 pertencem a agroindústrias do Rio Grande do Sul. Recentemente, 55 delas estiveram reunidas em Gramado, na Serra Gaúcha, durante o Connection Terroirs do Brasil, evento voltado à valorização da produção nacional e à divulgação de produtos reconhecidos por sua origem.
Produção artesanal
A erva-mate de Machadinho, no Nordeste do Rio Grande do Sul, passou a ter Indicação Geográfica no início de 2025, reconhecendo a produção artesanal desenvolvida na região. O expositor Lucas da Fonseca explica o sistema barbaquá, principal diferencial do produto.
"A nossa erva tem como diferencial a produção artesanal, que é feita pela nossa família. Além disso, ela se destaca pelo sabor defumado, característica muito procurada pelos consumidores, preservando muito mais as propriedades naturais. Na erva produzida pela indústria, por exemplo, a secagem chega a 300 ou 400 graus, o que reduz bastante a cafeína. Já a nossa é seca a, no máximo, 100 graus, preservando muito melhor essas propriedades", afirma.
Segundo ele, o principal benefício da IG, na categoria Indicação de Procedência, foi ampliar a visibilidade da erva-mate.
"A indicação geográfica ajuda muito a identificar o produto. Para uma indústria de pequeno porte, ela também fortalece o marketing, porque temos dificuldade para divulgar nossa marca em grandes mercados. Com a indicação geográfica, conseguimos chegar a consumidores de todo o Brasil e também de outros países", destaca.
Exclusividade
Além da erva-mate gaúcha, outros produtos brasileiros também conquistaram reconhecimento pela relação direta entre território e qualidade.
É o caso do Vinho Goethe. Existem apenas 55 hectares de vinhedos dessa variedade em todo o mundo, todos localizados em Urussanga, no sul de Santa Catarina. O vinho recebeu, no ano passado, o selo de Indicação Geográfica na categoria Denominação de Origem. Produzido exclusivamente com uvas brancas, destaca-se pela leveza, como explica a sommelier Priscila Semprebom.
"O Vinho Goethe é elaborado com castas brancas. É um vinho leve e delicado. Nos aromas, apresenta notas florais e frutas como pêssego e maçã. Em boca, confirma essas características. Tem baixo destaque alcoólico, atingindo cerca de 12,5%, e é fácil de beber. Não exige muitos acompanhamentos e é ideal para dias quentes, na praia ou à beira da piscina."
Embutido de origem europeia
A Cracóvia de Prudentópolis, no Paraná, é um embutido produzido com carne suína, lombo ou pernil, temperado com alho, pimenta e sal. O diferencial está no formato, na combinação de temperos, no teor de gordura, no processo tradicional de defumação e na textura macia, firme e de sabor marcante. A expositora Solaine Paulino descreve a iguaria de origem ucraniana.
"Prudentópolis é uma região onde 80% da população é descendente de ucranianos. A receita utiliza as melhores partes do porco, como o lombo e o pernil, além de temperos e especiarias. Depois, ela é assada e defumada em um processo que leva de sete a oito horas. O resultado é um sabor sem igual", detalha.
Há registros da produção da Cracóvia em Prudentópolis desde a década de 1950. O selo de Indicação Geográfica, na categoria Denominação de Origem, foi conquistado em janeiro de 2025. Desde então, o embutido tradicional da região vem ampliando sua visibilidade e alcançando novos mercados.
"Tem ajudado bastante a agricultura familiar e os pequenos produtores. Estamos ganhando notoriedade, participando de feiras fora do Estado, apresentando nosso produto para novos consumidores e atraindo turistas para Prudentópolis, que vem crescendo bastante", afirma.
Uma curiosidade é a origem do nome. Cracóvia é uma cidade localizada no sul da Polônia, próxima à fronteira com a República Tcheca, conhecida por seu centro histórico reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. Apesar disso, Prudentópolis é considerada o principal reduto da imigração ucraniana no Brasil. Solaine explica como surgiu a homenagem.
"Um produtor ucraniano criou a receita no açougue dele. Entre os clientes havia um polonês que conheceu o produto e sugeriu que ele recebesse o nome de Cracóvia. O produtor gostou da ideia e decidiu homenagear o amigo, batizando o embutido com esse nome."
Um mel diferente
Outro produto reconhecido pela origem é o Mel de Melato da Bracatinga, encontrado no Planalto Sul Brasileiro, região que abrange Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Diferentemente do mel floral, ele é obtido a partir da coleta, pelas abelhas, de um líquido doce (melato) emitido por um inseto chamado cochonilha, que se alimentam da seiva da bracatinga, uma árvore nativa das regiões mais frias do Sul do Brasil.
A expositora Liane Castilhos, do Apiário de Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, destaca que justamente essa característica torna o produto único.
"Gera muita curiosidade nas pessoas, porque é um mel que não cristaliza. Tem um sabor diferenciado, harmoniza muito bem com outros alimentos e também apresenta uma textura diferente. A colheita ocorre a cada dois anos. Fizemos a última agora e a próxima será apenas em 2028", revela.
O mel passa por dois processos enzimáticos — o das cochonilhas e o das abelhas —, o que impede a cristalização. Também apresenta coloração escura, maior acidez e elevados teores de potássio e magnésio.
A Indicação Geográfica, na categoria Denominação de Origem, foi concedida em 2021, após três anos de análise. Segundo Liane, o reconhecimento fortaleceu toda a cadeia produtiva da região.
"Hoje somos dez empresas, distribuídas entre os três estados, autorizadas a comercializar o mel com o selo de Indicação Geográfica. O benefício não é apenas para os produtores, mas para todo o território. O selo certifica que esse é um produto único no mundo, encontrado somente no Planalto Sul Brasileiro."
Como é concedida uma IG
O gerente de Acesso a Mercados do Sebrae Nacional, Cadu Santiago, explica que a Indicação Geográfica pode ser concedida em duas modalidades: Indicação de Procedência e Denominação de Origem.
"A Indicação de Procedência está mais relacionada ao modo de fazer, ao conhecimento acumulado e à tradição de um território. Um exemplo é uma panela de barro produzida por determinada comunidade. Produtos semelhantes podem existir em outros lugares, mas aquele modo de produção é característico daquela região. Já a Denominação de Origem está ligada às condições naturais e ambientais que tornam um produto único. O exemplo mais conhecido é o champanhe, que só pode receber esse nome quando produzido na região de Champagne, na França."
O registro é concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O pedido deve ser apresentado por entidades que representem os produtores ou prestadores de serviços da região, como associações, cooperativas, sindicatos e federações. Nesse processo, o Sebrae atua como articulador e apoiador técnico das comunidades interessadas.
"Nós fazemos um diagnóstico para avaliar se aquele produto reúne condições de se tornar uma Indicação Geográfica. Também desenvolvemos um trabalho de governança com os produtores e analisamos o potencial mercadológico da iniciativa."
Atualmente, das 164 IGs brasileiras, 130 são de Indicação de Procedência e 34 de Denominação de Origem. A maior parte está ligada à produção de alimentos, com destaque para o café, que reúne 24 registros. No Rio Grande do Sul, existem 14 registros. O mais recente é o Käsekuchen, bolo típico da culinária alemã que se tornou um símbolo da identidade gastronômica de Panambi.
Memória
Para o diretor técnico do Sebrae RS, Ariel Berti, a Indicação Geográfica certifica muito mais do que a qualidade e a exclusividade de um produto.
"Quando falamos em Indicação Geográfica, falamos de memória, de história e de pertencimento. Cada IG representa a trajetória de famílias, receitas, formas de produção e do próprio desenvolvimento do território onde surgiu."
Ele também defende que mais restaurantes incorporem produtos com Indicação Geográfica aos cardápios, a fim de valorizar a produção nacional.
"Mais do que apresentar os produtos expostos, estamos mostrando a nossa história. Estamos valorizando essa memória e dando visibilidade para que ela permaneça viva e continue sendo celebrada todos os dias."
Negócios
Além da exposição dos produtos, o Connection Terroirs do Brasil promoveu uma rodada de negócios que movimentou cerca de R$ 6 milhões. A atividade reuniu 40 compradores e 70 vendedores, consolidando-se como um dos principais espaços de conexão comercial do evento.
Para os organizadores Marta Rossi e Eduardo Zorzanello, o encontro também cumpre um papel importante na valorização da diversidade cultural e produtiva do país.
"Muitas vezes desconhecemos territórios que guardam um saber-fazer, um processo produtivo, um sentimento de pertencimento e uma reputação únicos. O Connection amplia essa visibilidade e se consolida como uma grande vitrine para promover os produtos de origem do Brasil", destaca Eduardo Zorzanello.
