Para todos os que têm alma e coração

Quando chega novembro minha saudade volta-se para aqueles anos silvestres da antiga Vila Rica

Nunca mais voltei a entrar na velha bodega até que as paredes ruíram por completo
Nunca mais voltei a entrar na velha bodega até que as paredes ruíram por completo Foto : Serge madudet / pbcp / reprodução / CP

Quando chega novembro minha saudade volta-se para aqueles anos silvestres da antiga Vila Rica. Para a poeira vermelha que levantava depois que passavam os caminhões carregados de soja e de bois. As tropas haviam sumido. O bolicho também já não era o mesmo, a clientela se bandeava para os supermercados que abriam na cidade. As prateleiras se esvaziavam aos poucos, sem as bolachas e o fumo em corda, não se viam mais os cavalos atados debaixo dos cinamomos. Já não entregava mais ranchos na vizinhança, poucos compravam querosene para lampiões depois que os postes de energia apareceram em frente ao rancherio.

Foram anos de espera pela luz elétrica. “Está vindo”, anunciavam os mais afoitos, qualquer coisa que viam pensavam ser a chegada da novidade. Não era. Todos faziam planos com geladeiras, televisores, chuveiros e luzes ao redor das moradias, nos galpões e pátios. Foi então que um belo dia surgiram uns homens vestindo uniformes alaranjados e camionetas esquisitas, Foi um alvoroço. Mandaram cortar os ciprestes ao lado da cancha de bocha. Ninguém deu importância, menos eu, que não aceitava cortarem as árvores para implantar a rede, pois poderíamos ter as duas coisas juntas. A Companhia ditava as regras.

Na venda, aposentamos o porão onde refrescávamos as bebidas, tirando uma tábua e colocando as garrafas na terra úmida. Os borrachos passaram a ficar exageradamente exigentes, queriam cerveja gelada, aperitivos com gelo, e foi se perdendo um pouco da simplicidade rústica da pulperia que foi instalada de improviso, numa parte da velha casa de madeira.

De fato, ninguém ficou mais feliz. Via os olhos cansados de minha mãe, a TV não dava para assistir de tanto chuvisco, as bebidas pareciam perder o antigo sabor, as luzes nos faziam dormir tarde e amanhecíamos com o corpo tresnoitado, andávamos com as vistas inchadas. Passada a histeria inicial, começaram as reclamações normais de toda humanidade que se ilude com o progresso e logo se decepciona.

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Não vi derrocada final e avassaladora. Fiz 18 anos e um novo mundo me requisitou. Anos depois, voltei e o nosso comércio havia fechado as portas definitivamente. Entrei na sala escura, só ficara o balcão e uma moldura de um gaiteiro da parede, que me trazia lembranças de um passado perdido, domingos claros e animados, de carne assando nas brasas e sons de cordeona nas munhecas de algum gaiteiro. Com a manga da camisa sequei o líquido salgado que brotava de meu olho esquerdo enquanto na garganta se formava algo parecido com um cerro de pedra. Nunca mais voltei a entrar na velha bodega até que as paredes ruíram por completo.

Recentemente estive lá. Nada mais existe. Minto, ficaram vestígios e ruínas, hera, ervas daninhas, uma laranjeira ainda de pé, um poço, as taquareiras, e um silêncio pesado e tão triste que sufoca qualquer criatura que tenha alma e coração.