Tudo era simples como criar galinhas

Tudo era assim, modesto, sem alaridos, redes sociais, estresses, preocupações com educação, saúde e segurança

Os conhecimentos eram transmitidos de geração a geração, pelos pais
Os conhecimentos eram transmitidos de geração a geração, pelos pais Foto : reprodução de obra de chia-Syuan Chang / apbp / cp

Agradeço todos os dias pela vida simples que tive, desde o princípio, no campo, vivendo numa casa simples à beira da estrada real. Viví amos junto à natureza, com poucos recursos, sem água encanada, energia elétrica, telefone, televisão, geladeira ou sofás . O entretenimento era um rádio Philips a pilha, às vezes uma edição antiga de 30 dias do Correio do Povo, onde aprendi a ler. Tínhamos tão pouco, mas ao mesmo tempo era uma vida plena. O mais importante estava ali, a mãe, o pai, o irmão, a casa, a comida, a água do poço. Sabíamos muito pouco das coisas, quase tudo era feito na intuição. E sonho. Imaginação.

Dona Mirica, minha mãe, gostava de criar galinhas. Tinha devoção, prática e conhecimento. No início, eram poucas, dormiam empoleiradas nas árvores. Mas depois foi preciso fazer um manejo meticuloso de galos e poedeiras. Então, um dia, construíram um belo galinheiro, com tijolos, todo com furos dos lados, com poleiros de madeira e até porta. Vinha gente da cidade comprar as famosas galinhas caipiras lá de casa. Grandes e pesadas. Mirica havia estudado até a terceira série, mas tinha tino para os negócios. O hoje empreendedorismo. Para isso, já tinha criado o armazém de secos e molhados. Uma venda. Mas vendia galinhas, doces e algumas outras coisas. Aplicava injeções, mas para isso não cobrava nem aceitava dinheiro.

Uma coisa que eu adorava era o ato de atirar milho no terreiro e gritar: “Pipipipipi....prrrrrrrrr......”. E as penosas corriam, saíam de todos os lugares em desabalada corrida de asas abertas. O milho era produção nossa, própria, fazíamos pequenas lavouras, colhíamos e debulhávamos. Os restolhos ficavam para as vacas no inverno. Um dia, o pai chegou com uma máquina de debulhar milho em casa. Seu Turíbio, logo olhou para o equipamento e disse: “Depois disso, qualquer coisa é possível no mundo.” Nós, os guris, demos risada, e o velho completou: “Onde este mundo vai parar? Qualquer dia vão inventar uma máquina de tirar leite na mangueira.” Inventaram mesmo, o ranzinza tinha razão.

Nosso vizinho, seu Orcy, fazia chinelos de pneus velhos. Ele mesmo inventou uma máquina de espremer toucinho e fazer banha de porco. Fazia vinho, sucos, plantava feijão, hortaliças e frutas. Todos criavam porcos, galinhas, tinham vaca de leite, faziam pães caseiros no forno, usavam ervas como remédio para tudo. E nem existia o Google naquela época. Os conhecimentos eram transmitidos de geração a geração, pelos pais. Dia desses sonhei que estava no meio do terreiro, numa linda manhã de primavera, chamando as galinhas e jogando o milho em lançadas. Para que se esparramasse bem. Acudiam à faina dezenas de pássaros, que nem se importavam com bicadas e esporaços de galos.

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Tudo era assim, modesto, sem alaridos, redes sociais, estresses, preocupações com educação, saúde e segurança. Não dependíamos de alertas meteorológicos. Havia dias de sol, tinha aguaceiros, frio e calor. Tudo era normal. Uns nasciam, outros morriam. Tinha a alvorada, o meio-dia e o entardecer. O café, o almoço, às vezes o café da tarde, e a janta. Gente era gente, bicho era bicho. Era tudo assim mais claro. Os velhos terminavam suas vidas em cadeiras de balanço, recordando epopeias.

Era uma época de serões, caçadas, pescarias, tropas, bailes de formaturas em clubes, fandangos nos arrabaldes e surungos na campanha. As rádios retransmitiam avisos como “esperar na porteira...” Além de programas com músicas de Pedro Raymundo, Gildo, Teixeirinha, Nelson e Janete e Três Xirus. A Guaíba dava as notícias e todos acreditavam. Ainda não haviam inventado as fake news.

O colunista está em férias. Esta coluna foi publicada originalmente em 9 de novembro de 2025