Tudo mudou, nem se vê mais a gadaria charolês pintando de branco os campos da minha terra. Sumiram as tropas que vinham suadas pela estrada do Cerrito e dobravam em direção à Charqueada na Esquina Maboni. A gente ia para a frente do bolicho ouvir o grito dos tropeiros, admirar seus cavalos, de laço atado nos tentos, chapéu tapeado na testa, a bombacha larga, as esporas de papagaio comprido e roseta grande, a faca prateada atravessada na cintura e aquele jeitão despachado e alegre de quem vive ao relento, debaixo da lua e das estrelas. Depois, quando voltavam, apeavam em alarido, pedindo um trago aos gritos, cachaça ou vinho.
Não se vê mais os caponetes nativos de aroeira, cabriúva, angico, pitangueira, araçá e butiá. Perdemos as sangas que corriam limpas, filetes de água que seguiam para os arroios, os arroios davam nos rios e estes corriam, em marolas, para abraçar irmãos maiores, como o Guassupi, o Jacuí, o rio Pardinho, o Ijuí, o Vacacaí, o Santa Maria, o Ibirapuitã, o Ibicuí e outros. E os açudes grandes, com suas águas azuladas, sempre na frente das estâncias, repletos de marrecas, em alguns dava para andar na taipa, onde se pescava traíras grandes aos sábados, ao anoitecer, e aos domingos no clarear do dia.
Fugiram de nossas vistas os campos a se perder de vista, as casinhas de pau-a-pique à beira da estrada de chão, os guris montados em cavalos só com freio e pelego, os pontilhões de madeira, as folhinhas de calendário, a vassoura de guanxuma atrás da porta, as gaiotas, os carroções de quatro rodas, as carretas toldadas, os pintos esgaravatando no terreiro, o cantar dos galos em madrugadas longas de outono, as galinhadas com as aves roubadas dos donos da casa, os serões de doces em tachos.
Ah, tanta coisa que não vemos mais. Nunca mais vi um bolicho na beira da estrada real, ao lado de uns cinamomos, com uma cancha de bocha ao lado, cavalos atados nas tramas, tratores estacionados com os pneus gastos, um caminhão Mercedez-Benz 1113 de carroceria atada com arame farpado. E os bolicheiros antigos, fumando palheiro, de olhar desconfiado.
Foram-se imagens e personagens. Mas, vez que outra, nos deparamos com um galpão numa dessas granjas, que esqueceram de derrubar e, lá dentro, encostado num canto, está uma cambona preta abandonada. Num caibro carcomido, enxergamos uma rédea roída. Ela que foi trançada por mãos de bom guasqueiro. Quantos pingos guiou pelos corredores sem fim do pago?
E, num canto de lavoura, um resto de mato, pequeno, que ainda faz sombra nas tardes quentes de janeiro. Raramente, um pingo Crioulo pastando num terreno de periferia, uma vaca leiteira chamando a cria numa manhã sestrosa de maio.
Sobraram fragmentos. Um moço de boina e alpargata tocando uma milonga de Gildo de Freitas numa rodoviária. Novos poetas criando versos de causos dos avós. Nos jornais, um caderno dedica espaço para histórias de gauchadas. Um programa de rádio. E assim seguimos, buscando pedaços de uma utopia que volta na memória por meio da arte. Esta coisa tão antiga, tão velha e tão conhecida, que nasceu com os homens para que eles não se esqueçam de onde vieram e para onde vão. Ela vai resgatar vestígios e contar, com eles ajuntados, um novo conto. Porque se nada vive para sempre, também é verdade que nada nem ninguém nunca morre por inteiro.
O colunista está em férias. Esta coluna foi publicada originalmente em 10 de maio deste ano
