Os desfiles da nossa vocação ancestral

É nossa história, é nosso destino e nossos corações de homens e mulheres que vieram até aqui

O Rio Grande do Sul é um exemplo de perseverança
O Rio Grande do Sul é um exemplo de perseverança Foto : Mauro Schaefer

Seu José Mendes, meu pai, não gostava de animais de raça muito apurada. Seus amigos, como o seu Alcindo, seu Turíbio ou seu Neto, concordavam. “Dão trabalho e morrem com o vento”, alertava o velho Turíbio, antigo carreteiro e casmurro. Um exagero, claro, mas era uma forma deles explicarem que para pessoas pobres, peões, era importante ter cavalos, vacas, ovelhas, porcos, seja qual fosse o bicho, sem raça, “pelo duro”, porque eram rústicos, resistentes a doenças e facilmente alimentados. Seu Mendes abria uma exceção, para os cavalos “de carreira”. Aí o tropeiro que se criara ganhando a vida trabalhando nas lavouras de arroz de Cacequi e São Vicente do Sul, e carreteando dormentes para a antiga Viação Férrea, gostava de Puro Sangue Ingleses, para correr rápido e encher a guaiaca de dinheiro.

Talvez por isso, demorei um pouco para me interessar pelas linhagens, os pedigrees, as seleções, etc. Só mais tarde, já adulto e jornalista, me dei conta da importância do aprimoramento das raças, seja para aumentar a produção, seja para diminuir custos e elevar os ganhos dos produtores. Se melhora a produção de leite, se aumenta a quantidade de carne de cada exemplar, se contribui para a segurança alimentar. Lá na Vila Rica de antanho, falávamos de homens que tinham poucos animais, sem condições de adquirir espécies selecionadas. Era diferente.

Hoje, vejo que o Rio Grande do Sul é um exemplo de perseverança de seus produtores em busca de aprimoramento de sangue, raça e procedência. Há dezenas de exemplos de atitudes de abnegados que introduziram conceitos, foram buscar matrizes e reprodutores noutros países. Os criadores de gado charolês de Júlio de Castilhos, os crioulistas da Fronteira-Oeste, os sojicultores do Planalto, os vitivinicultores da Serra. Existem outros. Nosso Estado sempre foi pioneiro em diversas atividades. Transformar a agropecuária brasileira, dar a ela a referência e respeito que tem hoje foi mais uma de nossas revoluções.

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Quando assistimos, em Esteio a esse esplendor, à pujança estelar de espécies, padrão de morfologia e funcionalidade, produção e selo racial, temos que admitir que ali, à nossa frente, está de fato, o DNA de nossa verdadeira vocação ancestral. Esses animais e seus proprietários comprovam que este garrão meridional progride, acompanha a evolução, investe em tecnologia, em indústria, comércio, nas mais distintas áreas da economia. Mas, no fundo, nunca deixa de estar com os pés fincados na terra. No campo. No Pavilhão da Agricultura Familiar nos deparamos com uma produção vasta, rica, variada, baseada em anos de transmissão de técnica e sabedoria.

É nossa história, é nosso destino e nossos corações de homens e mulheres que vieram até aqui, atravessaram os anos, fundaram cidades. E redesenharam as fronteiras de lança na mão, no lombo do cavalo, repontando tropas, abrindo lavouras e fazendo gemer a terra.