A gaita se espicha num vaneirão pacholento, o cuera abre o peito, alguns casais rodopiam entre a poeira e a fumaça sobre um piso de chão batido. É setembro, é Semana Farroupilha, e no acampamento do Harmonia é assim. Um piquete ao lado do outro, a situação se repete, com poucas ou nenhuma alteração. Muda o cenário, se alteram os instrumentos, o alarido, mas a fuzarca prossegue noite afora, dia após dia, noite após noite, numa confraternização una e diversa, onde a tradição gaúcha reúne gaudérios genuínos e outros de ocasião. Mas isso pouco importa. O gaúcho tem essa mania atávica de cultuar seu passado, sua história, lendas, hábitos, usos e costumes.
Este fenômeno do Acampamento Farroupilha está de volta no Centro de Porto Alegre. Mais de 280 piquetes num espaço dentro do Parque Harmonia. Nos anos 1980, era um banhado, uma área verde onde a gauchada deixava os cavalos antes dos desfiles. Surgiram lonões, barracas, fogões, churrascadas, noites de tertúlias, e o movimento foi crescendo. Em 1987, a prefeitura decidiu oficializar o primeiro acampamento. No início, bem amador, incipiente, cheio de deficiências. Falta de estrutura, um barral imenso, mas com o tempo as coisas foram melhorando. Até se tornar esse evento grandioso de hoje, com dezenas de shows, apresentações, espetáculos, cirandas escolares, presença de milhares de turistas.
É curioso que esta atividade toda se realize em Porto Alegre, a capital que nunca apoiou os farrapos. Mas as festividades não se restringem à guerra de 1835. Elas reverenciam nossa identidade, a história e a tradição. Por isso, o acampamento não é lugar apenas de campeiros genuínos, de adaga na cintura, mas também de citadinos que cultivam o pertencimento. Além desse congraçamento, existe a questão econômica, com lojas, restaurantes, bares, mercados e artesanato, etc.
- Charla do primeiro e do segundo pai
- Vídeo: A era de ouro dos festivais nativistas e a transformação da cultura gaúcha
- Todos os doces que a vida levou embora
Este ano, inclusive, a Campereada digital, que tem bombado no YouTube, terá diversas intervenções direto do parque com materiais exclusivos. Será uma forma de trazer conteúdos de teor regional diretamente da Cidade dos Gaúchos. Assim, o leitor que estava acostumado a ler a coluna no impresso, terá também a alternativa com vídeos curtos. Como sempre digo, o tempo passa e o Correio do Povo acompanha a evolução e se moderniza. Não é demais? Venha camperear conosco.
Os anos se passaram, o parque agora está diferente, administrado pela iniciativa privada, os piquetes estão estruturados, mas uma coisa permanece exatamente a mesma: nossa alma, nosso orgulho pelo passado que os antepassados viveram, desenhando fronteiras à pata de cavalo e lança na mão. Por fim, este ano vamos lembrar os 400 anos das Missões Guaraníticas no Estado, quando temos a chance de valorizar nosso povo guarani que foi dizimado covardemente por Espanha e Portugal. Que nós, gaúchos, saibamos homenagear essa gente que sempre foi a dona da terra.
