Lá na Vila Rica, nas madrugadas frias de inverno, era difícil ordenhar as vacas na mangueira às escuras. Mas era preciso e necessário. Era ruim carpir lavouras de mandioca nos sóis escaldantes de janeiro. Sabia de colegas de colégio que passavam as férias em fazendas, pescando em açudes, tomando banho em lajeados. Outros viajavam para praias de mar, conheciam novos lugares. Tinha, ainda, os que como eu ajudavam os pais, porém moravam na cidade, onde os recursos eram fartos, com energia elétrica e televisão.
Também tinha vontade de assistir a filmes e a jogos de futebol. Na impossibilidade, substituía pelo rádio e pela leitura de edições antigas do Correio do Povo. Isso, de certa forma, instigou minha imaginação. Não enxergava, mas vislumbrava. Sem saber, aprendia a enfrentar as adversidades, os pequenos enfrentamentos diários. Aprendia a buscar coragem. Ou algo parecido.
A coragem nas escolhas
Sempre titubeava em pedir coisas a meu pai, nutria um medo atávico de ouvir um não humilhante. Um dia me enchi de brio, pensei, calculei, planejei a forma e o horário, pedi e ganhei. Antes, expliquei meus motivos. Depois, numa tarde de sábado, escutei uma música de Gildo de Freitas em que a letra falava que um homem precisa de coragem até para conquistar o amor da sua vida. Quando isso surgiu, foi difícil, era muito tímido. Mas o tempo foi me apontando o caminho e me mostrando atalhos.
Jornalismo e novos desafios
Por essa época, comecei a sair à noite, E para voltar para casa tinha que enfrentar um trecho escuro. Após uns dias de pânico, fui me dando conta que quem me via ao longe, na noite, como eu, só via um vulto, e deveria ter tanto receio lá como aqui. Comecei a encarar isso, também, de uma forma mais corajosa. Foi assim, tendo uma postura digamos, ousada, que vim parar no Correio do Povo, o jornal que aprendi a ler. Um dia, peguei meu incipiente currículo e rumei para a avenida Caldas Jr., onde tinha passado, mas nunca havia entrado no prédio centenário. Fiz questão de subir pelo elevador histórico. Me perguntaram se sabia escrever em computador. Sem pensar, disse que sim. Fiquei três dias treinando num aparelho antigo, passei no teste e fui chamado para ser redator.
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Quando a direção de Redação me perguntou, em 2009, se me animava a ser o titular da coluna “Campereada”, senti o peso da responsabilidade, mas fui arrojado. Porque era uma oportunidade. Como disse o Guimarães Rosa, é preciso mesmo ter ousadia. “A vida só nos pede coragem”. Ela exige outras coisas, mas essa é uma frase filosófica, é algo que precisamos ter para não deixar de realizar coisas pela estrada.
Sempre acreditei no destino, mas aprendi que devemos ajudá-lo. Às vezes, até o destino precisa ser atiçado, para incentivá-lo a trazer uma coisinha boa para nós. Trata-se de um truque de acreditar no destino, mas não deixar tudo nas mãos dele. Enfrentá-lo, contrariá-lo e, no final, dizer, de um jeito meio pachola: “Não te assusta que tô tremendo”.
