As três casas de Neruda

São três casas, três espaços erguidos com zelo e mobiliados meticulosamente pelo poeta, político e diplomata

Casa de Isla Negra
Casa de Isla Negra Foto : Paulo Mendes / Especial / CP

Em Isla Negra, no litoral chileno, ela mira o mar de perto, das janelas que rasgam as paredes de pedra se enxergam as ondas que batem nas pedras da praia, lá onde está o túmulo de Pablo Neruda e Matilde Urrutia. Turistas, depois de visitar as multicoleções de vasos, máscaras, esculturas, carrancas, objetos de navios, pratos e copos coloridos, camas estrategicamente colocadas em quartos envidraçados, passeiam na areia grossa e se viram para admirar a casa azul. Pelas saletas que se sucedem estão miniaturas, livros, e a cama onde, em 1973, o poeta que começou a escrever versos aos 6 anos, quedou-se doente.

Em Valparaíso, ela está em um cerro, numa montanha. Para chegar até ela, se serpenteia em ruas estreitas e, por fim, nos surpreendemos com a vista da baía, o porto, de onde o poeta via as chegadas e saídas dos navios cargueiros todos os dias. Era uma casinha simples que foi ganhando altura, lances, espaços, salas, lembranças, presentes, estátuas, quadros, curiosidades de muitas partes do mundo. Ali gostava de receber amigos para conversar, comer e beber.

Dormitório de frente para o mar em Valparaíso | Foto: Paulo Mendes / Especial / CP

Em Santiago, a “Chascona”, palavra quéchua que quer dizer mulher de cabelos rebeldes, fica no bairro Bellavista. Esta, Pablo arranjou para se encontrar com Matilde, à época sua amante, e posteriormente, esposa. Foi nesta casa, que como as outras se acumulam objetos pessoais e espaços íntimos de produção criativa, Matilde velou o marido e mostrou ao mundo a violência da polícia política do ditador Augusto Pinochet.

São três casas, três espaços erguidos com zelo e mobiliados meticulosamente pelo poeta, político e diplomata, Prêmio Nobel de Literatura em 1971, nascido Ricardo Eliécer Neftali Reyes Basoalto, em 12 de julho de 1904, em Parral, e que morreu envenenado a 23 de setembro de 1973. São moradias icônicas, onde o visitante mergulha na obra e na vida de um artista imenso, um homem às vezes contraditório, mas que por certo não cabe em todas as suas casas chilenas.

Foto com Vinícius de Moraes, em Santiago | Foto: Paulo Mendes / Especial / CP

Ah, o Chile da Cordilheira dos Andes, das ruas tristes dos bairros frios de Santiago, da cultura mapuche, do aroma e gosto de seus vinhos que nos fazem reler um verso de Neruda. O Chile tem tantos encantos, mas as três casas-museu mantidas pela Fundação Pablo Neruda contam muito sobre a vida cultural, histórica e política do país.

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