A escassez de bovinos para abate pressiona para cima as cotações do boi gordo e sustenta o atual bom momento da pecuária de corte, com estímulo à produção de genética melhorada. Nesse cenário, a tradicional temporada de leilões e remates de primavera vem sendo caracterizada por pista limpa e preços em alta neste ano. A perspectiva é de negócios aquecidos até o final de outubro, e o período deve se encerrar com médias até 20% superiores às da temporada de 2025, projeta o presidente do Sindicato dos Leiloeiros Rurais e Empresas de Leilão do Rio Grande do Sul (Sindiler), Fábio Crespo.
Um termômetro da tendência foi verificado na 49ª Expointer. Realizada de 29 de agosto a 6 de setembro, em Esteio, a mostra agropecuária teve 7.926 exemplares inscritos em competições e exposições (rústicos e de argola), e as vendas totais de animais (que incluem, além de bovinos, categorias como equinos e ovinos) atingiram R$ 21,9 milhões, um crescimento de 20% frente aos negócios da edição de 2025. “A Expointer já virou uma temporada de primavera. As fêmeas foram muito bem valorizadas, e os touros estão com em torno de 10 a 12% de aumento (sobre os preços) do ano passado”, diz Crespo.
Entre os eventos ocorridos durante a feira, o Leilão Legado, da Estância Bela Vista e Genética Vacacaí, organizado pela Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), registrou média de R$ 73 mil entre os animais. Um dos destaques foi a negociação de 33% das cotas da vaca Jasmine, da Fazenda Pitanga, por R$ 189 mil, com avaliação total de R$ 567 mil, valor recorde para uma fêmea da raça. Outro exemplar, Krystal, da Estância Bela Vista, foi a terneira mais valorizada, com 50% comercializados por R$ 219 mil e valorização total de R$ 438 mil.
Para Crespo, porém, o principal detalhe não está nas cifras alcançadas nesses eventos, mas na venda da oferta total.
“O mais importante é a liquidez. Os leilões estão ágeis, estão fluindo mais. O que está sendo colocado no mercado está encontrando comprador”, afirma o leiloeiro, associando a alta demanda, em parte, à alta do boi gordo.
“Está saindo bastante gado para Santa Catarina, Paraná, São Paulo. E há maior procura (de produtores rurais) querendo voltar para a pecuária”, acrescenta.
O professor Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), confirma a expectativa de alta liquidez para o resto da temporada e projeta preços de 10% a 15% superiores ao da primavera passada. “Venderá toda a oferta, e a qualidade marcará preço. O mercado está premiando uma carne de qualidade”, diz.
Em termos de valorização, o destaque desta primavera, segundo Barcellos, serão os touros, porque a queda na oferta de animais não deverá ser revertida em curto prazo.
“Pelos próximos cinco anos, teremos um mercado muito favorável para a carne no mundo. E, como o Brasil é um grande protagonista e o Rio Grande do Sul também começa a tomar parte disso, teremos uma procura por reprodutores para investir na cria muito mais intensa que nos anos anteriores”, afirma o professor.
Sinais externos
Segundo Barcellos, os sinais favoráveis ao bom desempenho dos leilões vêm principalmente do cenário externo. Ele cita a nova cota de importação aberta pelos Estados Unidos, que autorizaram a compra de até 300.000 toneladas de carne bovina sem cobrança de tarifas extras por 90 dias. A medida compensa, em parte, as barreiras impostas à proteína brasileira pela União Europeia e a China.
“A demanda continua alta por conta de terceiros países. E isto é um sinal muito importante para o pecuarista, estimula investimentos (em genética)”, destaca.
Os eventos de primavera também se beneficiam da modernização da indústria frigorífica. O setor, explica o coordenador do NesPro, começa a ampliar a oferta de produtos “premium” e a adotar operações de barter, modelo de financiamento em que o pecuarista troca insumos para a engorda do gado por animais prontos para abate no futuro. "Começa a ser criado um mercado futuro, isso é algo muito positivo e inovador. Tudo isso demanda novas tecnologias, e as feiras oferecem produtos com tecnologia embarcada, que são os reprodutores e as matrizes com todos os seus diferenciais”, explica Barcellos.
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