“Ninguém faz vinho sozinho.” A frase de Natália Taffarel, presidente da Associação Farroupilhense de Produtores de Vinhos, Espumantes, Sucos e Derivados (Afavin), ajuda a entender a lógica por trás do desenvolvimento da vitivinicultura de Farroupilha. No município da Serra Gaúcha, a 110 quilômetros de Porto Alegre, diferentes portes de produtores compartilham o território e contribuem para o crescimento da região considerada atualmente como a maior produtora de uvas moscato do país.
Reconhecida pela Indicação de Procedência (IP) dos vinhos moscatéis e em busca da Denominação de Origem (DO), Farroupilha concentra 99% dos 379 km² da área delimitada pelo selo, onde convivem propostas bastante distintas, como cooperativas que reúnem centenas de associados, adegas de gestão familiar e vinícolas com produção em larga escala.
Há mais de vinte anos, essa diversidade de técnicas e produtos se encontra anualmente na Seleção de Vinhos do município. Avaliadas às cegas por um corpo técnico de especialistas, as amostras passam por uma análise que funciona como ferramenta de monitoramento da qualidade e tem elevado o nível das elaborações safra após safra.
Nesta edição, o evento registrou os maiores números de sua história, com 277 amostras inscritas por 14 vinícolas, avaliadas por 44 jurados ao longo de dois dias de degustação. Em silêncio, os especialistas examinam aspectos como limpidez, intensidade aromática, equilíbrio e persistência do sabor. As taças são servidas por uma garrafa identificada apenas com um código, sem qualquer referência à marca ou produtor. Com toda a concentração possível, em poucos minutos os jurados dissecam o resultado de um ciclo inteiro de trabalho. Os premiados serão conhecidos em 11 de setembro.
Poucas vezes, em especial para quem é leigo no assunto, o vinho que chega à mesa é pensado como o longo processo que ele de fato é. A garrafa aberta numa ocasião especial não costuma remeter de imediato às famílias que vivem cada etapa dessa elaboração. No entanto, uma vez que se percebe essa dimensão, é difícil voltar a ignorá-la.
O mesmo acontece com a complexidade de aromas e sabores que compõem a bebida. O espumante moscatel brasileiro, por exemplo, esconde uma lista extensa de referências, segundo o engenheiro agrônomo Mauro Celso Zanus, pesquisador da Embrapa. Você talvez já tenha percebido notas de flores, frutas frescas ou nozes e amêndoas, mas já imaginou que o mesmo produto pode trazer toques de batata-doce, caramelo e até mamão papaia?
🍷 Elaborações sob mínima intervenção
Além dos moscatéis, vinhos tintos, finos, de mesa e de guarda também chamaram atenção por sua riqueza aromática e gustativa. A edição deste ano trouxe ainda categorias inéditas, entre elas a dos vinhos elaborados sob mínima intervenção enológica, que abrange orgânicos e biodinâmicos e reúne as elaborações conhecidas como naturais, ainda pouco exploradas no país. Na prática, o termo se refere à redução do uso de insumos químicos ao longo da elaboração, de modo que o produto final expresse ao máximo a uva de origem.
A enóloga Giulia Martinelli, da vinícola Monte Astral, faz questão de destacar esse ponto antes que ele seja mal compreendido.
“Eu gosto de frisar o 'química' porque às vezes as pessoas entendem que a gente processa a uva, coloca no tanque, envasa e está pronto, e não. É muito pelo contrário. Quando a gente fala de vinhos de qualidade com mínima intervenção, [o processo] exige muito mais cuidado, mais acompanhamento e sensibilidade requerida para chegar a um bom resultado”, afirma.
Para a especialista, o segredo dos rótulos da casa está na uva, selecionada à mão em procedimentos que podem chegar a durar até doze horas. Depois disso, a vinificação é feita em tanques de concreto, escolha não tão comum para o setor acostumado ao inox e à madeira. O material tem a porosidade exigida na etapa de micro-oxigenação da bebida, assemelhando-se à madeira, explica Giulia, e mantém a temperatura estável sem precisar de intervenção artificial.
“As barricas de madeira vão alterar o sabor e o aroma daquele vinho. O concreto, não. Então, eles destacam muito mais o lado mineral, a tipicidade”, complementa.
Pouco conhecido no Brasil, o vinho natural convive com ressalvas, e conhecedores enfatizam que o esforço precisa se traduzir em sabor. Provado diretamente do tanque, o vinho produzido ali chega ao paladar com notas marcantes, distintas das convencionais.
Foi justamente a baixa popularidade do segmento que levou os proprietários Fernanda e Paulo Cesar Rutzen a investir em um restaurante na propriedade, a partir de uma pergunta: por que as pessoas viriam pelo vinho natural? Hoje, conta Fernanda, o Ostara acabou se tornando mais conhecido do que a própria vinícola, e o menu trabalha com harmonizações que valorizam ingredientes nacionais e gaúchos ao lado das elaborações da casa.
Instalada no ponto mais alto da região, a vinícola de pequena escala entrega uma paisagem digna de filme, especialmente ao cair do sol. Da poda à colheita, o manejo biodinâmico busca extrair o melhor do terroir, e a mesma lógica de proximidade com a natureza se estende à arquitetura da propriedade.
🍁 Enoturismo
Farroupilha é também um destino para apaixonados por paisagens, e o que se vê varia conforme a época do ano. Ao longo de nossa visita, realizada em agosto, os parreirais estavam em dormência, com galhos secos e a poda em andamento, enquanto os pessegueiros carregados de flores pontuavam as estradas do interior. A partir de setembro, com a brotação, o cenário será outro.
Uma das maiores vinícolas do país, a Casa Perini também aposta na paisagem como parte do enoturismo e disponibiliza passeios de bicicleta pelos arredores da propriedade. A iniciativa não é rara na região, onde as vinícolas passaram a se preocupar não apenas com o espaço da fábrica, mas também com o interesse crescente do público pelos bastidores da produção.
Antes de se tornar vinícola como é conhecida hoje, a produção da família cabia num porão, onde o filho de imigrantes italianos João Perini elaborou seus primeiros vinhos artesanais, em 1929. Quatro décadas depois, seu filho Benildo fundou a marca, que atualmente carrega títulos e prêmios nacionais e internacionais. Para Pablo Perini, terceira geração à frente do negócio, o vinho mantém relação direta com a origem.
🥂 O selo da uva Moscato Branco
São as uvas moscatéis que dão a esse vínculo a sua expressão mais forte no município, além de figurarem como o principal motor da economia local. Na Cooperativa Vinícola São João, fundada em 1931 e formada por cerca de 480 famílias associadas, o diretor executivo Ismar Pasini resume o peso da variedade para a região: “os moscatéis significam tudo pra nós", afirma.
O reconhecimento dessa vocação está registrado desde 2015 na Indicação de Procedência (IP) Farroupilha, primeira indicação geográfica do país dedicada exclusivamente a vinhos moscatéis. A área delimitada concentra o maior volume de produção da casta no Brasil, cerca de metade do total nacional, e tem como destaque a Moscato Branco, cultivada na região desde os anos 1930 e não encontrada em outros países. Cada garrafa recebe um selo de controle numerado, que garante a rastreabilidade do produto.
A associação trabalha agora na obtenção da Denominação de Origem (DO) junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), em estudo com apoio da Embrapa. “Nos próximos anos, com certeza teremos orgulho de apresentar ao mercado e aos consumidores do nosso país a denominação de origem Farroupilha para as uvas moscatéis”, diz a presidente. “Aqui a gente trabalha com cultura, com territorialidade em uma área excelente para o plantio das variedades moscatéis.”
Por trás de cada rótulo avaliado às cegas na Seleção, existe um processo particular de elaboração. Ainda que o critério não contribua para a nota final, esse percurso é o que mais desperta curiosidade em quem visita as vinícolas.
Na Cave Antiga, vinícola familiar em que Natália Taffarel é sócia-proprietária, os enólogos investem em estudos para compreender quais combinações funcionam melhor com cada variedade. Entre os resultados dessa busca, saiu um espumante moscatel envelhecido por doze anos, elaboração que dividiu os sócios pela complexidade e evolução do resultado, pouco familiar ao paladar brasileiro. Confiante da aposta, a presidente da Afavin provoca: “talvez precisemos explicar um pouco menos e servir mais”.
Entre as possibilidades que só existem dentro da vinícola está a base do moscatel servida direto do tanque na Casa Perini, ainda antes da espumatização, quando o açúcar natural da uva permanece intacto e o sabor não se repete em nenhum rótulo à venda. “Ele tem bastante açúcar ainda. Tem uma nota coral de fruta que não se encontra depois”, explica Pablo Perini.
Experiências como essa também explicam por que algumas produções nunca chegam às prateleiras. Na Adega Chesini, negócio tocado por oito irmãos há 66 anos, parte do trabalho é destinada exclusivamente ao uso litúrgico. O vinho canônico começou a ser elaborado pelo avô da família, fornecedor dos padres e bispos da região, e hoje segue sob responsabilidade de Ricardo Chesini, à frente da administração e da enologia da casa, que até hoje leva os rótulos a feiras de artigos religiosos em outros estados. Além disso, no Rio Grande do Sul, a adega é uma das poucas vinícolas autorizadas a produzir a especiaria.
A dimensão da produção local costuma surpreender quem chega. Do lado de fora, a estrutura da Cooperativa Vinícola São João, responsável pela marca Castellamare, não antecipa o que existe no subsolo, onde se organizam os enormes tanques que abastecem a operação. É esse contraste entre a paisagem rural e a escala industrial que revela o tamanho do setor no município.
Para João Carlos Taffarel, proprietário da Cave Antiga e pai de Natália, o polo de Farroupilha está a caminho de se tornar mais conhecido no Estado, e o diferencial passa pelo potencial da viticultura de uvas brancas, ainda pouco explorado se comparado à tradição dos tintos na Serra.
Aos olhos de quem acompanha o concurso há muitos anos, a evolução dos rótulos é nítida. “Aquilo que nos primeiros concursos se detectava, alguns defeitos nos vinhos, agora praticamente não existe. A nossa dificuldade agora está em buscar virtudes”, avalia o engenheiro químico Gilberto Cargnel, especialista em vitivinicultura com mais de 30 anos de atuação e integrante do grupo de enologia da Organização Internacional da Uva e do Vinho (OIV). Segundo o jurado, notas que antes ficavam em 86 ou 87 pontos hoje alcançam 90, 92 e até 94, nota que garante a tão almejada Grande Medalha de Ouro.
O avanço, no entanto, não se explica por uma vinícola isolada, mas pelo conjunto, safra após safra, no mesmo território que as cooperativas, as adegas familiares e os projetos inovadores dividem há décadas. Pois, como resume a presidente da Afavin, ninguém faz vinho sozinho.
*A repórter viajou a Farroupilha a convite da associação.
