Uma delegação dos Países Baixos, incluindo representantes de empresas e universidades, está no Rio Grande do Sul para participar de eventos sobre agricultura de precisão, em Porto Alegre, e para avançar em uma cooperação com entidades do setor agrícola, cooperativas e empresas em Passo Fundo e em Não-Me-Toque. A conselheira para Agricultura, Pesca, Segurança Alimentar e Natureza da Embaixada do Reino dos Países Baixos no Brasil, Inge Horstmeier, participa do grupo. Ela concedeu uma entrevista ao Correio do Povo, falando das perspectivas da aproximação entre os Países Baixos e o Estado.
"A missão pode gerar diferentes tipos de cooperação: projetos-piloto em propriedades, unidades de referência tecnológica, pesquisas conjuntas, intercâmbio de pesquisadores, capacitação e parcerias empresariais,"
Na agenda, estão a participação no 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e na 17ª Conferência Internacional de Agricultura de Precisão (ICPA). Na quarta-feira, haverá uma reunião na Farsul em Porto Alegre. Já na quinta, a missão segue para Não-Me-Toque, onde visitará a Stara, a Cotrijal e a CCGL. No dia seguinte, a programação será em Passo Fundo, com passagem pela Be8, Fazenda Compostela, GDM Group e Fertisystem.
Confira a entrevista completa
A cooperação entre os Países Baixos e o Rio Grande do Sul entra agora em uma nova fase?
Sim. As soluções neerlandesas já são reconhecidas pelo agro gaúcho, especialmente em gestão da água. O próximo passo é ampliar essa relação para a agricultura de precisão e a adaptação climática, transformando conhecimento em projetos colaborativos, pilotos e parcerias de longo prazo. Não viemos vender soluções prontas: viemos construí-las junto com empresas, universidades, cooperativas e produtores do Estado do Rio Grande do Sul. E esse movimento acontece em um ano simbólico, em que Países Baixos e Brasil celebram 200 anos de relações diplomáticas.
O que esta missão traz de diferente em relação às iniciativas anunciadas após as enchentes?
Os eventos climáticos extremos mostraram que não basta reconstruir a infraestrutura: é preciso fortalecer a resiliência do próprio sistema produtivo. Esta missão amplia o olhar da resposta emergencial para a prevenção - manejo do solo, gestão da água, monitoramento e uso de dados para decidir antes, durante e depois de um evento climático. A adaptação climática começa no campo, e a tecnologia pode tornar esse manejo mais preciso.
Quais projetos concretos podem surgir desta visita? Há negociações para acordos, investimentos, projetos-piloto ou intercâmbio tecnológico?
A missão pode gerar diferentes tipos de cooperação: projetos-piloto em propriedades, unidades de referência tecnológica, pesquisas conjuntas, intercâmbio de pesquisadores, capacitação e parcerias empresariais. Cada iniciativa precisa demonstrar viabilidade técnica, econômica e institucional. Por isso preferimos falar em construção de oportunidades e planos de trabalho, e não em promessas antecipadas. A delegação reúne empresas e universidades neerlandesas prontas para dialogar com o setor no Rio Grande do Sul.
Além da gestão da água, que já é um tema conhecido da cooperação entre os dois países, em quais novas áreas os Países Baixos enxergam potencial de parceria com o agro gaúcho?
Vemos grande potencial em agricultura de precisão, integração de dados, sensoriamento remoto, inteligência artificial, saúde do solo, sistemas de pós-colheita e controle biológico. O diferencial neerlandês não está apenas na tecnologia, mas na capacidade de integrar informações que hoje ainda estão dispersas e conectá-las à decisão agronômica. Agricultura de precisão não é produzir mais dados: é tomar decisões melhores.
Após as visitas a Não-Me-Toque e Passo Fundo, o que vocês esperam encontrar no Rio Grande do Sul e quais características do agro gaúcho mais chamam a atenção dos Países Baixos?
Queremos ver a agricultura de precisão funcionando no campo, e não apenas em apresentações. O Rio Grande do Sul chama a atenção pela combinação de produtores altamente tecnificados, uma indústria de máquinas agrícolas forte, universidades, centros de pesquisa e um cooperativismo estruturado. O Estado não é apenas um mercado para tecnologia: é um território de conhecimento e inovação. E essa cooperação é de mão dupla - também queremos aprender muito com o Sul do Brasil.
Os Países Baixos conseguem ser um dos maiores exportadores de alimentos do mundo mesmo com um território reduzido. Quais práticas ou tecnologias desse modelo poderiam ser aplicadas no Rio Grande do Sul?
Com um território cerca de cinco vezes menor que o Rio Grande do Sul, os Países Baixos figuram entre os maiores exportadores agroalimentares do mundo. Esse resultado não vem de uma única tecnologia, mas de um modelo: pesquisa aplicada, digitalização e colaboração próxima entre empresas, universidades, produtores e governo. É a chamada abordagem de diamante neerlandês, que acelera a inovação e transforma conhecimento em solução prática. O que pode inspirar o Rio Grande do Sul é justamente essa articulação - aplicar insumos com precisão, usar dados para decidir e conectar toda a cadeia, do solo ao mercado. Mais do que produzir em maior quantidade, trata-se de produzir com mais eficiência e menos pressão sobre solo, água e ecossistemas.
