Com matriz em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, e 20,3 mil associados, a Cooperativa Piá deve anunciar, em duas semanas, um conjunto de medidas para recompor o equilíbrio financeiro da organização, que passa por um processo de reestruturação. Com foco no fomento à produção leiteira e na oferta de produtos lácteos de maior valor agregado, o plano contempla mudanças na estratégia de vendas, ações de organização do quadro social, reforma em seu estatuto e busca de novas parcerias comerciais, o que poderá incluir a industrialização de itens para marcas de terceiros, adianta o presidente da Piá, Jeferson Smaniotto.
O executivo admite que o grupo enfrenta dificuldades financeiras, mas nega que a cooperativa esteja sendo vendida ou corra risco de fechamento. “A Piá tem uma tradição, tem 50 anos de história, nós não vamos jogar a história da cooperativa no lixo”, enfatiza. Em 2022, a organização obteve um faturamento de R$ 605,1 milhões e encerrou o período com um prejuízo de R$ 62,6 milhões. Apesar disso, destaca que conseguiu reduzir o grau de endividamento em relação à receita de 20,7% em 2019 para 12,7% no ano passado.
Segundo Smaniotto, esse quadro não compromete a operação da cooperativa. Das dívidas com bancos, decorrentes de investimentos em modernização de unidades, R$ 30 milhões já foram pagos e R$ 45 milhões serão quitados até 2035. “Vamos pagar em torno de 1% do faturamento por ano de dívida. Estamos cumprindo rigorosamente o pagamento dos nossos produtores (de leite) e funcionários”, afirma o executivo. Ele não descarta, porém, uma eventual aliança com outras organizações, a exemplo do caminho trilhado por algumas cooperativas agropecuárias gaúchas nos últimos anos. “A gente nunca descarta nenhuma possibilidade ou oportunidade que seja para fortalecer o setor de cooperativas, mas não tem negociado ou conversado com nenhuma do setor lácteo”, diz.
Além de plantas de processamento de leite e frutas, a Piá mantém supermercados, lojas agropecuárias, fábricas de rações, centros de distribuição e postos de resfriamento no Estado. A filial da AgroPiá em Taquara, no Vale do Paranhana, não será fechada, e sim transferida para outro endereço, afirma o presidente da cooperativa. A mudança visa reduzir custos com aluguel, mas a data e novo local ainda não foram definidos. “Como a Piá também está fazendo uma estruturação do mix de produtos, o espaço físico deverá ser adequado à nova estrutura de atendimento, comercialização e fomento aos produtores. Mas não fechou nenhuma unidade e não vai”, explica Smaniotto.
A falta de mercadorias em um supermercado da rede em Nova Petrópolis é atribuída pelo executivo a problemas no fluxo de caixa – como a cooperativa vem priorizando o pagamento dos produtores de leite parceiros na primeira quinzena do mês, faltou capital de giro para garantir o estoque de alguns produtos. O problema, segundo Smaniotto, foi mais sentido em fevereiro, que, em razão do Carnaval, teve apenas 14 dias úteis, e ocorreu em todos os supermercados da rede. “A gente abasteceu com insumos básicos a parte fabril, está produzindo para gerar receita e, na próxima semana, começamos a (implementar) uma nova visão da cooperativa nos nossos supermercados”, diz.
Pandemia e estiagens
Os problemas financeiros da Cooperativa Piá se agravaram após a pandemia de Covid-19, que provocou mudanças nos hábitos de compra e levou os consumidores a priorizar produtos lácteos básicos, deixando em segundo plano itens industrializados de maior valor agregado e mais rentáveis, explica Smaniotto.
Os balanços da cooperativa também repercutiram o impacto das estiagens ocorridas nos Rio Grande do Sul nos últimos três anos. As secas reduziram drasticamente as safras de milho, principal insumo usado nas rações animais, e fizeram o preço do cereal disparar. Hoje, segundo Smaniotto, a Piá capta, em média, 280 mil litros de leite por dia (até 8 milhões de litros por mês) de 1,3 mil pecuaristas – no caso das frutas para a produção de doces e iogurtes, os volumes são adquiridos de cerca de 300 fornecedores.
Além do alto custo de produção, as operações industriais da Piá sofreram com a instabilidade no mercado de laticínios. “A cooperativa trabalha com um grande volume de leite UHT. No ano passado, o (preço do litro) chegou a quase R$ 10 no supermercado. No final do ano, estava em menos de R$ 3. É uma variação muito rápida, em curto espaço de tempo, e isso contribuiu para que as indústrias do setor tivessem um fraco desempenho no exercício”, diz Smaniotto.
