Anunciado oficialmente nesta terça-feira (30), o Plano Safra 2026/2027 da agropecuária empresarial decepcionou o agronegócio. A avaliação de analistas ligados ao setor é que, embora o governo federal tenha divulgado um volume recorde de recursos e algum alívio nos juros máximos de várias linhas de financiamento, esses avanços são insuficientes para impulsionar a tomada de crédito no segmento, que ficou sem seguro rural e ainda aguarda definição de medidas para renegociar dívidas pendentes de safras passadas.
Em vigor a partir desta quarta-feira (1), o novo plano prevê R$ 525,1 bilhões em financiamentos para médios e grandes produtores, 1,7% a mais do que a oferta de crédito na temporada 2025/2026. Principal pleito do setor produtivo, a redução de juros superou a queda da Selic acumulada nos últimos 12 meses, que recuou de 15% para 14,25% ao ano. Outra mudança refere-se aos juros do custeio empresarial, que caíram de 14% para 12,5% ao ano.
O economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Antonio da Luz, afirma, que, na prática, o Plano Safra ficou menor, se forem considerados apenas os recursos de fontes originais de crédito. Isso porque, segundo o economista, a cifra anunciada foi inflada por recursos de Cédulas de Produto Rural (CPRs), que, desde o Plano Safra 2024/2025, passaram a ser contabilizados no cálculo do programa agrícola. O novo plano inclui R$ 194 bilhões relativos a esses títulos.
“O governo ‘inovou’: nos últimos dois anos, tem anunciado o valor de CPR, que sequer é uma operação de crédito”, diz Da Luz.
Outro ponto negativo destacado pelo economista foi a ausência, no anúncio, de recursos para seguro rural no ciclo 2026/2027. Além disso, o setor pressiona pela aprovação do projeto de lei 5122/23, que autoriza o uso do Fundo Social do Pré-Sal para financiar a renegociação de dívidas de produtores afetados por problemas climáticos. A proposta foi aprovada no Senado, mas sofreu mudanças e voltou à Câmara dos Deputados para nova análise. “Quem tem seguro rural não precisa discutir renegociação. Sem resolver o problema do endividamento, não adianta anunciar o Plano Safra. Não é à toa que os produtores estão tomando cada vez menos recursos”, avalia Da Luz.
Para o economista, a redução de juros não terá o efeito esperado, pois, dos R$ 525,1 bilhões prometidos ao agro, apenas R$ 97 bilhões correspondem a recursos equalizados (contam com subvenção do Tesouro Nacional para reduzir os juros do crédito rural), ante R$ 114 bilhões disponibilizados no plano anterior.
“O que o governo efetivamente equaliza no ano passado era 22%, agora caiu para 18,5%. É justamente porque caiu o juro que diminuiu o montante subvencionado. Então é um jogo de soma zero, você termina não tendo benefício”, explica.
Na avaliação do consultor Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, o plano anunciado não promove expansão significativa do crédito rural, mas “uma reorganização da política de financiamento diante das restrições fiscais enfrentadas pelo governo federal”. Segundo Cogo, o aumento de 1,7% na oferta de recursos não tem fôlego para acompanhar um cenário de inflação acumulada, valorização de insumos agrícolas, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário e maior demanda por capital de giro. “Em termos reais, a capacidade de financiamento praticamente permaneceu estagnada”, destacou o economista em relatório para clientes.
Para o consultor, a redução de juros é positiva, mas insuficiente para alterar o custo do crédito rural para investimentos.
“A expectativa criada (…) era de um retorno ao crédito predominantemente financiado com juros de um dígito. A maior parte das linhas estratégicas continua operando acima de 10% ao ano, especialmente aquelas voltadas à mecanização, irrigação, inovação tecnológica e fortalecimento das cooperativas”, observou.
Os detalhes
Divisão dos recursos
- O novo Plano Safra entrará em vigor nesta quarta-feira (1) e valerá até 30 de junho de 2027.
- Dos R$ 525,1 bilhões anunciados, R$ 384,9 bilhões serão destinados a operações de custeio e comercialização. O valor é 7,2% inferior ao da temporada passada. Para as linhas de investimento, serão destinados R$ 140,2 bilhões, um aumento de 38% frente ao ciclo anterior.
- Quanto aos beneficiários dos recursos, o montante foi dividido da seguinte forma: R$ 72,6 bilhões para o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 452,5 bilhões para os demais produtores e cooperativas. O valor destinado ao Pronamp é 5% superior ao do Plano Safra passado.
Linhas e juros
- O governo cortou as taxas de juros em quase todas as linhas de crédito da agricultura empresarial. No caso do custeio e investimento, os percentuais ficaram entre 8% e 12,5% ao ano. No Plano Safra anterior, os juros oscilavam de 8,5% a 14%.
- O juro dos financiamentos do Pronamp será de 9% ao ano, um ponto percentual abaixo da temporada 2025/2026.
- Nas linhas do Programa de Financiamento a Sistemas de Produção Agropecuária Sustentáveis (RenovAgro) e do Programa de Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) para instalações com capacidade de até 6 mil toneladas, as taxas recuaram de 10% para 9,5% ao ano. No PCA para grandes unidades, de até 12 mil toneladas, o juro caiu de 8,5% para 8% ao ano.
- Para o RenovAgro Ambiental e o RenovAgro destinado a recuperação e conversão de áreas degradadas, os juros foram mantidos em 8,5% ao ano.
- O Moderfrota, programa para aquisição de máquinas e implementos agrícolas, terá taxas menores que as do plano passado: 12,5% ao ano para grandes produtores e 11,5% ao ano para os médios. Na temporada anterior, esses juros eram de 13,5% e 12,5%, respectivamente.
- Plano Safra 2026/27 destina R$ 525 bilhões à agricultura empresarial
- Entrada em vigor da portaria do morango fica para fevereiro de 2027
- Produtor gaúcho tem prazo estendido até 10 de julho para a Declaração Anual de Rebanho
