Rural

Relação de troca é a pior dos últimos cinco anos

Relatório Radar Agro, da consultoria Agro Itaú BBA, aponta cenário difícil para a próxima safra de verão devido a aumento de preços de fertilizantes

Fertilizante é o insumo que mais pesa no custo de produção de grãos como a soja
Fertilizante é o insumo que mais pesa no custo de produção de grãos como a soja Foto : Emater/RS-Ascar / Divulgação / CP

Ainda sem perspectiva de fim, a guerra no Irã causou o bloqueio do Estreito de Ormuz e levou à escalada dos preços dos fertilizantes, com repasses quase imediatos ao mercado brasileiro sem que a valorização das commodities agrícolas acompanhe esses aumentos. Em razão do conflito, a relação de troca – volume de grãos necessário para a compra de uma tonelada de adubo – para todos os cultivos gaúchos é desfavorável aos agricultores, aproximando-se ou até superando os piores níveis registrados nos últimos cinco anos. É o que mostra o último relatório Radar Agro, da consultoria Agro Itaú BBA.

De acordo com o estudo, realizado no final de março, a ureia (adubo nitrogenado) foi o fertilizante que apresentou a maior alta desde o início do conflito, alcançando US$ 710 CFR (Custo e Frete) Brasil por tonelada, um avanço de 50% em 30 dias. Já o fertilizante fosfatado (MAP) subiu 17% no mesmo período, para US$ 850 CFR Brasil por tonelada. O relatório explica que os preços são influenciados pelo aumento do enxofre e do ácido sulfúrico, matérias-primas desse insumo produzidas no Oriente Médio, mas também refletem restrições na exportação de fertilizantes por parte da China. “Pelo menos até agosto os chineses não vão exportar, para garantir o fornecimento aos (seus) agricultores”, diz o analista Francisco Queiroz, do Agro Itaú BBA.

No caso da soja, ao adquirir uma tonelada de MAP há um ano, o produtor precisava do equivalente a 29 sacas de 60 quilos da oleaginosa e, agora, são necessárias 34 sacas, mais do que a média dos últimos cinco anos, de 25 sacas, exemplifica Queiroz. Na lavoura de milho, o relatório do Agro Itaú BBA aponta que a relação de troca passou de 42 para 65 sacas (60 kg) do cereal por tonelada do mesmo insumo. “A média para esta época é de mais ou menos 45 sacas de milho para uma tonelada de MAP”, compara Queiroz. E, na compra da tonelada de ureia, o agricultor que em 2025 desembolsava 23 sacas de milho hoje gasta 55 sacas – uma elevação acima da média histórica para essa cultura, de 29 sacas.

Para o trigo, na compra de uma tonelada de adubo fosfatado há um ano, o produtor investia 2,5 toneladas do cultivo de inverno, patamar próximo da média histórica. Hoje, essa quantidade chega a 3,7 toneladas de trigo. Com relação à ureia, a relação de troca, que em 2025 estava em torno da média histórica, de 1,4 tonelada de cereal para uma de adubo, passou para três toneladas de cereal.

O fertilizante é o insumo que mais pesa no custo da lavoura. Com a disparada de preços, o Radar Agro indica impactos no plantio da próxima safra de verão. Segundo Queiroz, antes da guerra no Irã, as aquisições de fertilizantes para o ciclo 2026/2027 vinham ocorrendo em ritmo lento, mas a alta praticamente paralisou os negócios. “A liquidez desse mercado se reduziu muito. Hoje, pensando em Brasil, cerca de 40% do fertilizante já (foi) comprado. No Rio Grande do Sul, esse número está mais próximo de 20%”, afirma o analista.

Região de conflito é crucial para abastecimento

O consultor Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, observa que o Oriente Médio é um dos principais polos globais de produção de insumos, respondendo por 44% das exportações globais de ureia, 27% das de amônia, 47% das de enxofre, 25% das de fertilizantes fosfatados e 36% das de rocha fosfática. “Qualquer interrupção logística ou produtiva na região tem potencial de gerar efeitos imediatos no mercado internacional. Estamos falando de uma parcela relevante dos insumos que sustentam a produtividade agrícola mundial”, destaca o analista em nota.

Segundo Cogo, a experiência recente da guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou como choques geopolíticos podem multiplicar os preços dos adubos em poucos meses. “Naquele episódio, produtos que custavam US$ 500-600 por tonelada chegaram a superar US$ 1.200 por tonelada”, lembra. Para o Brasil, ressalta Cogo, o Brasil, o risco é ainda maior, uma vez que o país importa cerca de 90% nos fertilizantes que consome. No ano passado, as importações brasileiras desses insumos atingiram 45,5 milhões de toneladas, superando as 44,28 milhões de toneladas do ano anterior, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

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