A mudança não altera a paisagem de forma abrupta. Ela aparece nos detalhes: menos poeira levantada pelo vento, mais resíduos vegetais protegendo o solo, infiltração mais lenta da água após chuvas rápidas, raízes mais profundas, maior atividade biológica.
No campo, a agricultura regenerativa não é tratada como promessa. É vista como ferramenta e uma tentativa de reduzir perdas, ampliar previsibilidade e manter a atividade produtiva em um cenário de incerteza. A estiagem segue fazendo parte do calendário agrícola. O clima não se estabilizou e nem irá. Mas, em muitas lavouras do Rio Grande do Sul, a resposta começou a nascer debaixo da superfície da terra, onde o solo, tratado como ativo estratégico, sustenta o que a chuva já não garante.
Memória climática
O solo guarda memória. Memória de chuva, de raízes antigas, de matéria orgânica incorporada lentamente. Em períodos secos, essa memória se manifesta como resistência. Solos escuros, estruturados, reagem de forma diferente ao mesmo sol que castiga áreas expostas. Paula Hofmeister observa que o impacto da estiagem nunca é homogêneo. “Quando se compara áreas lado a lado, a diferença é visível. Onde o solo foi cuidado, a lavoura resiste mais”, afirma. A agricultura regenerativa não elimina o risco climático, mas amplia a capacidade de resposta. Essa capacidade passou a ser estratégica em um cenário de instabilidade climática crescente. O manejo do solo deixou de ser apenas uma escolha técnica e passou a integrar a gestão do risco agrícola.
Experiências como a do produtor Mateus Germano Pezzi revelam que a regeneração não é um modelo único, mas um caminho adaptado à realidade de cada propriedade. “Não existe receita pronta”, afirma Hofmeister. “O que existe é a compreensão de que o solo precisa ser tratado como patrimônio. Quem entendeu isso, hoje sofre menos quando a chuva falha”, ela concluí.
Práticas no Estado
Não há um censo específico sobre agricultura regenerativa no Rio Grande do Sul. O que existem são estimativas técnicas baseadas na adoção de práticas-chave, como plantio direto, cobertura permanente do solo e rotação de culturas. Segundo levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o sistema de plantio direto já é adotado em cerca de 60% a 70% da área de lavouras de grãos no Brasil, percentual que serve como referência para dimensionar a ampla difusão dessas práticas também no Sul do país, onde o modelo é historicamente consolidado. Técnicos que acompanham o campo, no entanto, avaliam que apenas uma parcela dessas áreas reúne todos os critérios necessários para garantir maior resiliência hídrica, como diversidade de culturas, correção adequada do perfil do solo e manejo contínuo da matéria orgânica, o que explica por que os ganhos mais consistentes aparecem apenas onde o manejo é aplicado de forma completa e contínua.
Ainda assim, muitos produtores já incorporaram ao menos parte dessas práticas, especialmente cobertura do solo no inverno, rotação de culturas e redução do revolvimento. Em muitos casos, a adoção é gradual, ajustada à capacidade financeira e ao aprendizado acumulado ao longo das safras. O extensionista Mateus Farias de Mello observa que a adesão aumentou após as últimas estiagens. “A seca acelera decisões. O produtor começa a olhar para o solo não só como suporte, mas como ferramenta de proteção”, afirma.
*sob a supervisão de Karina Reif e Leandro Mariani Mittmann