“Só sobrou pasto podre”, diz pecuarista que teve campo nativo submerso por mais de 30 dias

“Só sobrou pasto podre”, diz pecuarista que teve campo nativo submerso por mais de 30 dias

Após a tragédia climática, Estância da Gruta multiplica esforços para nutrir os touros Montana que vão a leilão e as vacas que estão em parição

Thaise Teixeira

Antônio Di Camelli conseguiu implantar 45% da pastagem necessária para o inverno

publicidade

Diferente das criações da Fronteira Oeste, onde a chuva judiou um pouco menos do solo, as localizadas no Extremo Sul do Estado veem-se em apuros. Além de receber maior volume de água, o relevo conta com bastante áreas de várzea, sem falar das elevadas perdas estruturais, produtivas e humanas.

Praticamente todas as propriedades rurais da região foram parcial ou totalmente atingidas pela calamidade. Entre elas está a Estância da Gruta, de Capão do Leão. Com mais de 150 anos de história, a agropecuária é referência na produção de grãos e de genética Montana, além de cavalos Crioulos e pôneis.

Segundo o proprietário da Gruta, Antônio Quinto Di Cameli, o excesso de chuvas impactou todo o negócio.

“Nós, que somos considerados como modelo na região, estamos com 45% da área de pastagem a ponto de entrada de gado”, relata o criador.

O percentual decorre dos solos encharcados e saturados, onde sementes de azevém, trevo e cornichão não se desenvolvem.

“Normalmente, nós temos quase 1 mil hectares de superfície pastoril de primeiro, segundo e terceiro ano. Agora, não chegamos a 500 ha”, detalha Di Camelli.

O pecuarista também não pode contar com mil hectares de campo nativo que ficaram submersos por mais de 30 dias.

“Essa área já ficava alagada por três ou quatro dias quando chovia acima da média, mas, agora, só sobrou pasto podre”, lamenta.

Estratégia de guerra

O pasto mais novo da Gruta data de março. O restante foi cultivado de acordo com as tréguas do clima. Para potencializar e acelerar o crescimento das plantas, a estância faz manejo extra com ureia e drena a água acumulada no solo saturado.

“Essa época é muito crítica para nós, porque todo o planejamento forrageiro de inverno é para receber a parição, que já começou”, diz Di Camelli.

Para manter o sistema produtivo em funcionamento, a propriedade adquire comida pré-secada.

“A gente teve que apelar para caminhões de feno pré-secado de milho, silagem, bags embalados, palha de arroz, palha de azevém”, explica o criador.

A estratégia, inédita até então para a propriedade, conta ainda com suplementação de sal mineral.

Para superar os desafios, o negócio precisou comercializar mais animais do que pretendia. “Acabamos fazendo venda de gado e reduzindo estoque para justamente ter mais área verde, superfície pastoril aproveitável”, conta o produtor.

No comboio, foram as vacas que ainda não estavam prontas nem em ponto de abate e até mesmo ovinos, categoria não comercializada pela propriedade.

“Qualquer quantidade de cabeças que conseguimos aliviar é bom”, compartilha o criador.

Gado de cria no topo das prioridades

A prioridade, agora, é alimentar o gado de cria. A estimativa é que 750 vacas Montana sigam parindo durante julho e agosto. No radar, também está a estação de monta, quando as matrizes precisam estar adequadamente nutridas para emprenhar.

Os olhos também se voltam para o leilão dos reprodutores Montana, que ocorre dia 8 de outubro. A oferta deve oscilar entre 25 e 30 exemplares, que entram na pista da Expofeira de Pelotas.

“Num ano como esse, (o leilão) vai ser muito desafiador. Criamos a pasto e fornecemos muito pouca ração. Mas, este ano, os touros vão necessitar de comida, de suplementação”, analisa Di Camelli.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895