Rural

Safras mais desafiadoras diante de El Niño, custos elevados e pressão sobre preços

As avaliações constam no Visão Agro, relatório divulgado pela Consultoria Agro do banco Itaú BBA

As margens pouco atrativas devem limitar investimentos e reduzir a área cultivada do trigo, cenário que pode ser agravado pelos efeitos do El Niño
As margens pouco atrativas devem limitar investimentos e reduzir a área cultivada do trigo, cenário que pode ser agravado pelos efeitos do El Niño Foto : Wenderson Araujo / CNA / Divulgação / CP

Esta safra de inverno e a próxima de verão serão marcadas por um ambiente mais desafiador para os produtores, visto a combinação de riscos climáticos, custos elevados de produção, preços pressionados das commodities e incertezas no cenário internacional.

É a síntese da 7ª edição do Visão Agro, relatório anual elaborado pela Consultoria Agro, do Itaú BBA, que reúne as perspectivas para o agronegócio brasileiro no ciclo 2026/27.

Segundo o relatório, após quatro anos de margens comprimidas e oferta abundante de produtos agrícolas, o setor inicia um novo ciclo sob a influência de um forte fenômeno El Niño, que pode afetar a produtividade de forma diferente entre as regiões do país.

O estudo também destaca que o ambiente geopolítico continua sendo um fator de preocupação, especialmente pela dependência brasileira de fertilizantes importados.

“A volatilidade dos nitrogenados e os preços elevados dos fosfatados, aliados à fragilidade financeira de parte dos produtores, devem reduzir os investimentos em tecnologia na próxima safra, tornando o uso eficiente dos insumos e a qualidade da assistência agronômica fatores decisivos para a rentabilidade”, esclarece.

E as commodities agrícolas iniciam o ciclo 2026/27 com preços pressionados.

“Uma recuperação mais consistente dependerá de ajustes na oferta global. Caso as condições climáticas favoreçam o desenvolvimento das safras, a expectativa é de manutenção desse cenário de preços mais baixos”, informa.

Soja e milho

No mercado de grãos, o relatório aponta cenários distintos para soja e milho. Na soja, o mercado mundial inicia o ciclo 2026/27 com estoques mais ajustados, após a produção praticamente igualar o consumo na safra 2025/26, tornando os preços mais sensíveis a eventuais perdas de produtividade provocadas pelo clima.

Já no milho, a boa safrinha de 2025/26 garante um balanço doméstico confortável para o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

“Apesar disso, a demanda segue aquecida, impulsionada principalmente pelos setores de proteínas animais e de etanol, enquanto os riscos climáticos associados ao El Niño permanecem no radar”, ressalta.

Desafiador: arroz e trigo

O cenário permanece “desafiador”, para arroz e trigo, define a consultoria. “No arroz, o excesso de oferta ainda pressiona as cotações, tornando necessária uma nova redução da área plantada para permitir a recuperação dos preços.

No trigo, margens pouco atrativas devem limitar investimentos e reduzir a área cultivada, cenário que pode ser agravado pelos efeitos do El Niño”, descreve.

Proteínas animais

Já no segmento de proteínas animais, o custo da ração segue “relativamente favorável”, afirma o trabalho.

“No entanto, aves e suínos enfrentam pressão sobre os preços das carnes devido ao aumento da oferta, com destaque para a piora das margens na suinocultura. Para o boi gordo, o segundo semestre inspira cautela diante da expectativa de redução das exportações para a China, embora o banco projete uma recuperação gradual do mercado no início de 2027, acompanhando a transição do ciclo pecuário.”

“Diante desse pano de fundo, a preservação da liquidez e a disciplina na tomada de decisão passam a exercer um papel central. Assim, mais do que buscar ganhos de produtividade, torna-se fundamental proteger margens, equilibrar o fluxo de caixa e garantir flexibilidade financeira para atravessar períodos de maior estresse”, resume Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA.

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