O calor escaldante do verão gaúcho impõe, ano após ano, um desafio à produção de leite no Estado. Com temperaturas acima dos 40ºC, registradas nos últimos dias pela Metsul em algumas regiões, as vacas leiteiras sofrem com o estresse térmico, o que compromete o bem-estar animal e impacta diretamente a produtividade de um setor que responde por cerca de 4 bilhões de litros de leite ao ano e um rebanho de 944,2 mil unidades no Rio Grande do Sul. A zona de conforto térmico das vacas leiteiras varia, em geral, entre 5ºC e 25ºC, faixa em que há maior produção sem gasto extra de energia, segundo a médica-veterinária e fiscal estadual agropecuária Raquel Cannavô. Fora dessas condições, o animal passa a acionar mecanismos para manter o equilíbrio fisiológico, reduzindo o volume de lactação.
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No RS, o problema é mais acentuado, porque predomina a criação de raças de origem europeia, como Holandesa e Jersey, que representam, conforme a Emater/RS-Ascar, 96,3% do material genético nas propriedades. “As condições mais adequadas para os bovinos de origem europeia correspondem à temperatura média mensal inferior a 20ºC em todos os meses e umidade relativa do ar variando entre 50% e 80%. A temperatura crítica, que vai afetar a produção, está entre 24ºC e 26ºC para a raça Holandesa e entre 27ºC e 29ºC para a Jersey”, explica. A partir desta faixa, pode ocorrer o chamado estresse térmico, quando o calor gerado pelo organismo, somado ao calor absorvido do ambiente, é maior que a capacidade de dissipá-lo.
“Animais nesta condição vão apresentar aumento da frequência respiratória, aumento da temperatura corporal (hipertermia), redução na ingestão de alimentos e aumento da ingestão de água, assim como menor eficiência de utilização dos nutrientes”, descreve a veterinária.
Uma das consequências é a possível redução na produção do leite, em torno de 15% a 20%, e alteração na qualidade, incluindo a diminuição na porcentagem de gordura.
O assistente técnico estadual da Bovinocultura Leiteira da Emater Jaime Ries afirma que a situação fica ainda mais grave quando a umidade relativa do ar estiver alta. “Obriga o produtor a ter mais cuidado ainda em relação ao gado.” Para minimizar os efeitos, o manejo adequado é decisivo.
Manejo
Ries assegura que a primeira medida a ser oferecida aos animais é “sombra e água fresca”. O sombreamento pode ser a partir da copa das árvores ou até artificial.
“O animal pode ficar sob telhados, com boa disponibilidade de água para regular a temperatura interna. Quando possível, evitar movimentar os animais nos períodos mais quentes do dia”, ensina.
Adequar o pastejo e evitar os horários muito quentes, preferindo as primeiras horas da manhã ou o fim da tarde são outras medidas que ajudam. “Tem produtores que preferem soltar o gado de noite na pastagem, quando não tem outro problema, como segurança. Os animais conseguem pastar mais.”
Quando o sistema for confinado, um ventilador pode ajudar muito. “A ventilação (natural ou forçada) dentro de um abrigo também é importante em temperaturas elevadas e alta umidade, pois vai promover a remoção da umidade e do excesso de calor e a combinação de ventiladores e aspersores, os quais se borrifa água nos animais e subsequentemente se joga vento, causando resfriamento evaporativo e queda na temperatura corporal”, destaca Raquel Cannavô.
Em razão da redução do consumo de alimento pelas vacas neste período, ela observa que se faz necessário oferecer uma dieta com maior densidade de nutrientes para evitar a queda na produção, além de ajuste nos horários de trato, fornecendo a maior parte do alimento nos períodos mais frescos do dia para incentivar o consumo de matéria seca.
Efeitos
Os efeitos, segundo o secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat), Darlan Palharini, dependem muito de propriedade para propriedade. “As propriedades maiores são as que terão maior impacto”, diz, lembrando que a maioria delas trabalha no sistema Compost Barn, que é a produção de leite com o gado confinado e que normalmente usa ventilação mecânica para reduzir a temperatura do ambiente.
Os técnicos da Emater já observaram a adoção dessas estratégias em diversas regiões do Estado neste ano. Mesmo assim, já houve registros de redução na produção em situações de estresse térmico mais intenso.
Sistemas silvipastoris estão entre indicados
Dentre as estratégias que podem ser adotadas para minimizar os efeitos das ondas de calor nas vacas leiteiras, estão os sistemas silvipastoris, que integram árvores, pastagem e gado na mesma área. Pesquisas da Embrapa indicaram que o método garante mais conforto térmico aos animais e uma série de benefícios. “Um conjunto de resultados de pesquisa e de evidências demonstram que os sistemas silvipastoris são extremamente positivos do ponto de vista de produtividade do bovino criado a pasto, do ponto de vista de efeito de poupar água, de elevação do bem-estar animal e também impacta positivamente na fertilidade dos animais”, resume o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste Alexandre Rossetto Garcia.
Ele destaca que esse assunto tem tomado mais importância devido à frequência das ondas de calor. “A questão é que essas ondas estão se tornando mais frequentes e cada vez mais intensas no Brasil e isso é um efeito cientificamente constatado”, afirma, observando que isso irá demandar muito mais atenção nesse setor, que conta com um rebanho dedicado à produção leiteira por volta de 37 milhões de animais no país, sendo 15 milhões de vacas ordenháveis, a maior parte criada em sistema a pasto. “Torna o Brasil um dos países detentores e dos maiores rebanhos leiteiros do mundo.”
As pesquisas da Embrapa mostram que a presença das árvores em uma densidade de aproximadamente 300 unidades por hectare foi suficiente para reduzir significativamente a temperatura de superfície das pastagens.
“O mais interessante foi que, da mesma forma como acontece nas cidades, a formação das ilhas de calor, de áreas de retenção de calor extremo, também acontece nas áreas de pastagem”, salienta Garcia. Além disso, o sombreamento natural reduziu em 26% a busca por bebedouro pelos animais.
“Traz a elevação do bem-estar, porque, a depender da configuração e da densidade arbórea, têm uma redução de temperatura do ar, que pode variar de 08ºC e 09ºC até 1,5ºC.”
Fertilidade
Outro fator influenciado pelo estresse térmico é a fertilidade. “O parênquima testicular dos touros produzidos à sombra é menos afetado ao longo do tempo pelo calor e, portanto, tem funcionamento melhor.” Já as vacas mantidas em áreas arborizadas produzem embriões com expressão gênica de maior crescimento. “Então, a gente pode deduzir que tem um efeito direto da ambiência e do bem-estar animal também sobre os embriões produzidos”, salienta o pesquisador.
O uso das modalidades que integram de forma planejada a pastagem e as árvores conferem, além de sombreamento, aumento da fixação de carbono por conta da produção de gramíneas ou mesmo de leguminosas, quando são associadas. Outro ponto vantajoso é o incremento da biodiversidade.
Genética
A Embrapa também recomenda o melhoramento genético. “A gente identifica os animais mais resistentes a altas temperaturas. Em geral, os animais de raças zebuínas, como Gir, por exemplo, ou Girolando. Eles são mais resistentes e mais tolerantes ao calor. Mas também é importante trabalharmos com adaptação de animais dentro das raças”, diz o pesquisador.
Por isso, segundo Garcia, é fundamental identificar os animais mais termotolerantes e os fenotipar para que eles sejam multiplicados dentro dos programas de melhoramento genético, com aplicação na resistência ao calor, por exemplo.
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