Terceira catástrofe em menos de um ano impulsiona êxodo na pecuária leiteira

Terceira catástrofe em menos de um ano impulsiona êxodo na pecuária leiteira

Destruição na Serra e nos Vales do Taquari e do Rio Pardo motiva desistência de quem tentava permanecer na atividade mesmo frente aos baixos preços do leite

Thaise Teixeira

Alimentação das vacas ficou mais cara após a catástrofe

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Embora se concentre na região Noroeste do Estado, a produção de leite é, de alguma forma, fonte de renda em praticamente todos os municípios gaúchos, principalmente para agricultores familiares. Porém, para muitos deles, a capacidade de resiliência à terceira extremidade climática ocorrida em menos de um ano acabou. E se, na Expointer de 2023, a Emater/RS-Ascar apontou que o número de produtores de leite no RS havia reduzido 60,78% em uma década, há grande possibilidade de o percentual aumentar.

“Recebi ligações de gente que desistiu, que estava lutando para seguir na atividade mesmo com o preço não cobrindo os custos. Gente que, com tantas perdas, vai mesmo abandonar”, lamenta o presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang.

Os relatos provêm de parte dos 40% dos produtores de leite gaúchos que, segundo Tang, foram afetados pela tragédia e que acumulam perdas de familiares, estruturas produtivas, animais e moradia devido a ciclones e enchentes desde julho de 2023.

“Alguns perderam tudo, muitos da Serra, mas, principalmente nos Vales. Outros, foram parcialmente atingidos e tiveram 20%, 30% ou 50% da capacidade produtiva comprometida com essa catástrofe”, diz Tang.

A preocupação é motivada também pela destruição em cadeia provocada pelo avanço monstruoso dos rios sobre instalações, estradas e estruturas produtivas. Pesam ainda as enormes perdas de animais, de qualidade do solo, de pastagens, de insumos, de moradias e, também, de familiares.

“Hoje, as famílias estão divididas. Parte dos integrantes quer parar de produzir leite, outra parte quer seguir. Mais de 90% dos sócios da Gadolando trabalham em até 30 hectares. Não temos lavoura, temos roça”, argumenta Tang.

Segundo informativo conjuntural da Emater/RS-Ascar divulgado na semana seguinte ao início da tragédia climática, as perdas por afogamento, na atividade leiteira, concentravam-se no Vale dos Sinos, no Vale do Caí e na região Centro-Sul do Estado. “A coleta de leite está sendo comprometida em várias localidades. Estima-se que mais de 50% da produção não está sendo escoada”, divulgou a agência de extensão rural.

Segundo o secretário executivo do Sindilat, Darlan Palharini, o sistema de coleta de leite foi bastante afetado pelos estragos nas vias de escoamento. O problema chega não só às unidades localizadas nas áreas devastadas pela chuva, mas nas que dependem de insumos de outros estados e nas que precisam distribuir lácteos ao varejo, especialmente aos centros metropolitanos.

“A preocupação concentra-se, agora, em chegar com os produtos acabados nos grandes centros e no recebimento de insumos, como lenha, óleo diesel e produtos químicos usados no beneficiamento”, enumera Palharini.

Ao listar o trabalho vindouro em prol dos produtores de leite, Tang começa pelas pastagens.

“Perdemos anos de melhoramento do solo, muitas pastagens de inverno recém-plantadas, como aveia e azevém. O solo foi lavado e terá de ser calcariado, adubado, e a correção não acontece do dia para a noite”, analisa Tang.

“Precisamos de socorro, precisamos de ajuda, de crédito. Precisamos recomeçar do zero e fazer com que esses recursos anunciados cheguem, efetivamente, ao produtor”, clama o dirigente da Gadolando.


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