Saúde

Com quase 30 denúncias atendidas em 2025, Simers busca reforçar enfrentamento da violência sofrida por médicos

Para o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, cenário da categoria é considerado de crise

Presidente Marcelo Matias comentou o balanço de ações do sindicato
Presidente Marcelo Matias comentou o balanço de ações do sindicato Foto : Pedro Piegas / CP Memória

Em um cenário considerado de grande crise para a história da medicina, o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) busca, para 2026, reforçar a atuação nos principais desafios para a categoria, como a violência sofrida por médicos, os pagamentos atrasados aos profissionais e a regulação na abertura de cursos de medicina. O presidente Marcelo Matias, que assumiu neste ano o segundo mandato, para o triênio 2025-2027, declarou que os principais esforços serão voltados às melhores condições de trabalho e valores justos aos profissionais.

O sindicato criou, em julho, o Observatório da Violência, espaço digital que reúne informações sobre ataques a médicos e demais trabalhadores da área. Até novembro deste ano, 27 denúncias foram recebidas pelo sindicato de pelo menos 15 municípios diferentes. Os primeiros casos recebidos, em Santa Cruz do Sul, evidenciaram que a maioria eram relacionados a médicas jovens. Em conjunto com a Secretaria de Segurança do Estado, os casos passaram a ser atendidos como violência em saúde, podendo ser avaliados de maneira individual.

No município de Cachoeirinha, na região metropolitana, após uma denúncia recebida, as equipes identificaram mais quatro em uma mesma unidade de saúde. “Fizemos uma pesquisa com os médicos e aproximadamente 75% dos profissionais de saúde da cidade de Cachoeirinha já sofreram alguma forma de violência. Ou seja, é algo muito mais epidêmico do que nós imaginamos”, comenta Matias. O sindicato também está elaborando uma pesquisa para ser feita, a partir do ano que vem, com os médicos sócios e não sócios, com perguntas principalmente voltadas à questão de violência.

Abertura de faculdades

Na avaliação do presidente, a abertura de faculdades de medicina estão “indiscriminadas”. “Nós vimos um número muito maior de faculdades do que é capaz da rede hospitalar de fazer a formação”, diz. As faculdades abertas por ordens da Justiça, portanto, nem com garantia de que esses alunos vão se formar e na prática passaram a disputar leitos em hospitais que não são suficientes para manutenção das vagas e, portanto, “nós não vamos ter uma qualidade de formação da profissão médica para o futuro garantida, porque tem muito mais gente em faculdades frágeis do que em boas faculdades, e isso vai comprometer a profissão para o futuro”, afirma.

No Rio Grande do Sul, são atualmente 23 processos para abertura. “Temos um número dessas faculdades que são abertas apenas por ordens judiciais e, portanto, não têm nem a garantia de que permanecerão esses cursos”, diz. Para o presidente, a situação precariza a profissão de longo prazo. “Nós temos hoje mais cursos de medicina do que hospitais para que esses alunos aprendam”.

“Deveríamos fazer com que todas faculdades fossem abertas sem que se fosse por ordem judicial, e sim por chamamento público ou cumprindo as regras completas”, defende o presidente. Está em discussão em âmbito nacional o projeto de lei que cria um exame nacional de proficiência para médicos formados no Brasil (PL 2.294/2024). O texto passou por votação no Senado e está sendo analisado na Câmara dos Deputados.

Atraso nos pagamentos

Outra questão enfrentada na categoria é a crise de pagamentos aos profissionais, neste ano especialmente na região metropolitana, como em Canoas, Esteio, Sapucaia, São Leopoldo e Viamão. Segundo aponta o presidente, foi a pauta em que o sindicato teve uma das maiores frentes de atuação neste ano. “Ninguém quer trabalhar num local que tu vais trabalhar e não tenha certeza de que vai receber pelo trabalho executado. E isso certamente refletiu em desassistência à população”, comenta.

Em busca de resolver a crise, o sindicato criou neste ano o “Devedômetro”, ferramenta que monitora o atraso de salários de médicos. Desde a criação, pelo menos 20 municípios do Rio Grande do Sul registraram dívidas de pagamento entre os profissionais. Desses, pelo menos nove tiveram registro de intervenção do sindicato para garantia de pagamento.

Cada município tem uma forma de atuação diferente por parte do sindicato. No município de Torres, por exemplo, foram registrados casos de pediatras que estavam com pagamentos atrasados em 77 dias. Em conjunto com o Ministério Público, o sindicato buscou acordos com a prefeitura para que houvesse recurso. Em Viamão, outra situação, foi a própria prefeitura que fez o pagamento de valores que a empresa responsável não tinha feito.

Superlotação

Em 2025, a crise na saúde foi intensificada por conta dos prejuízos aos serviços de saúde atingidos pelas enchentes de 2023 e 2024, aumentando a superlotação. Equipes do sindicato visitaram, ao longo do ano, diversas emergências para avaliar as situações de equipamentos e estrutura.

Segundo Matias, o cenário ainda é grave em algumas cidades, especialmente naquelas cuja segurança de trabalho é pior. Para os profissionais, o descaso aumenta com a falta de segurança e aumento da violência contra profissionais de saúde. “Os hospitais acabam não funcionando, as emergências muitas vezes se tornaram pequenos hospitais com pacientes internados por muito tempo. As filas, especialmente no inverno, foram uma catástrofe, quando a gente tinha 300 ou 400% da capacidade instalada”, afirma.

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A busca pela federalização do Hospital Universitário de Canoas está entre as primeiras atuações do sindicato no próximo ano. A proposta do sindicato é de que o Grupo Hospitalar Conceição (GHC) assuma a instituição, e tem buscado apoio de diversos entes, como a Câmara de Deputados, Senado, Assembleia Legislativa, Granpal, Cosems, entre outros. “É um hospital que, se federalizado e funcionando a pleno, vai garantir saúde e condição de trabalho para 3 milhões de gaúchos”, afirma.

Internamente, foi feita no sindicato uma reorganização administrativa para, segundo o presidente, melhorar as questões financeiras e ofertas de serviços para os sócios. “Pegamos um sindicato que estava deficitário com destruição da assessoria política, com ausência de contratos corretos, especialmente na questão de comunicação e de marketing, e tivemos que fazer uma uma verdadeira revolução interna para colocar a gestão no nível que deveria”, afirma.