Uma reabertura que estava prometida para acontecer em 30 dias se estende por anos. O Hospital Parque Belém, localizado na avenida Oscar Pereira, bairro Belém Velho, zona Sul de Porto Alegre, permanece de portas fechadas e sem previsão de reabrir. É porque a Associação Hospitalar Vila Nova (AHVN), que comprou o hospital em 2023, aguarda recursos públicos para dar prosseguimento na reforma e compra de equipamentos para o prédio, e informou em nota que, até o momento, não recebeu proposta formal de investimento de nenhuma esfera – municipal, estadual ou federal – para o projeto.
A entidade adquiriu a estrutura do antigo prédio em abril daquele ano, por meio de um leilão que arrecadou R$ 17,6 milhões, com os planos de abrir um novo hospital, chamado Sinos de Belém. Na época, a entidade já afirmava buscar diferentes fontes de financiamento para colocar a instituição em pleno funcionamento novamente.
A AHVN afirmou em nota que, ainda em em 2023, apresentou ao Ministério da Saúde uma proposta de parceria para viabilizar a reabertura do hospital, que chegou a ser objeto de reunião técnica. “No entanto, em julho de 2025, por meio da Secretaria Estadual da Saúde (SES), fomos oficialmente informados de que a proposta não se enquadrava na modalidade de recurso disponível na época e, por isso, não foi aprovada”, alega a associação. Diante disso, a entidade está reformulando a proposta para reapresentar ao Fundo Nacional de Saúde, buscando a viabilidade do recurso. As parcelas do leilão ainda estão sendo pagas pela entidade, que afirma que parcelou em 60 meses e, até o momento, 40% foi quitado.
A diretora-geral da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Fernanda Fernandes, afirmou que a pasta fez em 1º de julho deste ano uma solicitação de verba para a União por meio do Estado, e o Ministério da Saúde respondeu que não havia recursos disponíveis naquele momento. “Mas disse que isso poderá ser solicitado, nos deu vários caminhos para pedir por emendas parlamentares ou custeio de convênios, mas não sinalizou com nada concreto no momento”, afirmou Fernanda. Desde então, não foi avançada nenhuma conversa nesse sentido, ela afirma. A reportagem procurou o Ministério da Saúde e aguarda posicionamento.
O projeto da Associação prevê a estruturação de até 300 leitos de internação, incluindo leitos clínicos, cirúrgicos, de saúde mental e UTI. Também estão planejados ambulatório de especialidades, diagnóstico por imagem, centro cirúrgico ativo e possibilidade de implantação de serviços em nefrologia, ortopedia e saúde mental, conforme pactuação com o gestor público.
Estrutura é antiga e com necessidade de ampla restauração, afirma SMS
A diretora-geral da SMS defende que o prédio precisa passar pelo processo de retrofit, que visa a restaurar prédios antigos para preservar a arquitetura original, mas também revitalizar para adaptá-los a novas necessidades e tecnologias. “É uma reforma estrutural bastante ampla, um custo bem elevado. O município não tem recurso para investir nisso, até porque é um prédio particular, não do município. Nessa captação de recursos, o município tem dado apoio, mas tem que ser promovida e buscada pelo comprador”, diz.
Em 2023, a prefeitura de Porto Alegre apresentou um relatório técnico e de engenharia do Hospital à Associação Hospitalar Vila Nova. O documento apontou a necessidade de resolução de questões estruturais, como predial, elétrica, hidráulica, gases medicinais e climatização. À época, foi estimado que as necessidades apontadas exigiriam um investimento de R$ 82 milhões para uma reforma na estrutura do prédio.
Também, de acordo com o tipo de prestação de assistência à saúde, que os ambientes deveriam ser mobiliados e equipados adequadamente. No documento, também foi relatado que as instalações hidráulicas não têm condições de abastecimento do serviço de saúde no momento. Ainda, o estado dos diferentes sistemas e instalações da edificação, que apresentavam vícios, avarias, improvisações e muitos deles ao fim de sua vida útil, quando não mais é garantido o adequado desempenho.
A maioria dos ambientes apresentou considerável degradação e poucos apresentavam alguma conservação de acabamento, como pinturas. Além disso, foi apontado desníveis e degraus entre os ambientes e muitos vestígios de umidade, mofo, plantas nascendo das estruturas, infiltrações, ferrugem, desplacamento de revestimentos, vidros quebrados, esquadrias danificadas ou deterioradas, fissuras e rachaduras em estruturas.
“No hospital, metade dele chove dentro. O telhado está totalmente comprometido, tem que refazer todo, todas as esquadrilhas, toda parte elétrica. Os fios são da década de 40, os equipamentos estão todos deteriorados, ou muito antigos e não têm mais uso, estão todos condenados, têm o aparelho de raio-x em tomógrafo lá, mas são muito velhos, têm o laudo até do engenheiro clínico que já estão obsoletos e não podem mais ser utilizados”, diz Fernanda. Ela afirma que, apesar das paredes poderem ser aproveitadas, o restante dos revestimentos precisam ser atualizados.
Fernanda afirmou que seria necessário fazer uma planta e um projeto completo para o espaço. “O hospital é da década de 1940, então até as normas sanitárias e os critérios modificaram muito de lá para cá, como o tamanho do bloco e uma série de coisas teriam que ser adequadas para o funcionamento dentro das normas vigentes da Anvisa e do Ministério da Saúde hoje”, justifica.
Feito o projeto, ainda é necessário fazer as adequações necessárias para começar a obra. “Se [a associação] conseguir recurso para isso, vai levar um um bom tempo para se conseguir. É quase como se fosse uma obra do zero, embora não seja, mas é demorado em função da complexidade e do número de problemas que tem na construção”, diz Fernanda.
Perguntada se busca financiamento privado também, a Associação afirmou que a prioridade é construir uma "parceria sólida" com o gestor do SUS, mantendo o compromisso de ofertar atendimento 100% público e, por isso, a busca por financiamento tem foco em alternativas públicas compatíveis com essa diretriz. A entidade afirma que “continuará buscando alternativas sustentáveis para viabilizar uma estrutura de atendimento hospitalar no local”, com segurança técnica, jurídica e financeira.
Histórico
A ex-proprietária do hospital, a Associação Sanatório Belém, fechou as portas do local em maio de 2017 por problemas financeiros, encerrando as atividades e demitindo funcionários. Em 2018, a antiga diretoria dizia lutar para tentar reabrir o hospital e voltar a atender a comunidade. Luiz Augusto Pereira, presidente da Associação Sanatório Belém, afirmou à época que havia alguns pequenos reparos que precisam ser feitos na estrutura, mas "nada que necessite de muitos investimentos".
Em 2023, um leilão foi organizado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4), para que o valor obtido na venda fosse destinado para ex-funcionários que foram demitidos, mas as dívidas eram grandes. A Associação Hospitalar Vila Nova adquiriu a estrutura do antigo prédio, com planos de mudar o nome para Sinos de Belém e reabrir as portas em 30 dias com 150 leitos. O negócio ocorreu por meio de um leilão de R$ 17,6 milhões.
Após a homologação do certame em maio, a expectativa da associação era pegar as chaves e começar as obras de revitalização no mesmo mês, mas o Sanatório Belém e a empresa Rickes Comercial LTDA contestaram o resultado e ingressaram com recurso para anular o leilão. O ex-proprietário contestou o cumprimento de prazos de editais e o valor pago pelo imóvel. A briga na Justiça, envolvendo a antiga administração do hospital, atrasou mais ainda a aquisição das chaves.
Em julho de 2023, a limpeza do gramado central começou a ser realizada, mas a revitalização do hospital ficou em ritmo lento. Funcionários começaram a fazer melhorias na área, com início da limpeza e poda do terreno, mas um problema se arrastava desde o início do mês: a falta de fornecimento de energia elétrica e de água. Na época, a expectativa era reabrir as portas do hospital em setembro.
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