Saúde

Segurança no prato: confiança dos consumidores se baseia em boas práticas dos estabelecimentos comerciais

Especialistas em Biomedicina, Nutrição e Negócios apontam de que forma prevenção, capacitação e transparência são fundamentais para garantir a saúde e a confiança

Riscos à saúde também estão presentes em preparações de alimentos que não são cozidos totalmente
Riscos à saúde também estão presentes em preparações de alimentos que não são cozidos totalmente Foto : Pedro Piegas

Sair de casa para fazer uma refeição em um restaurante é uma das práticas mais comuns no cotidiano de quem vive em uma cidade com um setor gastronômico forte. Porém, um prato aparentemente inofensivo pode resultar em sintomas de intoxicação alimentar, como desconforto abdominal, náusea e até febre. Em Porto Alegre, o crescimento de denúncias e, consequentemente, de autuações de restaurantes e bares pela Vigilância Sanitária da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) chama a atenção da população para o debate sobre os riscos biológicos invisíveis relacionados à manipulação de alimentos.

Conforme dados divulgados pelo órgão fiscalizador na última semana de agosto, a capital gaúcha registra mais de 1,4 mil reclamações pelo canal de denúncias da SMS em 2025, número que supera todo o acumulado do ano passado. Dessas, 843 foram consideradas relevantes para a atuação da Vigilância Sanitária e, em agosto, três restaurantes foram investigados por suspeitas de surtos de intoxicação alimentar após 48 consumidores apresentaram sintomas e cerca de 15 precisaram de atendimento médico.

A onda de autuações levou a prefeitura a anunciar medidas extras de fiscalização, incluindo o uso de câmeras corporais pelos agentes. O contexto, potencializado pelas divulgações das operações em plataformas de redes sociais, alerta para um problema que atinge tanto a saúde pública quanto a confiança do consumidor nos estabelecimentos. Para além dos esforços dos órgãos públicos fiscalizadores, especialistas das áreas de Saúde e Negócios defendem que é preciso um empenho integrando prevenção baseada em comprovação científica, capacitação de boas práticas de segurança de alimentos e transparência na gestão dos negócios alimentícios.

Riscos invisíveis no prato

Microrganismos, como bactérias e fungos, bem como suas toxinas são algumas das principais ameaças à saúde nos alimentos consumidos fora de casa. De acordo com a coordenadora do curso de Biomedicina da Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (Fadergs), Fabiana Guichard, os processos de higienização de insumos que não passam por altas temperaturas, como saladas, é um dos pontos mais sensíveis para a integridade dos alimentos. “Se o processo de limpeza não é feito corretamente, mesmo vegetais frescos podem carregar microrganismos e até larvas capazes de causar doenças”, alerta.

Os riscos à saúde também estão presentes em preparações de alimentos que não são cozidos totalmente, mas estão entre as preferências dos brasileiros, como ovos com gema mole, maionese caseira e carnes servidas mal passadas. “Esses exemplos clássicos de descuido podem apresentar ameaças por características desses insumos. A casca do ovo é porosa e pode ser a porta de entrada para contaminações. Já as carnes mal cozidas, quando de procedência duvidosa, podem transmitir parasitoses”, comenta a biomédica.

A ciência atua como aliada para prevenir e identificar contaminações. “As análises bromatológicas avaliam os insumos para garantir a inocuidade desses alimentos, para que não tenham nenhum tipo de microrganismos nem produzam toxinas geradas por eles e que possam causar um surto de doenças de origem alimentar na população”, explica Fabiana. A especialista comenta que as doenças transmitidas pelo alimento (DTA) podem ter origens virais, bacterianas, fúngicas, parasitárias e presença de toxinas, tendo em alimentos mal armazenados ambientes propícios para a sua proliferação, já que quanto mais úmido o alimento, maior a chance de deterioração e contaminação.

Nos casos de intoxicações alimentares, os sintomas surgem a partir de toxinas liberadas por microrganismos presentes no alimento, a exemplo do Botulismo. Sendo uma das DTAs mais frequentes entre os diagnósticos, a salmonelose é causada pela bactéria Salmonella, comumente encontrada em ovos e frangos crus. A especialista explica que o bacilo pode ser propagado por meio de contaminação cruzada de alimentos prontos com insumos infectados, principalmente por higienização inadequada de utensílios de cozinha.

Por isso, segundo Fabiana, toda a cadeia alimentar deve adotar rigorosamente as práticas estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A regulamentação é baseada em estudos que abrangem toda a cadeia de produção do alimento, desde a obtenção das matérias-primas até o produto final que chega ao consumidor. As pesquisas consideram, inclusive, as potenciais contaminações durante esse processo, reforçando a importância das boas práticas durante a fabricação e a manipulação, para que se garanta a segurança do alimento até ser consumido”, explica.

Fórmula básica da segurança de alimentos

Se no laboratório de análises biológicas estão as evidências científicas, dentro das cozinhas a prevenção começa nas práticas diárias. “Capacitar as equipes é a base para reduzir riscos de contaminação”, considera a professora de Nutrição da Fadergs, Rochele Boneti. Legalmente, para a obtenção de alvarás de funcionamento como estabelecimento de refeições, os restaurantes são obrigados a ter uma pessoa do quadro de funcionários com certificado de Boas Práticas de Manipulação de Alimentos. Entretanto, a especialista defende que todos que trabalham com os alimentos e circulam pelas cozinhas deveriam ter o conhecimento adequado.

“A onda de divulgação de fiscalização tem servido para o público estar atento sobre o direito de denunciar e para os estabelecimentos se conscientizarem sobre a importância das boas práticas por parte de todos dentro das cozinhas, já que o alimento é um grande transmissor de doenças”, avalia Rochele. Segundo a docente, há um binômio fundamental que consumidores e restaurantes devem respeitar: tempo e temperatura. O maior perigo de proliferação de riscos biológicos está na chamada “zona crítica de temperatura”, entre 5°C e 60ºC, em que bactérias e outros microrganismos nocivos se multiplicam rapidamente.

“Alimentos frios devem ser mantidos até 5ºC, e os quentes acima de 60ºC. Durante os processos de manipulação, quando se realiza a mudança de temperaturas, como no descongelamento de insumos, por exemplo, é necessário cuidar para que esses alimentos fiquem o menor tempo possível nessa zona crítica entre o resfriamento e a cocção. Esse controle simples faz toda a diferença”, ressalta.

Assim como o controle térmico dos ingredientes, as regras gerais de segurança de alimentos estabelecidas pela Anvisa preza por um conjunto de fundamentos que precisa ser observado diariamente pelas equipes e gestores de cozinha para que as refeições cheguem à mesa em condições ideais:

  • higienização do ambiente, com atenção à estrutura física, equipamentos, móveis e utensílios
  • higiene dos manipuladores, que devem apresentar higiene adequada das mãos
  • sujeira nas unhas ou uso inadequado de adornos
  • controle de pragas, evitando a presença de insetos e roedores em áreas de preparo
  • manutenção da temperatura ideal para cada alimento, respeitando a cadeia de frio ou calor
  • procedência dos ingredientes, garantindo rastreabilidade e certificação da origem

“Além do direito à visitação a cozinhas comerciais, o cliente também pode observar alguns sinais visíveis de higiene do estabelecimento. Banheiros limpos, salão de mesas organizado e buffets bem refrigerados são bons indicadores de que há preocupação com a segurança e saúde dos consumidores. E se após a refeição surgirem sintomas como diarreia, náusea, dor abdominal ou febre, é importante acionar a Vigilância Sanitária pelo telefone 156, disponibilizado pela Prefeitura de Porto Alegre. Esses alertas servem para evitar novos surtos”, reforça Rochele.

A docente destaca ainda que restaurantes que contam com nutricionistas no time tendem a ter protocolos mais claros e rigorosos, assim como aqueles que possuem certificações extras de boas práticas de manipulação de alimentos, como o Programa Alimento Seguro (PAS), que eleva o padrão de segurança alimentar dos estabelecimentos. Essas e outras práticas podem ser um diferencial de confiança para os clientes.

Segurança de alimentos como diferencial de negócio

Os impactos das más práticas de manipulação de alimentos não param na saúde pública. A reputação dos estabelecimentos e a confiança do consumidor também ficam em risco. “A gestão adequada da segurança alimentar pode ser não apenas uma obrigação legal, mas uma estratégia de destaque no ramo de empreendimentos alimentícios”, explica o coordenador da Escola de Negócios da Fadergs, Diogo Simões Pires.

“As notificações e interdições, quando ocorrem, resultam diretamente na perda de confiança em uma marca, o que não necessariamente compromete todo o setor. Na verdade, muitas vezes, aumenta a confiança em concorrentes diretos, já que o consumidor busca sinais de qualidade e se afasta de quem não demonstra transparência”, observa o especialista.

Nesse cenário, a segurança de alimentos deixa de ser apenas uma obrigação burocrática e se torna um ativo essencial. “Estimular visitas à cozinha, divulgar nas redes sociais o cotidiano de processos que vão além do básico sanitário, apresentar a procedência de insumos e buscar selos de qualidade são práticas que fortalecem a credibilidade e geram reputação”, sugere.

A gestão de crise de imagem após uma autuação ou interdição, no entanto, exige relação com o público. Além da regularização imediata dos problemas identificados pela fiscalização, Pires recomenda que o estabelecimento assuma as falhas com responsabilidade, adote medidas corretivas além do mínimo exigido e comunique à comunidade o empenho com as melhorias. “A postura proativa é sempre mais eficiente que uma comunicação de confronto ou desculpas. Mostrar soluções e se comprometer com mudanças de práticas é o caminho para reconquistar a confiança no médio prazo”, reforça o professor.

Além das primeiras medidas de adequação à legislação, a consistência no longo prazo será o diferencial na manutenção do negócio, conforme o especialista. “O consumidor valoriza marcas que demonstram compromisso com a qualidade dos seus produtos e bem-estar de seus clientes por meio do histórico de boas práticas. Compromisso com a segurança dos alimentos também é sinônimo de sustentabilidade de negócio”, completa.

Alimentação com segurança é compromisso coletivo

Da matéria-prima ao prato, passando pelo laboratório, pela cozinha e pelo gerenciamento do negócio, a segurança de alimentos é um tema que exige visão integrada. Enquanto a biomedicina alerta para os riscos biológicos invisíveis, as boas práticas de nutrição reforçam a importância da manipulação correta e gestores destacam a transparência e a confiança como pilares do relacionamento com o público. “Garantir a inocuidade dos alimentos não é só responsabilidade da fiscalização, das análises laboratoriais ou dos nutricionistas, mas de toda a cadeia produtiva”, reforça Fabiana Guichard.

Em um cenário de aumento de queixas, refeições seguras não são apenas resultado de regras sanitárias. Servir comida adequada é proteger a saúde da população, preservar a reputação dos negócios e cultivar uma relação de confiança que tem no prato apenas o seu começo.

Veja Também