Saúde

Um a cada 50: o que está por trás da epidemia de HIV na região metropolitana de Porto Alegre

Um terço dos participantes da pesquisa realizada pelo Hospital Moinhos de Vento não sabia do diagnóstico

Cinquenta e seis cidades gaúchas fizeram parte da pesquisa do Hospital Moinhos de Vento
Cinquenta e seis cidades gaúchas fizeram parte da pesquisa do Hospital Moinhos de Vento Foto : Camila Cunha

O Rio Grande do Sul vive um perigo silencioso: uma epidemia do vírus HIV. Essa realidade foi revelada por uma pesquisa divulgada em agosto deste ano, encomendada pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). Ela trouxe à tona dados alarmantes sobre a situação do HIV no território gaúcho, sobretudo em Porto Alegre e na região metropolitana.

A médica e mestre em epidemiologia, Eliana Wendland, do Hospital Moinho de Ventos, responsável pela pesquisa, destaca que o estado apresenta a maior taxa de mortalidade por HIV no Brasil, com a capital sendo o município com maior incidência.

“A pesquisa foi planejada para representar toda a população do Rio Grande do Sul, dividindo o estado em macrorregiões de saúde. Foram sorteados 56 municípios, e dentro de cada um, setores censitários e, posteriormente, pessoas e casas para entrevistas. A seleção dos participantes dentro das casas foi feita escolhendo a próxima pessoa a fazer aniversário, garantindo a representatividade dos resultados”, explica a médica sobre a metodologia do estudo.

Os números são categóricos: a região metropolitana de Porto Alegre apresenta uma taxa de prevalência de 1,64% de pessoas vivendo com HIV, ou seja, uma a cada 50 pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera uma epidemia generalizada quando a prevalência ultrapassa 1%.

“Isso significa que a circulação do vírus não está mais restrita a grupos específicos, mas ocorre na população em geral. Essa mudança exige uma alteração na mentalidade e nas estratégias de prevenção e diagnóstico da doença”, pontua a especialista.

Combate ao estigma e ao tabu

A médica pesquisadora destaca que o tabu e o preconceito em torno do HIV e da AIDS ainda são grandes. “É fundamental reforçar que pessoas soropositivas podem ter uma vida normal, com acompanhamento e tratamento adequados. O tratamento permite diminuir a carga viral no organismo, garantindo uma vida plena”, pontua.

“A falta de conhecimento sobre a doença, suas formas de transmissão e diagnóstico contribui para a manutenção do tabu e do preconceito. É crucial desmistificar a ideia de que o HIV pode ser contraído em banheiros públicos ou compartilhando talheres, o que não é verdade. A comunicação e a educação são essenciais para frear o crescimento das ISTs”, completa.

A importância da testagem precoce e ausência de sintomas iniciais

Um terço das pessoas que testaram positivo na pesquisa não sabia que tinha o vírus. Eliana enfatiza que o HIV, assim como outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), não apresenta sintomas no início da doença. Por isso, a testagem precoce é crucial, mesmo na ausência de sintomas. “A testagem garante um tratamento mais rápido, o que, por sua vez, diminui a transmissão a nível populacional e melhora a expectativa e qualidade de vida das pessoas infectadas.”, destaca.

A médica ressalta que a mentalidade de que apenas "grupos de risco" precisam se testar está ultrapassada. “Com a epidemia generalizada, o risco é de todos, e a testagem se torna a principal ferramenta para controlar a epidemia”, destaca.

Veja Também

Um dos maiores obstáculos no combate à epidemia é o desconhecimento. Para reverter esse quadro, a SES afirma que realizou a descentralização e facilitação do acesso aos exames.

Conforme a pasta, atualmente, 2.950 unidades básicas de saúde oferecem testes rápidos e mesmo com as enchentes que afetaram o estado em 2024, houve um aumento de 30,5% na oferta de testes rápidos de HIV em comparação a 2019.

Além disso, a SES afirma que já disponibiliza autotestes para que os municípios distribuam à população , buscando alcançar especialmente as populações mais vulneráveis, como pessoas de baixa escolaridade e classes sociais mais baixas.

Políticas públicas e educação sexual

A pesquisa sugere a necessidade de testagem em massa e facilidade no acesso aos exames. Eliana propõe políticas públicas que incluam:

  • Horários estendidos em unidades de saúde: para que os trabalhadores possam realizar o teste após o expediente.
  • Campanhas de testagem em locais de grande circulação: como mercados públicos, praças e orlas, para alcançar pessoas que não conseguem procurar uma unidade de saúde.

“A educação sexual é fundamental e deve ser abordada antes do início da atividade sexual. Falar sobre o assunto não incentiva o sexo, mas capacita os jovens a tomarem decisões informadas sobre seus corpos e a praticarem a prevenção desde o início de sua vida sexual”, completa a médica.

A SES destaca que o programa Geração Consciente atua diretamente com jovens. Presente em 173 municípios e mais de 850 escolas , o projeto aborda saúde sexual, mental e prevenção de violências com alunos dos anos finais do ensino fundamental e médio.

Prevenção e tratamento

As testagens para HIV são gratuitas e facilmente acessíveis nos postos de saúde. Eliane explica que o teste é rápido, feito com uma gota de sangue na ponta do dedo, e o resultado sai em 20 a 30 minutos.

Ela destaca que além do preservativo, que continua sendo a principal forma de prevenção contra o HIV e outras ISTs (como sífilis, gonorreia e clamídia), existem outras tecnologias disponíveis:

  • PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): para pessoas que sabem que se exporão a uma relação sexual desprotegida com maior risco de infecção por HIV.
  • PEP (Profilaxia Pós-Exposição): para pessoas que se expuseram ao vírus de forma inadvertida, como em casos de violência.

A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) tem ganhado adesão. Desde 2019, houve um aumento de 87,5% no número de pessoas utilizando essa tecnologia no estado, conforme a SES.

Recomendações para a população

Para contribuir com a redução do estigma e do tabu, a população deve:

  • Informar-se: saber onde fazer o teste e buscar informações sobre as formas de transmissão.
  • Fazer o teste: não ter vergonha e priorizar a testagem para HIV e outras ISTs.
  • Conversar sobre o assunto: promover o diálogo sobre prevenção e diagnóstico, sem buscar culpados.
  • Propagar informações corretas: ajudar a desmistificar a doença.

Eliana lembra que o teste é gratuito e rápido, e o tratamento também é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Cuidar da saúde e do próximo é uma proposição importante para todos”, finaliza.