O Rio Grande do Sul vive um perigo silencioso: uma epidemia do vírus HIV. Essa realidade foi revelada por uma pesquisa divulgada em agosto deste ano, encomendada pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). Ela trouxe à tona dados alarmantes sobre a situação do HIV no território gaúcho, sobretudo em Porto Alegre e na região metropolitana.
A médica e mestre em epidemiologia, Eliana Wendland, do Hospital Moinho de Ventos, responsável pela pesquisa, destaca que o estado apresenta a maior taxa de mortalidade por HIV no Brasil, com a capital sendo o município com maior incidência.
“A pesquisa foi planejada para representar toda a população do Rio Grande do Sul, dividindo o estado em macrorregiões de saúde. Foram sorteados 56 municípios, e dentro de cada um, setores censitários e, posteriormente, pessoas e casas para entrevistas. A seleção dos participantes dentro das casas foi feita escolhendo a próxima pessoa a fazer aniversário, garantindo a representatividade dos resultados”, explica a médica sobre a metodologia do estudo.
Os números são categóricos: a região metropolitana de Porto Alegre apresenta uma taxa de prevalência de 1,64% de pessoas vivendo com HIV, ou seja, uma a cada 50 pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera uma epidemia generalizada quando a prevalência ultrapassa 1%.
“Isso significa que a circulação do vírus não está mais restrita a grupos específicos, mas ocorre na população em geral. Essa mudança exige uma alteração na mentalidade e nas estratégias de prevenção e diagnóstico da doença”, pontua a especialista.
Combate ao estigma e ao tabu
A médica pesquisadora destaca que o tabu e o preconceito em torno do HIV e da AIDS ainda são grandes. “É fundamental reforçar que pessoas soropositivas podem ter uma vida normal, com acompanhamento e tratamento adequados. O tratamento permite diminuir a carga viral no organismo, garantindo uma vida plena”, pontua.
“A falta de conhecimento sobre a doença, suas formas de transmissão e diagnóstico contribui para a manutenção do tabu e do preconceito. É crucial desmistificar a ideia de que o HIV pode ser contraído em banheiros públicos ou compartilhando talheres, o que não é verdade. A comunicação e a educação são essenciais para frear o crescimento das ISTs”, completa.
A importância da testagem precoce e ausência de sintomas iniciais
Um terço das pessoas que testaram positivo na pesquisa não sabia que tinha o vírus. Eliana enfatiza que o HIV, assim como outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), não apresenta sintomas no início da doença. Por isso, a testagem precoce é crucial, mesmo na ausência de sintomas. “A testagem garante um tratamento mais rápido, o que, por sua vez, diminui a transmissão a nível populacional e melhora a expectativa e qualidade de vida das pessoas infectadas.”, destaca.
A médica ressalta que a mentalidade de que apenas "grupos de risco" precisam se testar está ultrapassada. “Com a epidemia generalizada, o risco é de todos, e a testagem se torna a principal ferramenta para controlar a epidemia”, destaca.
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Um dos maiores obstáculos no combate à epidemia é o desconhecimento. Para reverter esse quadro, a SES afirma que realizou a descentralização e facilitação do acesso aos exames.
Conforme a pasta, atualmente, 2.950 unidades básicas de saúde oferecem testes rápidos e mesmo com as enchentes que afetaram o estado em 2024, houve um aumento de 30,5% na oferta de testes rápidos de HIV em comparação a 2019.
Além disso, a SES afirma que já disponibiliza autotestes para que os municípios distribuam à população , buscando alcançar especialmente as populações mais vulneráveis, como pessoas de baixa escolaridade e classes sociais mais baixas.
Políticas públicas e educação sexual
A pesquisa sugere a necessidade de testagem em massa e facilidade no acesso aos exames. Eliana propõe políticas públicas que incluam:
- Horários estendidos em unidades de saúde: para que os trabalhadores possam realizar o teste após o expediente.
- Campanhas de testagem em locais de grande circulação: como mercados públicos, praças e orlas, para alcançar pessoas que não conseguem procurar uma unidade de saúde.
“A educação sexual é fundamental e deve ser abordada antes do início da atividade sexual. Falar sobre o assunto não incentiva o sexo, mas capacita os jovens a tomarem decisões informadas sobre seus corpos e a praticarem a prevenção desde o início de sua vida sexual”, completa a médica.
A SES destaca que o programa Geração Consciente atua diretamente com jovens. Presente em 173 municípios e mais de 850 escolas , o projeto aborda saúde sexual, mental e prevenção de violências com alunos dos anos finais do ensino fundamental e médio.
Prevenção e tratamento
As testagens para HIV são gratuitas e facilmente acessíveis nos postos de saúde. Eliane explica que o teste é rápido, feito com uma gota de sangue na ponta do dedo, e o resultado sai em 20 a 30 minutos.
Ela destaca que além do preservativo, que continua sendo a principal forma de prevenção contra o HIV e outras ISTs (como sífilis, gonorreia e clamídia), existem outras tecnologias disponíveis:
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): para pessoas que sabem que se exporão a uma relação sexual desprotegida com maior risco de infecção por HIV.
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição): para pessoas que se expuseram ao vírus de forma inadvertida, como em casos de violência.
A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) tem ganhado adesão. Desde 2019, houve um aumento de 87,5% no número de pessoas utilizando essa tecnologia no estado, conforme a SES.
Recomendações para a população
Para contribuir com a redução do estigma e do tabu, a população deve:
- Informar-se: saber onde fazer o teste e buscar informações sobre as formas de transmissão.
- Fazer o teste: não ter vergonha e priorizar a testagem para HIV e outras ISTs.
- Conversar sobre o assunto: promover o diálogo sobre prevenção e diagnóstico, sem buscar culpados.
- Propagar informações corretas: ajudar a desmistificar a doença.
Eliana lembra que o teste é gratuito e rápido, e o tratamento também é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Cuidar da saúde e do próximo é uma proposição importante para todos”, finaliza.