Um dos passeios semanais obrigatórios para alguns porto-alegrenses é a visita à Feira Ecológica do Bom Fim nas manhãs de sábado. O que muitos não sabem é que, neste sábado, ela completou 35 anos de existência, sempre no mesmo local, na avenida José Bonifácio, junto ao Parque Farroupilha (Redenção), em Porto Alegre.
O céu ensolarado colaborou, e o movimento de público era intenso no dia do aniversário, mesmo com a temperatura de 13°C. A dona de casa Aurélia Zuchetto, 66 anos, foi ao local para prestigiar a data especial e aproveitou para levar algumas frutas.
“Eu tenho meu neto, então gosto de vir comprar banana, que é própria para bebê, a batata, a batatinha-baroa. Essas coisas assim, que têm diferenciais e são para criança, são produtos naturais”, comenta a avó de Gianluca, de apenas cinco meses.
Frequentadora da feira há 20 anos, ela conta que já conhece alguns feirantes e seus produtos, mas notou mudanças depois da pandemia. “Eu notei que muita gente não vem mais à feira. Alguns feirantes que a gente comprava... Eu senti falta desse carinho, dessas pessoas que a gente vinha para acompanhar”, lamenta.
Comércio diferenciado
A variedade de produtos in natura chama a atenção, com frutas, verduras e hortaliças, além de bolos, pães, geleias, sucos, entre outros. Os produtores vêm de várias partes do Rio Grande do Sul e também de áreas rurais de Porto Alegre, como é o caso de Régis Bruhn, integrante da comissão organizadora da feira.
“A parte boa da feira é que, tendo muito produto ou pouco produto, tu sempre vende alguma coisa. Principalmente para quem vende verdura, às vezes é um pouco complicado: tem muito produto e não consegue comercializar tudo. E a feira funciona como um grande regulador de fluxo para quem é produtor de alimento, principalmente perecível”, revela o produtor, que tem uma propriedade no bairro Lami, no Extremo Sul de Porto Alegre, e comercializa verduras como alface, salsa, rúcula e couve desde 2003 na feira.
Segundo ele, são 54 famílias de produtores no local, com 94 bancas — alguns produtores possuem mais de uma. A maioria vem de regiões como o Litoral Norte e a Serra Gaúcha, além de Porto Alegre e da Região Metropolitana. Na feira, a maior parte do público é composta por pessoas acima dos 40 anos, mas os comerciantes observam um aumento de clientes na faixa dos 20 anos nos últimos tempos.
Para Bruhn, um dos diferenciais da feira é o atendimento humanizado.
“A forma de pensar do comerciante é um pouquinho diferente da do produtor. A gente procura interagir bastante com os clientes para saber a história, o que gostam, o que não gostam. Às vezes tem alguma coisa que eu tenho em casa, por exemplo, que a pessoa está precisando, sei lá, algum tipo de erva medicinal ou coisa assim. E a gente sempre procura atender de forma bem completa as pessoas, o que acaba criando um vínculo.”
Um pouco da história da Feira Ecológica do Bom Fim
Seguindo o pioneirismo do movimento ambiental no Brasil, a Feira Ecológica do Bom Fim (FEBF) surgiu em Porto Alegre (RS) em agosto de 1991, marcando a segunda iniciativa do gênero no país com foco na venda de produtos orgânicos diretamente do produtor ao consumidor.
Dois anos após a instalação da Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), idealizada pela Cooperativa Ecológica Colmeia, a crescente demanda de novos agricultores e agroindústrias em busca de um espaço para comercializar alimentos in natura e agroindustrializados sem o uso de agrotóxicos, bem como o aumento do número de consumidores conscientes, resultou na criação da também chamada segunda quadra, espaço independente e viabilizado através de tratativas com o Executivo municipal.
O trecho, localizado na Avenida José Bonifácio, entre as ruas Vieira de Castro e Santa Teresinha, germinou em número de expositores e diversidade, contando atualmente com 54 famílias oriundas de Porto Alegre, região Metropolitana, Serra Gaúcha, Litoral Norte, entre outras localidades do Rio Grande do Sul. Elas ocupam 90 boxes/bancas, levando diretamente para os consumidores o resultado de seu trabalho todos os sábados, inclusive feriados, das 7h às 13h. São aproximadamente 150 pessoas atuando na venda direta.
Aqui vale um adendo: olhando de fora, frequentadores enxergam uma só feira, gigante e diversa, com cerca de 150 bancas, que vai até quase a Avenida Osvaldo Aranha. No entanto, são dois sistemas distintos de organização ocupando a via: a FEBF é fruto da união de diversas associações e cooperativas e a FAE opera sob o guarda-chuva da Associação Agroecológica, entre outras organizações e cooperativas. As diferenças param por aí, já que ambas oferecem produtos exclusivamente orgânicos e certificados e, em vários momentos, realizam ações em parceria, como a campanha de retirada das sacolas plásticas, em operação desde maio de 2019. Juntas, elas são o maior espaço a céu aberto de comercialização de orgânicos da América Latina.
A gestão da FEBF é realizada por uma Comissão de Feira, sempre com decisões levadas ao coletivo e debatidas em reuniões matinais. Os representantes são escolhidos por votação entre os feirantes.